sábado, maio 12, 2007

República Corporativa do Brasil

Carlos Chagas, Tribuna da Imprensa

BRASÍLIA - Qualquer dia desses a estátua implantada diante do Supremo Tribunal Federal, na Praça dos Três Poderes, amanhecerá com um furinho na venda. A intenção do escultor, Alfredo Cescchiatti, parecia demonstrar que a Justiça era cega, mas pelo jeito frustrou-se. De cega ela não tem nada.
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Juiz favorece juiz, como ficou claro na recente libertação dos magistrados presos por acusação de venda de sentenças a bicheiros. A decisão foi do ministro César Peluzo, do STF. É claro que polícia também favorece polícia, como político favorece político, médico favorece médico e padeiro favorece padeiro, entre tantas outras categorias.

Vivemos a República Corporativa do Brasil, e quem se irrita com a libertação de desembargadores, juízes e até procuradores não deveria espantar-se. Ainda nos escândalos do mensalão e dos sanguessugas, quantos deputados tiveram seus mandatos cassados? Três, entre mais de cem. Nem se fala do absurdo que é o foro privilegiado, cada vez mais amplo, beneficiando não só os detentores de mandato e ocupantes de altos cargos da administração pública. O grave é a distância que aumenta entre os privilegiados e o cidadão comum.

Vivemos, ou vivem os neoliberais, exaltando exemplos do que acontece nos Estados Unidos, mas seria bom lembrar fato acontecido com Edward Kennedy. Depois do assassinato de dois de seus irmãos, John e Robert, seu nome despontava como possível candidato à presidência. Passeando de carro com uma secretária, no interior, perdeu a direção e caiu num lago. Salvou-se, mas deixou a indigitada jovem morrer afogada. Apesar de senador, foi parar na delegacia e terminou julgado por um juiz de província. Nenhuma prerrogativa especial existia para livrá-lo do processo, cujo resultado maior foi o sepultamento de sua candidatura presidencial.