Reinaldo Azevedo
Como vocês sabem, este blog batizou de “Sealopra” aquela pasta que será ocupada por Roberto Mangabeira Unger, aquele pastor, quer dizer, aquele professor que integra os quadros do PRB, o partido do autoproclamado-por-si-mesmo bispo Edir Macedo, da autofundada-por-si-mesma Igreja Universal do Reino de Deus. O homem da Sealopra concede uma entrevista a Plínio Fraga na Folha desta segunda. Seguem trechos e link. Volto depois:
Como vocês sabem, este blog batizou de “Sealopra” aquela pasta que será ocupada por Roberto Mangabeira Unger, aquele pastor, quer dizer, aquele professor que integra os quadros do PRB, o partido do autoproclamado-por-si-mesmo bispo Edir Macedo, da autofundada-por-si-mesma Igreja Universal do Reino de Deus. O homem da Sealopra concede uma entrevista a Plínio Fraga na Folha desta segunda. Seguem trechos e link. Volto depois:
Mangabeira deixa a universidade em que leciona há 38 anos e recebe salário anual de US$ 270 mil -cerca de R$ 44 mil por mês- para assumir um cargo que lhe pagará pouco mais de R$ 8.000 mensais.
Prega a ampliação de oportunidades econômicas e educacionais a uma "classe média emergente, inovadora, que constrói uma nova cultura de auto-ajuda e que é a vanguarda do povo" -sendo o horizonte que a maioria pobre quer seguir, cujo "ideal não é proletário, mas pequeno burguês".
Acredita que o país tem uma "força de trabalho flexível e engenhosa e que pode escapar do destino de ser uma China menos populosa, com trabalho mal-remunerado e oprimido" para se tornar conhecido como o "país da inovação".
(...)
FOLHA - Depois de tudo o que escreveu, quem errou ou quem mudou: o sr. ou o presidente Lula?
ROBERTO MANGABEIRA UNGER - Errei. Os fatos demonstraram que o presidente não teve envolvimento direto ou indireto naqueles episódios e que insistiu, com a energia exigida pelo cargo, na averiguação necessária. Se até hoje a nação não sabe com exatidão o que aconteceu e quem de fato tem culpa pelos desvios que hajam ocorrido, não é por conta dele.Nossas instituições políticas falharam duas vezes. Primeiro em manter regras, principalmente de financiamento das campanhas, que deixam os partidos vulneráveis às confusões dos financiamentos e às enroscadas do dinheiro; segundo, em deixar de chegar a uma conclusão segura a respeito do ocorrido. Fica a lição pessoal de que não basta ser ardoroso, como sou. O ardor precisa ser qualificado pela humildade, pela dúvida, pela abertura de espírito.Ao convidar a mim, que combati com veemência o seu primeiro governo, o presidente demonstrou magnanimidade, que costuma ter duas raízes: força interior e preocupação com o futuro. O mesmo presidente que eu havia atacado em termos tão veementes me convida para participar dessa obra de transformação. Eu posso dizer não? Essa é uma concepção moral em política que eu não compartilho.
ROBERTO MANGABEIRA UNGER - Errei. Os fatos demonstraram que o presidente não teve envolvimento direto ou indireto naqueles episódios e que insistiu, com a energia exigida pelo cargo, na averiguação necessária. Se até hoje a nação não sabe com exatidão o que aconteceu e quem de fato tem culpa pelos desvios que hajam ocorrido, não é por conta dele.Nossas instituições políticas falharam duas vezes. Primeiro em manter regras, principalmente de financiamento das campanhas, que deixam os partidos vulneráveis às confusões dos financiamentos e às enroscadas do dinheiro; segundo, em deixar de chegar a uma conclusão segura a respeito do ocorrido. Fica a lição pessoal de que não basta ser ardoroso, como sou. O ardor precisa ser qualificado pela humildade, pela dúvida, pela abertura de espírito.Ao convidar a mim, que combati com veemência o seu primeiro governo, o presidente demonstrou magnanimidade, que costuma ter duas raízes: força interior e preocupação com o futuro. O mesmo presidente que eu havia atacado em termos tão veementes me convida para participar dessa obra de transformação. Eu posso dizer não? Essa é uma concepção moral em política que eu não compartilho.
FOLHA - O sr. escreveu que o presidente é "avesso ao trabalho e ao estudo". Isso também mudou?
MANGABEIRA - Fui claramente injusto com o presidente. O homem que encontrei em Brasília está possuído por um sentimento de tarefa. Não precisa ser livresco para isso.
(...)
FOLHA - O que fará a Secretaria Especial de Ações de Longo Prazo?
MANGABEIRA - A tarefa de pensar o futuro se traduz no debate de propostas concretas. Vou dar exemplos de preocupações e propostas. Falo como pensador e cidadão. Temos de dar instrumentos à energia dispersa e frustrada do país.
MANGABEIRA - A tarefa de pensar o futuro se traduz no debate de propostas concretas. Vou dar exemplos de preocupações e propostas. Falo como pensador e cidadão. Temos de dar instrumentos à energia dispersa e frustrada do país.
Em economia, um país da inovação, em educação, um ensino capacitador e, em política, uma democracia mudancista de alta energia que, sem transigir em nada de garantias constitucionais e sem enfraquecer a democracia representativa, comece pouco a pouco com grande cuidado a enriquecê-la com elementos de participação nos processos decisórios. Há certas propostas que são vistas como importantes, mas utópicas, e outras que são vistas como factíveis, mas por isso triviais.
FOLHA - Como traduzir isso em ações práticas?
MANGABEIRA - Se nós olharmos embaixo, para essa classe média emergente, temos uma nova forma associativa e de auto-ajuda no Brasil, que o país não vê. Temos que revelar isso ao país. Esse Brasil que já deu certo fornecerá diretrizes para a proposta. Criar oportunidades para a classe média emergente e permitir que a maioria a siga é uma revolução. O meio é reorganizar pouco a pouco as instituições econômicas.
Voltei
Começo dizendo que Mangabeira não tem problema de grana. Só um servicinho prestado à Brasil Telecom quando Daniel Dantas era o chefão da empresa lhe rendeu US$ 2 milhões. Mesmo para quem não é herdeiro, já dá para deixar uma herança... Vamos ao resto.
Tio Rei desenvolveu uma coisa chamada “MIP” — Método para Identificar Picaretagem. Consiste no seguinte: quando você indaga alguém sobre alguma coisa prática, veja se a resposta se concentra em substantivos concretos ou abstratos. Se for nos abstratos, é batata: trata-se de uma picaretagem. O repórter da Folha pergunta a Mangabeira que diabos, afinal, fará a Sealopra. E ele responde: “Temos de dar instrumentos à energia dispersa e frustrada do país. Em economia, um país da inovação, em educação, um ensino capacitador e, em política, uma democracia mudancista de alta energia que, sem transigir em nada de garantias constitucionais e sem enfraquecer a democracia representativa, comece pouco a pouco com grande cuidado a enriquecê-la com elementos de participação nos processos decisórios.” Você entenderam alguma coisa? É claro que ele também não entendeu. Porque isso não quer dizer absolutamente nada. Todos os substantivos em negrito são abstratos. Mangabeira está afirmando que ele acha o Brasil bacana e que isso é muito... bacana. Existiria, como diria Raul Seixas, uma “energia solta no ar” em busca de instrumentos. Sei...
Na resposta seguinte, fica claro por que Mangabeira se entende bem com Edir Macedo. Ele vê uma classe média ascendente em torno do eixo de uma certa auto-ajuda. A coisa mais próxima que conheço disso é a Teologia da Prosperidade das seitas neopetencostais. É bem verdade que, nesse caso, o fiel também precisa fazer um pequeno investimento. Ele aposta um dinheirinho, entregando a grana para a corretagem dos pastores, que a investem no céu. Aí é só aguardar a subida do Ibovac e realizar lucros. O Ibovac é o Índice da Bolsa de Valores do Céu, uma versão neopetecostal do Ibovespa.
Quanto à abjuração intelectual que ele faz, dizer o quê? Já fez o mea-culpa na Folha. Espero que agora poupe a República desse constrangimento no discurso de posse. Não precisa mais. Entendemos tudo. Confuso, ele também achava que Lula sabia das lambanças. Depois, descobriu que a culpa era da vítima — vale dizer: das instituições, aquelas mesmas que foram enxovalhadas pelo PT e pelo governo Lula, que ele integra agora. Mangabeira vai para a Sealopra. É o lugar certo pra ele.