O Estado de São Paulo
'ABC Color', do Paraguai, ataca tratado sobre Itaipu
O jornal conservador paraguaio ABC Color, o mais influente do país, dedicou a primeira página de sua edição de ontem a um editorial no qual denuncia o 'infame e repudiável neocolonialismo' do Brasil e da Argentina por causa da intenção de ambos de controlar o 'mais valioso recurso energético' do país, a energia hídrica.
'ABC Color', do Paraguai, ataca tratado sobre Itaipu
O jornal conservador paraguaio ABC Color, o mais influente do país, dedicou a primeira página de sua edição de ontem a um editorial no qual denuncia o 'infame e repudiável neocolonialismo' do Brasil e da Argentina por causa da intenção de ambos de controlar o 'mais valioso recurso energético' do país, a energia hídrica.
O editorial foi publicado horas antes da chegada dos presidentes dos países do Mercosul a Assunção, para participar da 33ª cúpula do bloco, que termina hoje. Para o jornal, o Mercosul é um processo 'inútil'.
A denúncia atende a setores descontentes com os tratados firmados pelo país com o Brasil e a Argentina para a construção das Hidrelétricas de Itaipu e de Yaciretá. Brasil e Argentina se recusam a renegociar esses acordos.Segundo o ABC, o 'absoluto desprezo pela soberania paraguaia' começou em 1973, quando Argentina e Brasil recorreram aos 'iníquos e leoninos acordos negociados com autoridades corruptas da ditadura de Alfredo Stroessner' para explorar a energia do Rio Paraná.
Para o jornal, com base nos termos dos tratados, a Argentina e o Brasil criaram um 'mecanismo vergonhoso de usura que permite aumentar as gigantes dívidas das companhias binacionais (das hidrelétricas)'.
No texto, o presidente do Paraguai, Nicanor Duarte Frutos, foi chamado 'traidor da Pátria' por tentar convencer os parlamentares do país que a dívida da Yaciretá, de US$ 10,9 bilhões, decorre de um cálculo contábil e por sugerir a sua troca pela venda de energia barata à Argentina.
Apesar das pressões, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deixou claro, em sua visita oficial a Assunção, em maio, que o tratado de Itaipu não seria rediscutido.
O Paraguai reivindica mudanças das regras de pagamento da dívida de US$ 19 bilhões da Binacional Itaipu com o Tesouro Nacional e a Eletrobrás, fixadas no Tratado de Itaipu, de 1973, e no acordo de renegociação da dívida, de 1997. Há pelo menos dois anos, o Paraguai pressiona pelo 'fim da dupla indexação' das parcelas dessa dívida, o equivalente a US$ 1,7 bilhão em 2005.
O acordo de 1997 estabeleceu a remuneração da dívida com base em uma taxa de juros fixa de 7,5% ao ano, mais a variação da inflação americana, medida por dois índices. Na época, a inflação nos Estados Unidos era quase negativa. Hoje, mais alta, passou a pesar nos compromissos de Itaipu com o caixa brasileiro.
O argumento para eliminar a indexação pela inflação americana é tortuoso: isso diminuiria os desembolsos de Itaipu com a dívida e, assim, restaria mais dinheiro para obras sociais da empresa em ambos os países.