INTRANSIGÊNCIA NÃO LEVARÁ BRASIL A LUGAR NENHUM.
Adelson Elias Vasconcellos, Comentando a Notícia
Em 17.09.2006, publicamos um artigo sob o título “Hora de sair da casca do ovo” (clique aqui), em que concluíamos afirmando o seguinte:
“(..) O mundo independente do Brasil. Ou nos ajustamos a ele, ou ficaremos à margem do progresso que ele poderia nos proporcionar. Nada é mais ridículo do que acenarmos bandeiras ideológicas como justificativas para a burrice, enquanto vemos quase 50% da nossa juventude desempregada e sem perspectivas, vendo milhares indo para outros países todos os anos, e mais de 10,0% históricos da massa trabalhadora aceitando qualquer coisa para sobreviver. Ninguém aceita viver na miséria, ou sob o paternalismo estatal. As pessoas querem progresso, melhoria na sua qualidade de vida. E isto independe de ideologia. E por fim pensem no seguinte: o único bloco econômico de que participamos é o MERCOSUL.
Pergunta-se: dá para vivermos só disso ? Acho que está na hora de sairmos de dentro da casca do ovo, se o objetivo for mesmo crescimento econômico e melhoria de vida. Já nem se diga de questões cambiais, que apesar de sua importância, acaba se tornando um detalhe a mais dentre outros: trata-se, claramente, de que lado do mundo queremos ficar.
Deixemos a filosofia para os filósofos e as ideologias para os acadêmicos. E tratemos com objetividade e realismo daquilo que realmente interessa e preocupa a quase 190,0 milhões de brasileiros (...)".
Ora, vocês leram nas matérias da edição de hoje do COMENTANDO A NOTÍCIA, a difícil posição que ficou o Brasil a partir do momento em que o nosso embaixador Celso Amorim retirou-se, junto com o representante da Índia, da reunião do G-4, em que se buscava um consenso para a conclusão da Rodada de Doha. Inclusive, no mesmo dia, criticamos a posição de intransigência de Celso Amorim, que reflete a posição de intransigência do governo brasileiro, comandado por Lula, tanto que publicamos a reportagem da Tribuna da Imprensa e ficou claro que a posição é de Lula.
Que o Brasil seja duro ao negociar os interesses do país é até uma obrigação. Tivesse feito isto por exemplo com o índio cocaleiro, não estaríamos de joelhos pelo gás boliviano. Tivesse agido da mesma forma com Chavez, e talvez o venezuelano não tivesse ou exercesse a autoridade que hoje ostenta para fazer o que lhe der na telha, seja certo ou não.
Há sim, mesmo que o governo Lula não enxergue, uma grande vontade dos países ricos para negociar aberturas em seus pontos de vista. De nosso lado, ou se faz o que queremos ou não se negocia nada. Ora, isto não é negociação, isto é ignorância pura. Se o que queremos é que EUA e União Européia cedam em reduzir seus subsídios agrícolas, existem outras maneiras de se conseguir convencê-los a ceder. Não é dando soco na mesa, levantando e indo embora que chegaremos ao entendimento.
No artigo de setembro, alertávamos para que o Brasil não se fechasse tanto com parceiros não confiáveis, porque isso nos traria dissabores e nos isolaria do restante do mundo e do mundo civilizado diga-se. Era uma premonição ? Não, apenas ver a tendência do que a nossa posição em muitos aspectos da política externa adotada pelo atual governo poderia nos levar.
Vocês leram aqui ou na imprensa, a notícia divulgada ontem de que a China já pratica pirataria com carne brasileira ! É mole ? Não, é triste e preocupante, porque por causa desta pirataria com carne brasileira, estamos na eminência da Rússia suspender todas as nossas exportações de carne para aquele país . E a Rússia, é bom reconhecer, é um dos nossos mais tradicionais compradores de carnes.
Esta intransigência já vai provocar prejuízos imediatos, aliás, exatamente como previsto. Leiam que os EUA já está nos retirando do Sistema Geral de Tarifas, juntamente com outros emergentes. Ou seja, vamos perder mercados, divisas e, claro, não apenas os EUA praticarão retaliação aos produtos made in Brazil, mas logo outros países do Primeiro Mundo se sentirão tentados em fazer o mesmo. E acreditem, é só o começo.
Precisava chegar a isto ? Não, é lógico. Porém, o que parece que Lula não consegue enxergar é que o Brasil, no conceito de comércio internacional, ainda é bastante irrelevante, e que apesar do crescimento do volume realizado nos últimos anos, nós perdemos posições no ranking. Ou seja, apesar de haver crescido muito em compras/vendas com o restante da comunidade internacional, outros tiveram crescimento muito maior do que o nosso. É que tem gente que não gosta de perder oportunidades, já por aqui...
Posições como a que Lula e Amorim tem defendido, repetimos, só servirão para nos isolar ainda mais. Pena que hoje a Associação dos Exportadores Brasileiros – AEB, não revise seu cálculo sobre perdas de exportações. Ainda no ano passado, (e o dólar estava na faixa dos R$ 2,20) , a projeção feita era de R$ 9,0 bilhões de dólares que deixávamos de vender por conta do câmbio. Hoje, com o dólar na faixa de R$ 1,90/1,95, esta conta já subiu e deve andar na casa de 15 a 20 bilhões de dólares anuais que estamos deixando de vender. E não é pouco não. Tratam-se de produtos de cadeias econômicas grandes geradores de mão de obra.
Para a grandeza da riqueza brasileira, para a capacidade industrial instalada e sua diversidade, não é possível achar que o Brasil deva se contentar apenas com Mercosul. Ou passamos a respeitar uma mesa de negociações e aceitamos a idéia de que devemos também ceder em alguns pontos, para avançarmos em outros, e muito mais significativos para o nosso comércio exterior, ou nos restará apenas o Mercosul no futuro. É preciso não nos fixarmos apenas em números financeiros. Isto significa dizer que não podemos nos iludir que vender os bilhões de dólares que estamos conseguindo seja apenas fruto de nossa capacidade industrial. A grande parte deste total está assentada em produtos agropecuários e minerais.
Muito de nossa pauta de produtos manufaturados já não embarcam mais rumo aos mercados mundiais. E ainda assim, do total que exportamos, muito devemos à exuberância da economia mundial, leia-se China e EUA, cujas volumosas compras de comodities têm feito os preços destas dispararem.
Lembrando, portanto, a recomendação de setembro passado, o Brasil precisa urgentemente sair da casca do ovo. Ou aprendemos a negociar no competitivo mundo do comércio internacional, defendendo o interesse brasileiro sem intransigências injustificáveis, ou acabaremos mais irrelevantes do que temos sido. É preciso entender que “ceder” posições não é abrirmos mão do interesse maior do país, justamente porque abrir mão num momento pode representar a abertura de outros mercados para outros produtos. Precisamos ampliar nosso horizonte exportador, e não simplesmente fechar as portas de oportunidades que nos são oferecidas. Quem ganha, no final, é o povo brasileiro, porque a ampliação destas bases representa mais empregos e elevação de renda. E no fundo, o papel de um governo deve ser justamente a de proporcionar melhor qualidade de vida para o seu povo, e não a defesa intransigente de ideologias burras e irresponsáveis. Até porque, priorizar parceiros como Venezuela, Argentina, Bolívia não nos levou a lugar algum: eles não se cansam de nos agredir, de nos ameaçar, e de restringir nossa atuação. Para ter aliados assim, é melhor não tê-los.
Adelson Elias Vasconcellos, Comentando a Notícia
Em 17.09.2006, publicamos um artigo sob o título “Hora de sair da casca do ovo” (clique aqui), em que concluíamos afirmando o seguinte:
“(..) O mundo independente do Brasil. Ou nos ajustamos a ele, ou ficaremos à margem do progresso que ele poderia nos proporcionar. Nada é mais ridículo do que acenarmos bandeiras ideológicas como justificativas para a burrice, enquanto vemos quase 50% da nossa juventude desempregada e sem perspectivas, vendo milhares indo para outros países todos os anos, e mais de 10,0% históricos da massa trabalhadora aceitando qualquer coisa para sobreviver. Ninguém aceita viver na miséria, ou sob o paternalismo estatal. As pessoas querem progresso, melhoria na sua qualidade de vida. E isto independe de ideologia. E por fim pensem no seguinte: o único bloco econômico de que participamos é o MERCOSUL.
Pergunta-se: dá para vivermos só disso ? Acho que está na hora de sairmos de dentro da casca do ovo, se o objetivo for mesmo crescimento econômico e melhoria de vida. Já nem se diga de questões cambiais, que apesar de sua importância, acaba se tornando um detalhe a mais dentre outros: trata-se, claramente, de que lado do mundo queremos ficar.
Deixemos a filosofia para os filósofos e as ideologias para os acadêmicos. E tratemos com objetividade e realismo daquilo que realmente interessa e preocupa a quase 190,0 milhões de brasileiros (...)".
Ora, vocês leram nas matérias da edição de hoje do COMENTANDO A NOTÍCIA, a difícil posição que ficou o Brasil a partir do momento em que o nosso embaixador Celso Amorim retirou-se, junto com o representante da Índia, da reunião do G-4, em que se buscava um consenso para a conclusão da Rodada de Doha. Inclusive, no mesmo dia, criticamos a posição de intransigência de Celso Amorim, que reflete a posição de intransigência do governo brasileiro, comandado por Lula, tanto que publicamos a reportagem da Tribuna da Imprensa e ficou claro que a posição é de Lula.
Que o Brasil seja duro ao negociar os interesses do país é até uma obrigação. Tivesse feito isto por exemplo com o índio cocaleiro, não estaríamos de joelhos pelo gás boliviano. Tivesse agido da mesma forma com Chavez, e talvez o venezuelano não tivesse ou exercesse a autoridade que hoje ostenta para fazer o que lhe der na telha, seja certo ou não.
Há sim, mesmo que o governo Lula não enxergue, uma grande vontade dos países ricos para negociar aberturas em seus pontos de vista. De nosso lado, ou se faz o que queremos ou não se negocia nada. Ora, isto não é negociação, isto é ignorância pura. Se o que queremos é que EUA e União Européia cedam em reduzir seus subsídios agrícolas, existem outras maneiras de se conseguir convencê-los a ceder. Não é dando soco na mesa, levantando e indo embora que chegaremos ao entendimento.
No artigo de setembro, alertávamos para que o Brasil não se fechasse tanto com parceiros não confiáveis, porque isso nos traria dissabores e nos isolaria do restante do mundo e do mundo civilizado diga-se. Era uma premonição ? Não, apenas ver a tendência do que a nossa posição em muitos aspectos da política externa adotada pelo atual governo poderia nos levar.
Vocês leram aqui ou na imprensa, a notícia divulgada ontem de que a China já pratica pirataria com carne brasileira ! É mole ? Não, é triste e preocupante, porque por causa desta pirataria com carne brasileira, estamos na eminência da Rússia suspender todas as nossas exportações de carne para aquele país . E a Rússia, é bom reconhecer, é um dos nossos mais tradicionais compradores de carnes.
Esta intransigência já vai provocar prejuízos imediatos, aliás, exatamente como previsto. Leiam que os EUA já está nos retirando do Sistema Geral de Tarifas, juntamente com outros emergentes. Ou seja, vamos perder mercados, divisas e, claro, não apenas os EUA praticarão retaliação aos produtos made in Brazil, mas logo outros países do Primeiro Mundo se sentirão tentados em fazer o mesmo. E acreditem, é só o começo.
Precisava chegar a isto ? Não, é lógico. Porém, o que parece que Lula não consegue enxergar é que o Brasil, no conceito de comércio internacional, ainda é bastante irrelevante, e que apesar do crescimento do volume realizado nos últimos anos, nós perdemos posições no ranking. Ou seja, apesar de haver crescido muito em compras/vendas com o restante da comunidade internacional, outros tiveram crescimento muito maior do que o nosso. É que tem gente que não gosta de perder oportunidades, já por aqui...
Posições como a que Lula e Amorim tem defendido, repetimos, só servirão para nos isolar ainda mais. Pena que hoje a Associação dos Exportadores Brasileiros – AEB, não revise seu cálculo sobre perdas de exportações. Ainda no ano passado, (e o dólar estava na faixa dos R$ 2,20) , a projeção feita era de R$ 9,0 bilhões de dólares que deixávamos de vender por conta do câmbio. Hoje, com o dólar na faixa de R$ 1,90/1,95, esta conta já subiu e deve andar na casa de 15 a 20 bilhões de dólares anuais que estamos deixando de vender. E não é pouco não. Tratam-se de produtos de cadeias econômicas grandes geradores de mão de obra.
Para a grandeza da riqueza brasileira, para a capacidade industrial instalada e sua diversidade, não é possível achar que o Brasil deva se contentar apenas com Mercosul. Ou passamos a respeitar uma mesa de negociações e aceitamos a idéia de que devemos também ceder em alguns pontos, para avançarmos em outros, e muito mais significativos para o nosso comércio exterior, ou nos restará apenas o Mercosul no futuro. É preciso não nos fixarmos apenas em números financeiros. Isto significa dizer que não podemos nos iludir que vender os bilhões de dólares que estamos conseguindo seja apenas fruto de nossa capacidade industrial. A grande parte deste total está assentada em produtos agropecuários e minerais.
Muito de nossa pauta de produtos manufaturados já não embarcam mais rumo aos mercados mundiais. E ainda assim, do total que exportamos, muito devemos à exuberância da economia mundial, leia-se China e EUA, cujas volumosas compras de comodities têm feito os preços destas dispararem.
Lembrando, portanto, a recomendação de setembro passado, o Brasil precisa urgentemente sair da casca do ovo. Ou aprendemos a negociar no competitivo mundo do comércio internacional, defendendo o interesse brasileiro sem intransigências injustificáveis, ou acabaremos mais irrelevantes do que temos sido. É preciso entender que “ceder” posições não é abrirmos mão do interesse maior do país, justamente porque abrir mão num momento pode representar a abertura de outros mercados para outros produtos. Precisamos ampliar nosso horizonte exportador, e não simplesmente fechar as portas de oportunidades que nos são oferecidas. Quem ganha, no final, é o povo brasileiro, porque a ampliação destas bases representa mais empregos e elevação de renda. E no fundo, o papel de um governo deve ser justamente a de proporcionar melhor qualidade de vida para o seu povo, e não a defesa intransigente de ideologias burras e irresponsáveis. Até porque, priorizar parceiros como Venezuela, Argentina, Bolívia não nos levou a lugar algum: eles não se cansam de nos agredir, de nos ameaçar, e de restringir nossa atuação. Para ter aliados assim, é melhor não tê-los.