Fausto Wolff , Jornal do Brasil
No meio do erro, atolados no erro, vítimas das tentações mais estúpidas, creio que não há muito a fazer conosco, digo, com a espécie cosidetta umana. Cinco filhinhos de papai surram uma doméstica. Isso deve acontecer o tempo todo. A diferença é que esses patifes foram apanhados. Quem se propusesse a fazer uma análise pouco mais profunda se perguntaria: que país é este em que escravos que moram longe trabalham para outros que trabalham fora? Que país é este em que à noite uma empregada espera pelo ônibus apesar da sabida violência? Que país é este em que uma prostituta é considerada carne em que se bate? É fácil responder a isso tudo ao descobrirmos o que há por trás das palavras do papai de um dos delinqüentes, Ludovico Ramalho Bruno: "São crianças que estão na faculdade". Isso resume o pensamento dessas duas gerações que brotaram depois da ditadura: num país em que há uma casta de universitários é natural que uma prostituta seja atacada a patadas.
Quando vejo um ladrão se eleger - minha vida toda - me horrorizo ao pensar que isso não é o pior. O pior não são esses marginais, mas, sim, os marginais que vêm com eles. Com os cargos comissionados o governo gasta R$ 9,3 bilhões por ano. Mais do que a Bolsa Família (Vergonha Nacional), que custa R$ 8,7 bilhões. Com essa distribuição de dinheiro aos ricos e de comida aos pobres e a impunidade para quem tem mais de R$ 1 mil no bolso, é impossível não se eternizar no poder. Não quero dizer com isso que amanhã o PSDB ou o PMDB ou os De M não possam ganhar a eleição, mas isso não mudará absolutamente nada. Está tudo no trato.
No trato também está o direito que o sr. Luiz Silva tem de mentir duas vezes mais que os Fernandos que o antecederam e que tinham raiva atávica da verdade. No princípio mentia timidamente, mas, ao ver que a coisa colava e que a imprensa deixava barato, começou a improvisar. O improviso lhe foi quase fatal, pois neles a ficção corria solta como cavalo selvagem atropelando regências verbais. Além de dizer que a medicina no Brasil é quase perfeita, anunciou pela sétima vez o fim da crise aérea. Como sete é conta de mentiroso, vocês já viram que não será dessa vez...
Para os pobres nós temos a pior Justiça do mundo. Para os ricos temos a melhor, pois permite que certos processos, graças a todo tipo de recursos, se arrastem por 40 anos. A essa altura o filho do querelante já se casou com o filho do querelado e a grana fica toda em casa, menos a comissão do juiz. Diante dessa situação eu pensei e quase escrevi uma sugestão, mas depois caí em mim. Eu ia sugerir uma reforma judiciária para acabar com essa esculhambação júri-responsável quando me dei conta de que se levam 40 anos para decidir uma causa, quantos anos levariam para fazer uma reforma que fosse do agrado de todos os criminosos?
E mais: quem faria essa reforma senão os probos deputados e senadores, quase metade deles com pendências na Justiça? Mais uma vez perderíamos nós, réus sem culpa, pois os marginais que votariam a reforma, além do salário e tudo o mais que sabemos, ainda receberiam jetons por sessão. É diante de situações como essa que os otimistas começam a se matar.
Quase todos os otimistas, mas certamente não o ministro Manteiga, que - entre um take e outro da refilmagem da Família Addams - continua derretendo de tanto dizer estultices. Para ele não existe crise no setor aéreo - apesar dos controladores cegos, surdos, mudos e monoglotas. O que existe é muita prosperidade no país, o que vem causando enorme aumento no fluxo aéreo. Me pergunto onde o sr. Luiz Silva foi buscar este pessoal. Certamente no mesmo local onde foi encontrado o brigadeiro José Carlos Pereira, presidente da Infraero. Para ele, ninguém precisa se preocupar com a segurança, pois não há nada mais seguro que avião em terra. Mal acabou de dizer essas palavras quando dois aviões, um da TAM e outro da Gol, colidiram em pleno solo do aeroporto de Congonhas.
(*) Palavras de Darwin depois de passar pelo Brasil em 1832. Devia ver a gente hoje.
No meio do erro, atolados no erro, vítimas das tentações mais estúpidas, creio que não há muito a fazer conosco, digo, com a espécie cosidetta umana. Cinco filhinhos de papai surram uma doméstica. Isso deve acontecer o tempo todo. A diferença é que esses patifes foram apanhados. Quem se propusesse a fazer uma análise pouco mais profunda se perguntaria: que país é este em que escravos que moram longe trabalham para outros que trabalham fora? Que país é este em que à noite uma empregada espera pelo ônibus apesar da sabida violência? Que país é este em que uma prostituta é considerada carne em que se bate? É fácil responder a isso tudo ao descobrirmos o que há por trás das palavras do papai de um dos delinqüentes, Ludovico Ramalho Bruno: "São crianças que estão na faculdade". Isso resume o pensamento dessas duas gerações que brotaram depois da ditadura: num país em que há uma casta de universitários é natural que uma prostituta seja atacada a patadas.
Quando vejo um ladrão se eleger - minha vida toda - me horrorizo ao pensar que isso não é o pior. O pior não são esses marginais, mas, sim, os marginais que vêm com eles. Com os cargos comissionados o governo gasta R$ 9,3 bilhões por ano. Mais do que a Bolsa Família (Vergonha Nacional), que custa R$ 8,7 bilhões. Com essa distribuição de dinheiro aos ricos e de comida aos pobres e a impunidade para quem tem mais de R$ 1 mil no bolso, é impossível não se eternizar no poder. Não quero dizer com isso que amanhã o PSDB ou o PMDB ou os De M não possam ganhar a eleição, mas isso não mudará absolutamente nada. Está tudo no trato.
No trato também está o direito que o sr. Luiz Silva tem de mentir duas vezes mais que os Fernandos que o antecederam e que tinham raiva atávica da verdade. No princípio mentia timidamente, mas, ao ver que a coisa colava e que a imprensa deixava barato, começou a improvisar. O improviso lhe foi quase fatal, pois neles a ficção corria solta como cavalo selvagem atropelando regências verbais. Além de dizer que a medicina no Brasil é quase perfeita, anunciou pela sétima vez o fim da crise aérea. Como sete é conta de mentiroso, vocês já viram que não será dessa vez...
Para os pobres nós temos a pior Justiça do mundo. Para os ricos temos a melhor, pois permite que certos processos, graças a todo tipo de recursos, se arrastem por 40 anos. A essa altura o filho do querelante já se casou com o filho do querelado e a grana fica toda em casa, menos a comissão do juiz. Diante dessa situação eu pensei e quase escrevi uma sugestão, mas depois caí em mim. Eu ia sugerir uma reforma judiciária para acabar com essa esculhambação júri-responsável quando me dei conta de que se levam 40 anos para decidir uma causa, quantos anos levariam para fazer uma reforma que fosse do agrado de todos os criminosos?
E mais: quem faria essa reforma senão os probos deputados e senadores, quase metade deles com pendências na Justiça? Mais uma vez perderíamos nós, réus sem culpa, pois os marginais que votariam a reforma, além do salário e tudo o mais que sabemos, ainda receberiam jetons por sessão. É diante de situações como essa que os otimistas começam a se matar.
Quase todos os otimistas, mas certamente não o ministro Manteiga, que - entre um take e outro da refilmagem da Família Addams - continua derretendo de tanto dizer estultices. Para ele não existe crise no setor aéreo - apesar dos controladores cegos, surdos, mudos e monoglotas. O que existe é muita prosperidade no país, o que vem causando enorme aumento no fluxo aéreo. Me pergunto onde o sr. Luiz Silva foi buscar este pessoal. Certamente no mesmo local onde foi encontrado o brigadeiro José Carlos Pereira, presidente da Infraero. Para ele, ninguém precisa se preocupar com a segurança, pois não há nada mais seguro que avião em terra. Mal acabou de dizer essas palavras quando dois aviões, um da TAM e outro da Gol, colidiram em pleno solo do aeroporto de Congonhas.
(*) Palavras de Darwin depois de passar pelo Brasil em 1832. Devia ver a gente hoje.