... chega a ser uma sem-vergonhice
Reinaldo Azevedo
Depois da rejeição do voto em lista, a Câmara decidiu deixar o resto da reforminha para ser votado na semana que vem, inclusive uma proposta absurda sobre financiamento de campanha, que piora, e muito, a lei que existe hoje. Eu diria mesmo que ela é imoral. Explico.
Reinaldo Azevedo
Depois da rejeição do voto em lista, a Câmara decidiu deixar o resto da reforminha para ser votado na semana que vem, inclusive uma proposta absurda sobre financiamento de campanha, que piora, e muito, a lei que existe hoje. Eu diria mesmo que ela é imoral. Explico.
Segundo essa nova proposta, os recursos para a eleição dos cargos majoritários — presidente, senadores, governadores e prefeitos — sairiam todos dos cofres públicos. Nas eleições para deputados federais, estaduais e vereadores, haveria um sistema híbrido: dinheiro público mais financiamento de pessoas físicas.
De todas as propostas, esta, sem dúvida, é a pior. E a razão é simples: induz, desde a origem, a ilegalidade. Nas cidades, por exemplo, o caixa de campanha dos candidatos a prefeito e dos vereadores do partido ou coligação costuma ser único — ou, quando menos, há trânsito de uma contabilidade para outra. Dou exemplo: faz-se o famoso “santinho” com o candidato majoritário e o candidato a vereador, ambos abraçados, indicando aquela amizade sólida. Quem pagou aquilo?
Ora, sempre será colocado, claro, na conta do vereador, que pode ter financiamento híbrido, ainda que se esteja fazendo a campanha do candidato a prefeito. O mesmo vale para os demais níveis. A proposta é de uma supina estupidez — ou de uma esperteza malandra.
É só um modo a mais de enfiar a não no bolso dos desdentados. Nada além. Ademais, reitero: não há financiamento público capaz de coibir o caixa dois se o caixa dois não resultar, enfim, em severas punições. No Brasil, como sabemos, “recursos não-contabilizados” costumam fazer parte do custo político.Deixar como está? Não. Aumentar os instrumentos de vigilância do sistema atual e passar a aplicar a lei que pune até com cassação de mandato quem a transgride. “Ah, mas isso não vai acontecer”. Ah, é? E por que a outra lei seria, então, cumprida? Fiquemos com a que está aí. Se as duas podem ser fraudadas, a que temos ainda é mais barata. É uma questão lógica.