Elio Gaspari, Jornal O Povo (Fortaleza,CE)
O professor Roberto Mangabeira sabe. Quando um presidente empossa um ministro que dois anos antes chamou o seu governo de "o mais corrupto da história nacional", a turma da ladroagem tem motivo para festejar. Não festejará estimulada pela subjetividade vulgar dos larápios. Fará isso baseada na velha e boa bibliografia acadêmica. É de 1968 o conceito de "folclore da corrupção", enunciado pelo economista sueco Gunnar Myrdal, prêmio Nobel de 1973. Myrdal mostrou que, numa sociedade em mudança, a construção de uma idéia imperfeita e fatalista da extensão das roubalheiras termina por prejudicar a moralidade pública e os esforços de servidores honrados. Outro estudioso do assunto achou um exemplo no interior da Índia. A sabedoria convencional dizia que os funcionários dos serviços de regularização de propriedades fundiárias eram corruptos. Vai daí, os camponeses pagavam propinas a atravessadores, que em nada interferiam na liberação de títulos de terra. Há gente disposta a passar jabaculês para apressar a emissão de carteiras de identidade no Brasil, mesmo em lugares onde esse serviço funciona perfeitamente.
Só um louco diria que em Pindorama a corrupção é um problema folclórico, mas é certo que, sem aquilo que o economista Roberto Campos chamava de "reversão das expectativas", a faxina de um governo é algo inatingível. Se a prisão de um compadre do presidente, de um juiz do Superior Tribunal de Justiça, de desembargadores e juízes é recebida pela sociedade como um indicador de que a roubalheira aumentou, aumentará a roubalheira.
Enquanto viveu na oposição política, na superstição econômica e na treva administrativa, Nosso Guia, como Mangabeira, tocou o bumbo do folclore da corrupção. (Com proveito para ambos). Oito anos antes do enunciado de Myrdal, os brasileiros elegeram para a presidência da República um bufão que tinha uma vassoura como símbolo de campanha. Em 2002, a filha de Jânio Quadros foi à Justiça para rastrear as contas de seu pai em bancos suíços.
Cinco anos de poder foram suficientes para que a nação petista se acomodasse à sabedoria de um velho revolucionário chinês: "Se você combate pouco a corrupção, destrói o país. Se combate muito, destrói o partido". Um presidente que não tolerasse a desonestidade intelectual jamais poderia ter o professor Mangabeira no ministério, nem uma bancada de senadores (noves fora Eduardo Suplicy) associada à ética de Epitácio Cafeteira.
Uma coisa é sofrer as manipulações dos senadores em benefício de Renan Calheiros. Dói, mas não mata. Outra é olhar para o que estão fazendo e concluir que todos os parlamentares, políticos e servidores públicos são ou virão a ser bandidos. Esse comportamento parece que não dói, mas mata a fé do cidadão no Estado de Direito. O folclore da corrupção é um grande negócio, para os corruptos.
• Serviço: Quase todas as idéias deste artigo saíram do livro "Corruption by Design - Building clean government in mainland China and Hong Kong" (Corrupção como projeto - Construindo governos limpos na China e em Hong Kong), da professora Melanie Manion. Para conforto de Mangabeira, a editora é a Harvard University Press.