quinta-feira, agosto 02, 2007

Analistas questionam reação do PT e de Lula a movimento

SÃO PAULO - A reação do PT e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao Movimento Cívico pelo Direito dos Brasileiros, mais conhecido como Cansei, liderado pela secção de São Paulo da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e pelo Grupo de Líderes Empresariais (Lide), foi questionada por cientistas políticos.

Para o professor Carlos Melo, do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (Ibmec) de São Paulo, as respostas dadas pelo partido e por Lula ao Movimento Cívico pelo Direito mostram que os dois não sabem conviver com a crítica.

"O incrível é que sempre fizeram isso quando estavam na posição, liderando inclusive o movimento Fora FHC. É necessário olhar para o passado, observar o que fizeram, num tom muito mais forte, e aceitar as opiniões divergentes como parte da democracia", lembrou.

Na avaliação de Melo, é natural que haja censuras da sociedade em relação ao governo, especialmente, de setores da classe média. "Quando Lula e o PT se sentem acuados, colocam as questões no âmbito do golpismo. Não se trata disso. Ninguém falou em destituir o presidente, em impeachment, mas sim de reivindicações no âmbito de políticas públicas", afirmou.

"Não se pode transformar um conflito natural da democracia numa luta de classes. Não estamos nesse contexto. O que se fez foi uma crítica à inação do governo em relação a uma crise que dura mais de dez meses", criticou.

No entanto, ele faz uma ressalva. "O movimento cometeu um erro ao mostrar-se ligado a partidos políticos." Segundo Melo, o presidente também errou ao dizer que as vaias vêm de ingratos "Caiu numa contradição. Então, a questão não é de políticas públicas, mas de ingratidão?", questionou.

A cientista política e historiadora Lucia Hippolito ressaltou que todos os setores da sociedade têm direito a se manifestar, independente da classe social a que pertencem. "O que choca um pouco é que Lula não é um principiante nesse jogo. Não pode ficar magoado porque tomou vaia. Todos os homens públicos tomaram. Ainda passa o recibo, dá combustível ao assunto", disse, lembrando que ele tem ótimos números do mandato para apresentar em defesa.

Lucia criticou o que chamou de "visão binária" de Lula. "Ele só vê ricos e pobres. Não reconhece a existência de uma vastíssima classe média no País", afirmou. Quanto à reação da legenda, ela afirmou acreditar que a sigla cumpriu o papel.

"O PT está fazendo o papel dele, defendendo o governo e pagando o mico de defender Marco Aurélio Garcia", ironizou, referindo-se ao assessor especial para Assuntos Internacionais da Presidência da República. Já para o professor Fabio Wanderley Reis, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), os apupos que o presidente tomou no Estádio do Maracanã, na abertura dos Jogos Pan-americanos, foram superdimensionados pela imprensa e pelo petista.

"As pesquisas mostram que a popularidade do presidente continua forte. Esse público que estava no estádio não é mais representativo que as pesquisas, e ainda assim o presidente passou recibo das vaias", disse. Entretanto, Reis considerou natural a reação da agremiação e de Lula ao Movimento Cívico.

"A reação é compreensível, mas, talvez, politicamente, a coisa mais hábil a fazer seria não registrar e deixar morrer. Não me parece que o movimento terá perspectiva de êxito, já que tem sido alvo de críticas de imprensa e de analistas. Mas o movimento traz um indicador mais sério e significativo, com traços negativos", afirmou.

Ele fez duras críticas aos líderes do Cansei. "Espanta-me que uma entidade como a OAB de São Paulo esteja liderando esse movimento e tenha escolhido esse momento para dizer que se cansou", disse. Reis destacou que o País convive há pelo menos uma geração com eventos tão trágicos quanto o acidente aéreo com o vôo JJ 3054 da TAM Linhas Aéreas, como as chacinas que ocorrem nas periferias das grandes cidades.

"Não vi a OAB de São Paulo dizer que estava cansada nesses momentos." Para o professor, o acidente foi lamentável e a administração federal tem sido passiva em relação a uma crise que dura dez meses. "Mas já tínhamos motivos para nos cansar antes. É igualmente trágica a rotina diária de violência que atinge os mais pobres, que parecem cidadãos de segunda classe aos olhos da classe média e da elite", acrescentou.

COMENTÁRIO DO RICARDO NOBLAT

Oposição dos outros é golpe

Quer dizer que quando o PT gritava "Fora, FHC" e corria atrás dele para vaiá-lo, fazia apenas oposição - dura, mas democrática?

Mas quando o Maracanã vaia Lula, o pessoal da região dos Jardins, em São Paulo, grita "Cansei", e a mídia atribui ao governo parte da responsabilidade pela tragédia de Congonhas, é golpe? Ou tentativa de golpe?

Sei.

Então me respondam: E quando Lula, assim do nada, cita o golpe militar de 64 e diz que ninguem mais do que ele é capaz de pôr gente na rua, o que isso significa?

Não respondam. Eu sei.