quinta-feira, agosto 02, 2007

Uma nau que perdeu o rumo

Editorial do Jornal do Brasil

O longo apagão aéreo, que não se encerrou com a troca no comando do Ministério da Defesa, levou os brasileiros a constatarem, aflitos, que a administração Luiz Inácio Lula da Silva está sem rumo. A aflição da sociedade com a falta de comando se generaliza e preocupa. A crise nos céus permitiu contemplar a desorganização generalizada. O Brasil não tem gestor e os responsáveis pela definição do futuro ou não se entendem ou não sabem controlar cofres e investimentos.

A infra-estrutura brasileira está deteriorada e, a cada dia, amplia o balanço das mortes e perdas econômicas. Como revelou o Jornal do Brasil na edição de domingo, as malhas rodoviária e ferroviária são opções perigosas para quem se aventura a fugir dos aeroportos congestionados e de vôos cancelados para cumprir compromissos, tirar férias ou encontrar a família. Quase 46 mil quilômetros de estradas se apresentam em condições ruins ou péssimas, com pavimentações desgastadas ou inexistentes, sinalizações danificadas, afundamentos de pista, ondulações e buracos. As vias federais matam mais do que as privatizadas.

O Programa de Aceleração do Crescimento, em votação no Congresso, é o desenho do governo para pagar a dívida com a ineficiência. É modesto, contudo, para o tamanho do desafio a vencer. A Confederação Nacional do Transporte estima a necessidade de investimento anual de R$ 20 bilhões para colocar as rodovias federais em condições de segurança. O PAC prevê R$ 36 bilhões de investimentos em logística até 2010, a ser dividido entre estradas, aeroportos, portos e hidrovias.

Estes são alguns sintomas da grave doença que afeta o governo. Se a economia vai bem, graças aos ventos favoráveis que sopram no planeta inteiro, poderia avançar mais se o país tivesse agilidade. As reformas do Estado, política e tributária ainda são peças de ficção. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, não se afina com o do Planejamento, Paulo Bernardo, nem com a chefia do Banco Central.

A adoção de duas metas de inflação - uma de 4,5% para dar folga à Fazenda e outra de 4%, para manter a disciplina do Banco Central - elevou os juros futuros, agravando a dívida nacional, minou a credibilidade externa do país e levantou apreensões entre os agentes econômicos sobre quais outros malabarismos poderão ser inventados pelo governo na ânsia de consolidar as próprias contas por mágica, já que não há austeridade fiscal.

No esforço para agradar partidos e formar maioria no Congresso, o presidente Lula inchou a máquina administrativa. Criou pastas desnecessárias e ungiu ministros com inapetência crônica. A propalada falta de vontade presidencial para demitir, com a mesma fartura com que nomeia, deixou brasileiros mortos no Mato Grosso e em São Paulo e famílias enlutadas. Em qualquer país democrático do planeta, o assessor sem pasta Marco Aurélio Garcia teria sido dispensado depois da grosseria do gesto com o qual saudou a hipótese de falha mecânica para a tragédia com o avião da TAM. A ministra do Turismo, Marta Suplicy, estaria fora da equipe depois do infeliz conselho aos que dormem nos chãos de granitos dos aeroportos. Os brigadeiros da Aeronáutica e da Infraero não comandariam mais nada. A diretoria da inexistente Agência Nacional de Aviação Civil já teria ido para o espaço. A ministra da Casa Civil e suas demonstrações de arrogância há muito teriam desaparecido do Planalto. O presidente do Senado, Renan Calheiros, não seria agraciado com apoios explícitos, mas cobrado a se afastar do cargo.

De desculpa em desculpa, o presidente que há sete meses iniciou o segundo mandato, começa a se exaurir. E a levar o país de roldão. É hora de mudar. Antes de um apagão geral que ninguém quer e o país não suportará.