quinta-feira, agosto 02, 2007

Pouso forçado nos negócios ...

Regiane de Oliveira, José Pacheco Maia Filho e Adriana Thomasi

As seqüelas da tragédia em Congonhas no mundo dos negócios e no turismo mal começaram. Agências de viagens já contabilizam significativas perdas nas vendas, mas alertam que, se nada for feito, o pior virá nas próximas semanas, com o fim das férias de julho - época em que tradicionalmente a realização de eventos e feiras corporativas diminui.

- Se persistir essa crise por mais 30 dias, teremos uma quebradeira histórica no setor de turismo do Brasil - alerta Mauro Schwartzmann, presidente do Fórum das Agências de Viagens Especializadas em Contas Corporativas (Favecc). O representante do setor afirma que o país perdeu cerca de 30% a 40% dos executivos estrangeiros que viriam para eventos. Mas diz que o governo deverá contornar a situação.

O mesmo espera a maior operadora de viagens do País, a Carlson Wagonlit Travel, apesar das perdas.

- O cenário nunca foi tão difícil. Só na última semana, a CWT teve redução de 40% na venda de passagens aéreas para o mercado doméstico - diz o presidente da CWT, André Carvalhal. Uma semana após substituir o executivo Alberto Ferreira, que assumiu a presidência da SAP, Carvalhal teve que enfrentar a pior crise da aviação do Brasil, iniciada com a queda do vôo JJ3054 da TAM. A companhia opera cerca de 80% de seu volume no Aeroporto de Congonhas e praticamente parou parte de suas operações para gerenciar a crise.

- Se nada for resolvido a curto prazo, a empresa corre o risco de perder entre 10% e 15% do volume de vendas do ano - prevê.

Antes do acidente que levou à morte de mais de 200 pessoas, a empresa previa aumento de 15% em 2007, meta que levaria a operadora a vendas de US$ 350 milhões.

O turismo de negócios é o mais afetado, entre outros motivos, porque a necessidade de viajar em curto espaço de tempo não permite viagens de ônibus. E as empresas respondem por nada menos que 70% do turismo no país. A meta do setor, de atingir um crescimento de 30% no volume de vendas, é agora inatingível.

- Vamos todos torcer para terminar o ano no azul - lamenta Schwartzmann.

- Estamos atuando mais na assistência ao passageiro que na emissão de passagens - completa Carvalhal. - O trabalho agora é tentar realocar passageiros, buscar vôos alternativos em aeroportos, e principalmente, vencer a avalanche de informações truncadas vindas do governo e das empresas aéreas.

O diretor da agência baiana Pinheiro Turismo, Juvenal Correa, afirma que sua agência já contabiliza uma redução de 30% a 40% no movimento de vendas de passagens ao mercado corporativo nas últimas semanas.

- Os problemas se arrastam há seis meses, mas, depois da tragédia de Congonhas, a situação se agravou- diz. - São Paulo é o eixo dos negócios do país e hoje pegar um vôo em horário certo é praticamente como acertar na loteria.

O presidente da Associação Brasileira de Agências de Viagens na Bahia (Abav-BA), Pedro Costa, alerta que, se há retração na venda de passagens corporativas, o segmento de eventos, convenções e grupos de incentivos está completamente parado.

- Os que já estavam programados e confirmados tudo bem, mas atrair novos eventos está muito difícil este ano - prevê.

Para atender a demanda de executivos no deslocamento da Bahia para o eixo Rio-São Paulo, as agências locais descartam o recurso do transporte rodoviário.

- Estamos reféns do transporte aéreo - enfatiza Flávia de Sá, diretora da agência baiana Tessatour.

Ela lembra que as viagens a negócios são de curta duração e, na maioria das vezes, a ida e volta ocorre no mesmo dia, "o que ficou impossível no caos atual".

Em Fortaleza, a Casablanca Turismo, que tem 70% de seus negócios no mercado corporativo, ainda não sentiu com intensidade os efeitos do caos aéreo. A gerente comercial, Natália Abreu, diz que julho costuma ser menos movimentado no segmento, pois esse período registra aumento de preço das passagens e as empresas evitam fazer convenções ou lançamento de produtos.

- Em relação à média de maio e junho, as vendas de passagens tradicionalmente registram queda da ordem de 30% - observa.

... enquanto, no mundo virtual, empresas decolam
Alessandra Belotto

Se no mundo real o caos aéreo afeta as empresas, no virtual os negócios vão de vento em popa. Os bancos descobriram o Second Life, ambiente virtual tridimensional que reproduz a vida real e já reúne mais de 8 milhões de residentes, dos quais 500 mil são "avatares" (personagens criados pelos usuários para habitar o novo universo). Unibanco, Itaú, Bradesco e Expo Money entraram neste universo.

Empresas reais têm criado filiais nesse mundo paralelo tanto para interagir com seus clientes quanto para divulgar a marca. O Bradesco foi o primeiro banco a estrear no Second Life. Em fevereiro, instalou relógios digitais pelas ruas virtuais da Ilha Brasil (principal reduto dos avatares brasileiros) com o intuito de divulgar as diversas ações de comunicação do banco e fornecer um link direto para o seu site.

Já o Unibanco abriu, em junho, a primeira agência bancária brasileira no Second Life, que funciona como um show-room para divulgar seus serviços e produtos aos avatares curiosos - o espaço equivale no mundo real a uma agência de 1.500 metros quadrados com dois andares.

- Essa é mais uma forma de nos diferenciarmos da concorrência, assim como fizemos ao optar por ter o serviço de internet banking mais rápido - afirma Fernando Malta, diretor de canais e CRM do Unibanco.

O executivo conta que a instituição começou a buscar informações sobre o novo ambiente um ano atrás e que decidiu testar o canal de comunicação por ser uma iniciativa relativamente barata. Mas se você é cliente do Unibanco e tem seu avatar no Second Life irá encontrar informações sobre o banco que poderão te ajudar a tomar decisões no mundo real. Também poderá participar de palestras sobre temas diversas como bancos e mercado financeiro. A agência do Unibanco colocou dois avatares em horário comercial à disposição dos visitantes para responder perguntas e tirar dúvidas online, como num chat só que em ambiente 3D. Obviamente, esses avatares são comandados, do lado de fora, por um funcionário do banco deslocado para atender os clientes virtuais e presenteá-los com brindes como camisetas e patinetes motorizados.

O Itaú também adquiriu uma "ilha" no Second Life. No momento, o ambiente está em desenvolvimento e, por isso, não fornece mais detalhes.

A Expo Money, que neste ano já percorreu as cidades de São Paulo, Curitiba, Macaé, Fortaleza e Brasília, inaugurou em junho um estande no ambiente virtual, a fim de levar aos avatares informação e conhecimento sobre educação financeira e investimentos.

Por enquanto, afirma o executivo, não dá para medir o retorno de um investimento como esse. Mas ele aposta no potencial de negócio que o usuário dessa nova tecnologia pode representar, ao atraí-los para as exposições realizadas na vida real.

- É um público de carne osso, usuário intensivo de internet e, portanto, com dinheiro e tempo.

No estande da Expo Money, os visitantes são recepcionados por um casal de avatares (guiados por um consultor especialmente contratado para isso), que fica à disposição para responder perguntas e informar sobre os próximos eventos no mundo real. Segundo o diretor, o estande já recebeu cerca de 380 visitas.