quarta-feira, agosto 29, 2007

A autocrítica e os puxões de orelha

Villas-Bôas Corrêa, Jornal do Brasil

Os milhões de brasileiros que purgam anos de vergonha com o descalabro moral que parecia contaminar os três poderes em estágios diferentes da praga, estão se sentindo mais leves, com a alma lavada com a histórica decisão, pela unanimidade do STF, de abrir processo por corrupção ativa contra o ex-ministro chefe da Casa Civil do presidente Lula, o ex-deputado José Dirceu; o ex-presidente do PT, deputado José Genoino, e o ex-tesoureiro do partido, Delúbio Soares.

No embalo moralizante, dos 40 denunciados, 37 passaram a réus na primeira fase de julgamento do que já pode ser considerado o maior escândalo político, o grande festival de roubalheira de todos os tempos.

Claro que é apenas o primeiro passo de uma longa caminhada que promete arrastar-se por anos com as manhas de famosos e caros advogados, peritos em jogar com os infindáveis recursos de códigos caducos, à espera de urgentes reformas.

Por ora, vamos festejar um raro instante de justo regozijo cívico. A toga estava devendo à sociedade, e à ela própria, uma enérgica demonstração de repúdio à corrupção depois de preocupante período de absolvições em série, sem nenhuma condenação. Com o pecado do tríplice reajuste dos vencimentos da magistratura, negociada pelo então presidente do STF e atual ministro da Defesa, Nelson Jobim, com o presidente da Câmara, o sumido ex-deputado Severino Cavalcanti.

Mas se a memorável virada do Supremo, a merecer todos os foguetes, tem o doce sabor de uma autocrítica, ela ricocheteia no Congresso com o estampido de uma bomba. O Legislativo está nu diante da opinião pública, de estômago embrulhado com a catinga remexida do escabroso festival de impunidade que encerrou os escândalos recordistas do mensalão para a compra do voto de parlamentares em matérias do interesse do governo e do caixa 2 que despejou milhões surrupiados dos cofres da viúva para financiar as campanhas de bilionários candidatos petistas e aliados.

Cada processo de cada um dos réus sustentará durante meses, anos, por todo o segundo mandato do presidente Lula, a cobertura da imprensa, com os intervalos da morosidade da Justiça. E da nódoa, indelével como mancha de caju, o governo e o PT não se livrarão nunca. Nem a vitória consagradora nas urnas com os votos do Bolsa Família apagará o registro implacável da história.

Pois é de uma evidência que entra pelos bugalhos que o governo fica muito mal na fotografia desbotada, que o STF retocou com as cores fortes da demolidora denúncia do procurador-geral de República, Antonio Fernando de Sousa, e com o repique das 400 páginas do relator, ministro Joaquim Barbosa - que teve o seu voto acompanhado pela unanimidade do Supremo Tribunal.

O presidente Lula, como é lógico, sentiu a pancada, mas está reagindo. Finge não ter nada a ver com a esterqueira enquanto os dirigentes do PT esperneiam e empurram a bola murcha para a responsabilidade de antigos companheiros caídos na desgraças.

Na coincidência com um toque de simbolismo, enquanto o presidente entoava o elogio ao caju e pede curiosa desculpa ao fruto que, "em algum momento da história, algum de nós cometeu um erro contra o caju", o lixão denunciado pelo STF relembra que a máfia que armou os golpes operava no gabinete do ministro José Dirceu, ao lado do seu, utilizando gente da casa, como o ex-presidente do PT, deputado José Genoino e o ex-tesoureiro do PT, Delúbio Soares.

Este é, portanto, um escândalo do governo, do PT e seus aliados, feito em casa como bolo de aniversário. A turma da "organização criminosa", denunciada por "formação de quadrilha" e outros truques. A gangue do PT e dos aliados do PP, do PR (ex-PL), do PTB e do PMDB.