Tribuna da Imprensa
O caos da saúde pública tem sido exposto, nos últimos meses, por cenas de horror nas emergências de hospitais nordestinos. Pais chorando por um bebê que morreu esperando atendimento em Maceió, gente desesperada aguardando um leito em Recife, onde a emergência do Hospital da Restauração (HR) - a maior do Nordeste -, superlotada, não dá conta dos doentes que se amontoam pelos corredores.
Médicos se mobilizaram em Pernambuco, Paraíba e Alagoas por meio de protestos, movimentos de demissão coletiva ou greve, denunciando a ausência de condições de trabalho que os obrigam a escolher, numa rotina diária, quem vai viver e quem vai morrer.
O sanitarista, pesquisador e diretor de planejamento da Secretaria de Saúde de Recife, Domício Sá, observa que muita gente que é trazida em ambulâncias do interior prefere nem perder tempo nos hospitais regionais diante de "experiências negativas" de quem tentou.
Enfrentam centenas de quilômetros para chegar às emergências do HR, Hospital Getúlio Vargas e Otávio de Freitas, as maiores da capital - normalmente em ambulâncias mal equipadas e sem acompanhamento profissional, o que não raro leva o paciente a óbito no trajeto. O número de profissionais qualificados também é insuficiente.
"O SUS cresceu na quantidade de serviços prestados, mas o modelo de atualização médica não se adequou", avalia o secretário-executivo de gestão da Secretaria Estadual de Saúde, Cláudio Duarte. Ele estima que 30% dos profissionais da saúde pública em Pernambuco têm contrato temporário. Com o sistema de saúde pública desorganizado e tantas demandas da população, todos os caminhos desembocam nas emergências, definidas por Antônio Mendes, mestre em Saúde Pública e pesquisador do Centro de Pesquisas Aggeu Magalhães, da Fiocruz, como "um buraco sem fundo, a área mais relegada da saúde pública".
Ceará e Piauí
No Ceará, os dois maiores hospitais públicos - Instituto Dr. José Frota (IJF) e Hospital Geral - ficam em Fortaleza. Como na maioria dos municípios cearenses, a infra-estrutura das secretarias municipais de Saúde resume-se a ambulâncias que trazem os pacientes para a capital. As duas unidades estão sempre superlotadas. Apenas no setor de traumatologia do IJF, um médico de plantão chega a atender de 150 a 200 pacientes em um período de 12 horas.
Alguns procedimentos cirúrgicos em fraturas expostas estão sendo feitos 24 horas após a admissão hospitalar, quando o período ideal é de no máximo 6 horas. No Piauí, a capital Teresina concentra o atendimento de urgência do estado e ainda recebe pacientes do Pará, Maranhão, Tocantins e Ceará. O pronto-socorro do Hospital Getúlio Vargas (HGV), o maior do estado, atende 40% acima de sua capacidade. Há macas no corredor, pacientes no chão e até no pátio.
*** COMENTANDO A NOTÍCIA: Há alguns dias atrás dissemos aqui que o ministro Temporão, ao assumir a pasta da Saúde, chegou levantando bandeiras de grande alcance e, por isso mesmo, bastante polêmicas. Por conta disso, o ministro não sai do noticiário. Está sempre em evidência. Ao abrir o debate sobre aborto e alcoolismo, sem dúvida, o ministro se fez notar. Porém, advertirmos que tais bandeiras eram válidas sim, mas que o ministro não se deixasse iludir: se era válido agir no atacado, os problemas mais cruciais e aflitivos para a grande massa da população encontravam-se no varejo, e era sobre isso que o ministro Temporão precisaria dedicar a maior parte de seu tempo. O programa Fantástico da Rede Globo exibido no último domingo fez um pequeno retrato da situação de colapso na área da saúde pública. Diariamente, os telejornais e os grandes jornais da imprensa escrita, reproduzem fatos sobre fatos de pessoas morrendo à porta dos hospitais por falta de atendimento. Pessoas que precisam ingressar na Justiça para terem acesso a medicamentos indispensáveis aos tratamentos médicos a que estão submetidas. O programa da Rede Globo mostrou o calvário que o povo precisa percorrer para a realização de simples exames, indispensáveis para se diagnosticar de que doença estão acometidas e estabelecer-se o tratamento necessário. A falta de médicos, a falta de leitos, gente em condições sub-humanas sendo atendidas nos corredores e nas escadarias dos hospitais são fatos já por demais corriqueiros.
E em quatro anos e meio, o governo atual poderia sim ter resolvido todos estes males, até porque o estado da Saúde Pública quando ele assumiu não era o caos que vemos hoje, até pelo contrário, o país havia avançado muito em termos de atendimento e políticas. A terrível sensação que se tem a partir da chegada de Lula ao poder, é de que a saúde pública brasileira foi inteiramente sucateada e desmontada. E era neste sentido que a advertência feita aqui para o ministro dedicar-se, principalmente, em trabalhar no varejo: a situação de colapso é tamanha que a população pobre do país está sendo submetida a um verdadeiro extermínio sob responsabilidade do poder público omisso, relapso, negligente, irresponsável, incompetente. Não é apenas nos aeroportos que a crise de falta de governo está matando: os hospitais públicos brasileiros têm vitimado muito mais. Se nos aeroportos é a classe média que padece, por ser a que mais usa o transporte aéreo, nos hospitais públicos são os mais pobres os mais atingidos.
O caos da saúde pública tem sido exposto, nos últimos meses, por cenas de horror nas emergências de hospitais nordestinos. Pais chorando por um bebê que morreu esperando atendimento em Maceió, gente desesperada aguardando um leito em Recife, onde a emergência do Hospital da Restauração (HR) - a maior do Nordeste -, superlotada, não dá conta dos doentes que se amontoam pelos corredores.
Médicos se mobilizaram em Pernambuco, Paraíba e Alagoas por meio de protestos, movimentos de demissão coletiva ou greve, denunciando a ausência de condições de trabalho que os obrigam a escolher, numa rotina diária, quem vai viver e quem vai morrer.
O sanitarista, pesquisador e diretor de planejamento da Secretaria de Saúde de Recife, Domício Sá, observa que muita gente que é trazida em ambulâncias do interior prefere nem perder tempo nos hospitais regionais diante de "experiências negativas" de quem tentou.
Enfrentam centenas de quilômetros para chegar às emergências do HR, Hospital Getúlio Vargas e Otávio de Freitas, as maiores da capital - normalmente em ambulâncias mal equipadas e sem acompanhamento profissional, o que não raro leva o paciente a óbito no trajeto. O número de profissionais qualificados também é insuficiente.
"O SUS cresceu na quantidade de serviços prestados, mas o modelo de atualização médica não se adequou", avalia o secretário-executivo de gestão da Secretaria Estadual de Saúde, Cláudio Duarte. Ele estima que 30% dos profissionais da saúde pública em Pernambuco têm contrato temporário. Com o sistema de saúde pública desorganizado e tantas demandas da população, todos os caminhos desembocam nas emergências, definidas por Antônio Mendes, mestre em Saúde Pública e pesquisador do Centro de Pesquisas Aggeu Magalhães, da Fiocruz, como "um buraco sem fundo, a área mais relegada da saúde pública".
Ceará e Piauí
No Ceará, os dois maiores hospitais públicos - Instituto Dr. José Frota (IJF) e Hospital Geral - ficam em Fortaleza. Como na maioria dos municípios cearenses, a infra-estrutura das secretarias municipais de Saúde resume-se a ambulâncias que trazem os pacientes para a capital. As duas unidades estão sempre superlotadas. Apenas no setor de traumatologia do IJF, um médico de plantão chega a atender de 150 a 200 pacientes em um período de 12 horas.
Alguns procedimentos cirúrgicos em fraturas expostas estão sendo feitos 24 horas após a admissão hospitalar, quando o período ideal é de no máximo 6 horas. No Piauí, a capital Teresina concentra o atendimento de urgência do estado e ainda recebe pacientes do Pará, Maranhão, Tocantins e Ceará. O pronto-socorro do Hospital Getúlio Vargas (HGV), o maior do estado, atende 40% acima de sua capacidade. Há macas no corredor, pacientes no chão e até no pátio.
*** COMENTANDO A NOTÍCIA: Há alguns dias atrás dissemos aqui que o ministro Temporão, ao assumir a pasta da Saúde, chegou levantando bandeiras de grande alcance e, por isso mesmo, bastante polêmicas. Por conta disso, o ministro não sai do noticiário. Está sempre em evidência. Ao abrir o debate sobre aborto e alcoolismo, sem dúvida, o ministro se fez notar. Porém, advertirmos que tais bandeiras eram válidas sim, mas que o ministro não se deixasse iludir: se era válido agir no atacado, os problemas mais cruciais e aflitivos para a grande massa da população encontravam-se no varejo, e era sobre isso que o ministro Temporão precisaria dedicar a maior parte de seu tempo. O programa Fantástico da Rede Globo exibido no último domingo fez um pequeno retrato da situação de colapso na área da saúde pública. Diariamente, os telejornais e os grandes jornais da imprensa escrita, reproduzem fatos sobre fatos de pessoas morrendo à porta dos hospitais por falta de atendimento. Pessoas que precisam ingressar na Justiça para terem acesso a medicamentos indispensáveis aos tratamentos médicos a que estão submetidas. O programa da Rede Globo mostrou o calvário que o povo precisa percorrer para a realização de simples exames, indispensáveis para se diagnosticar de que doença estão acometidas e estabelecer-se o tratamento necessário. A falta de médicos, a falta de leitos, gente em condições sub-humanas sendo atendidas nos corredores e nas escadarias dos hospitais são fatos já por demais corriqueiros.
E em quatro anos e meio, o governo atual poderia sim ter resolvido todos estes males, até porque o estado da Saúde Pública quando ele assumiu não era o caos que vemos hoje, até pelo contrário, o país havia avançado muito em termos de atendimento e políticas. A terrível sensação que se tem a partir da chegada de Lula ao poder, é de que a saúde pública brasileira foi inteiramente sucateada e desmontada. E era neste sentido que a advertência feita aqui para o ministro dedicar-se, principalmente, em trabalhar no varejo: a situação de colapso é tamanha que a população pobre do país está sendo submetida a um verdadeiro extermínio sob responsabilidade do poder público omisso, relapso, negligente, irresponsável, incompetente. Não é apenas nos aeroportos que a crise de falta de governo está matando: os hospitais públicos brasileiros têm vitimado muito mais. Se nos aeroportos é a classe média que padece, por ser a que mais usa o transporte aéreo, nos hospitais públicos são os mais pobres os mais atingidos.
.
Incrível que a oposição não denuncie, impressionante que as entidades de classe da área médica não protestem com maior ênfase para o caótico quadro a que a saúde pública vem sendo conduzida desde 2003. E há especificamente um único culpado pelo estado falimentar: o governo Lula e sua falta de políticas específicas para o setor. Pode ser que a imprensa interessando-se em denunciar com maior freqüência esta lastimável situação, nossas autoridades assumam em definitivo suas responsabilidades e governem o país com a competência e a seriedade que o país está a exigir.