terça-feira, agosto 21, 2007

Trem da alegria x Constituição

Tribuna da Imprensa

Efetivação de pelo menos 260 mil funcionários públicos não-concursados fere cláusulas pétreas

O trem da alegria que os deputados querem colocar nos trilhos - com a efetivação de pelo menos 260 mil funcionários públicos não-concursados - fere cláusulas pétreas da Constituição e o "direito de acesso isonômico aos cargos e empregos públicos mediante concurso", mas não é a primeira vez que isso ocorre na história recente do Brasil.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva já recebeu pareceres jurídicos da assessoria mostrando que as emendas constitucionais que beneficiam funcionários celetistas, temporários e requisitados são inconstitucionais, mas a cúpula do governo prefere adotar uma estratégia de silêncio para não arrumar briga no Congresso.

Em 2006 mesmo, às vésperas das eleições, o Legislativo aprovou uma emenda constitucional e Lula editou medida provisória (MP) para regularizar a reintegração de 5.365 agentes de combate à dengue, os chamados mata-mosquitos, que haviam sido demitidos ao fim do governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Eles pegaram carona numa proposta de emenda constitucional (PEC) que também tornou possível a efetivação de outros 200 mil agentes comunitários de saúde contratados, temporariamente, por governos de estados e prefeituras.

Essa PEC foi apresentada, originalmente, pelo deputado Maurício Rands (PT-PE), e, embora não tenha assegurado estabilidade no emprego aos interessados, como prevê o atual pacote em tramitação na Câmara, infringiu a Constituição por consolidar a contratação sem concurso. A Advocacia-Geral da União (AGU) emitiu um parecer contrário, mas a negociação política predominou, e nenhuma ação contra foi movida pela administração federal.

Recrutas
Outra emenda em tramitação na Câmara, do deputado Zenaldo Coutinho (PSDB-PA), estende o mesmo direito a todos os servidores públicos temporários que trabalhem há dez anos. Mas esse trem da alegria tem vários vagões, alguns dos quais nem chamaram ainda a atenção do público, como a PEC 203, do deputado Sandes Júnior (PP-GO), que propõe o ingresso automático nos quadros da Polícia Militar dos recrutas que concluem serviço militar obrigatório.

A inconstitucionalidade dos atuais projetos que beneficiam servidores temporários, celetistas e requisitados decorre do que diz o Artigo 37 da Constituição: "A investidura em cargo ou emprego público depende de aprovação prévia em concurso público de provas ou de provas e títulos." Além disso, eles ferem o princípio da isonomia entre os cidadãos, que é uma das chamadas cláusulas pétreas da Constituição, que não podem ser contrariadas em qualquer hipótese.

"O direito que todos temos a ser tratados de forma igual pelo Estado é direito fundamental. O procedimento do concurso público como requisito para ingressar no serviço público nada mais é que manifestação desse princípio constitucional", diz o professor de Direito Constitucional da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo Pedro Serrano.

Os próprios constituintes, entretanto, abriram brechas na Carta que promulgaram em 5 de outubro de 1988, ao incluírem no texto das disposições transitórias um artigo que dava estabilidade no emprego a todos os servidores que estivessem há pelo menos cinco anos na função. Muitos desses servidores não eram concursados, e outros tantos eram celetistas - regidos pelas leis trabalhistas do setor privado, e do dia para a noite receberam os mesmos direitos dos servidores estatutários, além de poderem sacar o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS).

Esse tipo de concessão, de acordo com especialistas em administração pública, tem sido uma tendência no Brasil desde a Constituição de 1946. A cada nova revisão constitucional, os parlamentares são tentados a assegurar a efetividade ou estabilidade aos que não foram admitidos por concurso no período constitucional anterior.

Segundo um assessor do Poder Executivo, são tantas as brechas e furos que sempre existiu a burla ao princípio da isonomia e do concurso público.

Passados quase 20 anos desde a última Constituição, os servidores que em 1988 não conseguiram pegar carona no "transatlântico da alegria" (tinham menos de cinco anos de serviço) buscam agora subir a bordo passando uma borracha no passado, com auxílio de parlamentares que têm a base eleitoral no funcionalismo, como Gonzaga Patriota (PSB-PE) e Átila Lira (PSB-PI), um autor e outro relator de duas das três PECs que o presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP), pôs na pauta de votação.

Em escalões intermediários do Executivo, também há setores interessados na aprovação das PECs, principalmente, a que beneficia requisitados de governos estaduais e administrações municipais, o que amplia a cortina de fumaça em torno do assunto.

Até agora, por exemplo, o Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão não apresentou qualquer estimativa oficial sobre os impactos fiscais e potenciais beneficiários dos projetos.

Apesar das dificuldades naturais de calcular os custos, no Palácio do Planalto, crescem as suspeitas de que a falta completa de informações da Secretaria de Recursos Humanos (SRH), que controla os dados da folha de pagamento do governo federal, esteja relacionada a interesses de corporação.

Mas essa situação não se restringe aos gabinetes governistas. Nas lideranças dos partidos de oposição, também há muitos assessores que seriam beneficiados com a possibilidade de trocar o cargo num Executivo municipal ou administração estadual por uma função equivalente no Legislativo federal, onde o salário é bem maior, como prevê a emenda de Patriota.

O Planalto acompanha o assunto com prudência, segundo um advogado da União. Nos bastidores, entretanto, o que se diz é que a Presidência da República não quer confusão com a base.

*** COMENTANDO A NOTÍCIA: Semana passada, em um boletim do TOQUEDEPRIMA... informamos que o tal “trem da alegria” seria inconstitucional. Eis aí a confirmação. Reparem que tudo o que esta gente faz é aumentar as despesas, o que impede que o Estado perca peso e assim haja espaço para provocar redução da carga tributária. Enquanto se entenderem canalhas e irresponsáveis em último grau, não há como se tirar este país do atraso e da miséria. Vamos insistir em classificá-los como gigolôs da nação. E do tipo mais ordinário e cafajeste que se possa imaginar. Esta é a elite que explora o país, que o faz sangrar exaurindo-lhe até a última gota de energia, e que empurra mais da metade da população para a pobreza e miséria. A única forma de se corrigir os absurdos que os políticos brasileiros não se cansam de cometer é educar o povo brasileiro e fazê-lo conscientizar-se de que o dono do cargo é o povo e assim, deve cobrar, protestar, exigir. Só diante da massa indignada eles sentirão medo e, por conseguinte, respeito para com as necessidades do país.