O Maranhão do Sul na Wikipédia
Roberto Pompeu de Toledo, Revista VEJA
A mágica de criar estados é boa para vender ilusões enquanto se assalta o contribuinte
A Comissão de Constituição e Justiça do Senado aprovou, em março, projeto que prevê a realização de plebiscito para a criação do estado do Maranhão do Sul. O plebiscito junto à população interessada, manda a Constituição, é o primeiro passo para a criação de um novo estado. Fazia apenas um mês que o senador Edison Lobão apresentara o projeto. A idéia é que a nova unidade federativa, com capital em Imperatriz, tenha 120.000 quilômetros quadrados (quase metade dos 331.000 do atual Maranhão), 1 milhão de habitantes e 49 municípios (o Maranhão atual tem 6 milhões de habitantes e 217 municípios). Tão rápida quanto a aprovação do projeto – subscrito, numa demonstração de força, pelos dois outros senadores do Maranhão, Roseana Sarney e Epitácio Cafeteira, e 38 outros colegas – foi a ascensão do Maranhão do Sul à glória da Wikipédia, a enciclopédia da internet. Ali se informa, entre outras coisas, no verbete respectivo: "Há fortes indícios de que o Maranhão do Sul seria uma entidade plenamente viável: a região possui abundantes recursos naturais, não é sujeita a estiagens, e tem forte potencial para o ecoturismo".
É curioso o conceito de viabilidade da Wikipédia. O Maranhão é o mais pobre estado brasileiro. O sul do Maranhão é a metade mais pobre do Maranhão. A conclusão inevitável é que o Maranhão do Sul, se e quando for criado, irá direto para a rabeira, como o mais pobre estado brasileiro. Antes de culpar a Wikipédia pela afirmação, no entanto, atente-se para o caráter dessa enciclopédia: ela é aberta a colaborações. Qualquer um pode criar verbetes ou mexer nos já existentes. Não foi uma equipe de doutos enciclopedistas, pode-se concluir sem erro, que redigiu o verbete "Maranhão do Sul". Em favor da Wikipédia, acrescente-se que ela costuma pespegar avisos nos verbetes de duvidosa procedência e suspeito conteúdo. É o caso do "Maranhão do Sul". Ali está escrito: "Este artigo ou seção possui passagens que não respeitam o princípio da imparcialidade. Tenha algum cuidado ao ler as informações contidas nele. Se puder, tente tornar o artigo mais imparcial".
Esta página não é da Wikipédia, mas tentemos ajudá-la. O senador Edison Lobão é do grupo do senador José Sarney. No ano passado, o grupo, que concorria com Roseana Sarney, perdeu o governo do Maranhão para o rival Jackson Lago. A derrota representou o fim de quatro décadas de hegemonia de Sarney e companhia na província. A eleição foi em fins de outubro. A posse do novo governador, em janeiro. Em fevereiro, sem perder tempo, Lobão apresentava seu projeto no Senado. A conclusão é elementar, minha cara Wikipédia. Já que não dava para tirar o governo de Lago, tentava-se arrancar metade do estado de seu governo. Eis um esplêndido caso de política à brasileira. Enriquecido com tais dados, o verbete da Wikipédia seria muito útil a todos quantos se interessam em entender como funciona o país.
Projetos de criação de novos estados existem às dezenas no Congresso. O ex-senador Francisco Escórcio teve como principal bandeira, durante anos, a criação do estado do Planalto Central, reunindo o entorno de Brasília. Mais interessante ainda era o projeto do deputado Wanderval dos Santos, o "bispo Wanderval" da Igreja Universal: o Rio Tietê passaria a dividir o atual estado de São Paulo em dois. De um lado ficariam Campinas e Ribeirão Preto, entre outros municípios. Do outro, a cidade de São Paulo. Como São Paulo é cortada pelo Tietê, presumivelmente perderia alguns bairros para a outra unidade federativa. Tais projetos acabaram no arquivo do folclore legislativo. Mas é preciso atenção, pois às vezes escapa e um deles emplaca. O então deputado Siqueira Campos tanto insistiu que a Constituinte de 1988 acabou criando um estado só para ele – o Tocantins. Siqueira Campos foi governador do novo estado três vezes, mantendo-se no posto durante onze dos dezenove anos da gloriosa história tocantinense.
Criar um novo estado é, como se sabe, um investimento político-burocrático de rentabilidade sem par. É ganhar um cargo de governador, dez de secretário de estado, uma Assembléia Legislativa novinha, com 24 deputados, sete cargos de desembargador, para começar – tudo isso está na Constituição –, e sabe-se lá quantos funcionários públicos. Além disso, ganha-se o direito de enviar a Brasília no mínimo oito deputados federais e três senadores. A despesa fica por conta da União. Numa recente edição do jornal O Estado de S. Paulo, o repórter Ricardo Brandt contou seis projetos de criação de estados que, aprovados nas comissões de Justiça do Senado ou da Câmara, estão prontos para ir a plenário. Além do Maranhão do Sul, a lista inclui os estados do Tapajós e de Carajás (ambos desmembrados do Pará), o do Gurguéia (desmembrado do Piauí), o de Mato Grosso do Norte (de Mato Grosso) e o do Rio São Francisco (da Bahia). Esses ainda não estão na Wikipédia, mas é bom ficar atento. A mágica de criar estado é muito boa para vender ilusões com uma mão enquanto se assalta o bolso do contribuinte com a outra.
ENQUANTO ISSO...
Ao contrário do Brasil, Alemanha quer menos Estados
Marcelo Crescenti, BBC Brasil
Enquanto no Brasil há planos para a criação de novos Estados, na Alemanha o governo quer reduzir o número de unidades federativas para diminuir gastos administrativos.
No Brasil, tramitam atualmente na Câmara projetos para a criação de seis novos Estados, como Mato Grosso do Norte, Maranhão do Sul ou Tapajós e Carajás, no atual Pará.
Na Alemanha a tendência é inversa: vários dos 16 Estados atuais poderão ser fundidos no futuro, formando unidades maiores.
Entre as possíveis fusões, está a criação de um mega-estado na ex-Alemanha Oriental, que se chamaria Alemanha Central, e a união de três ou quatro Estados no norte do país, formando a Alemanha do Norte.
Além disso, Berlim poderá se unir a Brandenburgo, o Estado que circunda o território da capital alemã, e no sudoeste do país fala-se em um “casamento” entre os Estados da Renânia-Palatinado e Saarland.
Vantagens econômicas
A redução do número de Estados é defendida veementemente por economistas e pelo empresariado alemão. As fusões poderiam cortar custos administrativos, diminuir a máquina estatal e tornar os novos Estados mais competitivos – as regiões cooperariam entre si, em vez de ficarem brigando por investimentos.
Os maiores empecilhos até agora são de fundo cultural: os moradores dos Estados alemães têm uma forte identidade regional. Isso ocorre apesar das atuais fronteiras estaduais terem sido criadas pelas forças de ocupação americanas, francesas, inglesas e russas depois da Segunda Guerra.
Manfred Nitsch, economista da Universidade Livre de Berlim, disse em entrevista à BBC Brasil que a situação na Alemanha é diferente do que ocorre no Brasil, já que a área dos Estados é menor. Além disso, a população está diminuindo, o que significa que há cada vez menos gente para ser governada, diz Nitsch.
Como no Brasil, na Alemanha também são necessários plebiscitos para mudar as fronteiras dos Estados. Apesar das animosidades regionais, analistas apostam que, no longo prazo, o número de Estados alemães vai mesmo diminuir por causa das fortes razões econômicas para as fusões estaduais.
Roberto Pompeu de Toledo, Revista VEJA
A mágica de criar estados é boa para vender ilusões enquanto se assalta o contribuinte
A Comissão de Constituição e Justiça do Senado aprovou, em março, projeto que prevê a realização de plebiscito para a criação do estado do Maranhão do Sul. O plebiscito junto à população interessada, manda a Constituição, é o primeiro passo para a criação de um novo estado. Fazia apenas um mês que o senador Edison Lobão apresentara o projeto. A idéia é que a nova unidade federativa, com capital em Imperatriz, tenha 120.000 quilômetros quadrados (quase metade dos 331.000 do atual Maranhão), 1 milhão de habitantes e 49 municípios (o Maranhão atual tem 6 milhões de habitantes e 217 municípios). Tão rápida quanto a aprovação do projeto – subscrito, numa demonstração de força, pelos dois outros senadores do Maranhão, Roseana Sarney e Epitácio Cafeteira, e 38 outros colegas – foi a ascensão do Maranhão do Sul à glória da Wikipédia, a enciclopédia da internet. Ali se informa, entre outras coisas, no verbete respectivo: "Há fortes indícios de que o Maranhão do Sul seria uma entidade plenamente viável: a região possui abundantes recursos naturais, não é sujeita a estiagens, e tem forte potencial para o ecoturismo".
É curioso o conceito de viabilidade da Wikipédia. O Maranhão é o mais pobre estado brasileiro. O sul do Maranhão é a metade mais pobre do Maranhão. A conclusão inevitável é que o Maranhão do Sul, se e quando for criado, irá direto para a rabeira, como o mais pobre estado brasileiro. Antes de culpar a Wikipédia pela afirmação, no entanto, atente-se para o caráter dessa enciclopédia: ela é aberta a colaborações. Qualquer um pode criar verbetes ou mexer nos já existentes. Não foi uma equipe de doutos enciclopedistas, pode-se concluir sem erro, que redigiu o verbete "Maranhão do Sul". Em favor da Wikipédia, acrescente-se que ela costuma pespegar avisos nos verbetes de duvidosa procedência e suspeito conteúdo. É o caso do "Maranhão do Sul". Ali está escrito: "Este artigo ou seção possui passagens que não respeitam o princípio da imparcialidade. Tenha algum cuidado ao ler as informações contidas nele. Se puder, tente tornar o artigo mais imparcial".
Esta página não é da Wikipédia, mas tentemos ajudá-la. O senador Edison Lobão é do grupo do senador José Sarney. No ano passado, o grupo, que concorria com Roseana Sarney, perdeu o governo do Maranhão para o rival Jackson Lago. A derrota representou o fim de quatro décadas de hegemonia de Sarney e companhia na província. A eleição foi em fins de outubro. A posse do novo governador, em janeiro. Em fevereiro, sem perder tempo, Lobão apresentava seu projeto no Senado. A conclusão é elementar, minha cara Wikipédia. Já que não dava para tirar o governo de Lago, tentava-se arrancar metade do estado de seu governo. Eis um esplêndido caso de política à brasileira. Enriquecido com tais dados, o verbete da Wikipédia seria muito útil a todos quantos se interessam em entender como funciona o país.
Projetos de criação de novos estados existem às dezenas no Congresso. O ex-senador Francisco Escórcio teve como principal bandeira, durante anos, a criação do estado do Planalto Central, reunindo o entorno de Brasília. Mais interessante ainda era o projeto do deputado Wanderval dos Santos, o "bispo Wanderval" da Igreja Universal: o Rio Tietê passaria a dividir o atual estado de São Paulo em dois. De um lado ficariam Campinas e Ribeirão Preto, entre outros municípios. Do outro, a cidade de São Paulo. Como São Paulo é cortada pelo Tietê, presumivelmente perderia alguns bairros para a outra unidade federativa. Tais projetos acabaram no arquivo do folclore legislativo. Mas é preciso atenção, pois às vezes escapa e um deles emplaca. O então deputado Siqueira Campos tanto insistiu que a Constituinte de 1988 acabou criando um estado só para ele – o Tocantins. Siqueira Campos foi governador do novo estado três vezes, mantendo-se no posto durante onze dos dezenove anos da gloriosa história tocantinense.
Criar um novo estado é, como se sabe, um investimento político-burocrático de rentabilidade sem par. É ganhar um cargo de governador, dez de secretário de estado, uma Assembléia Legislativa novinha, com 24 deputados, sete cargos de desembargador, para começar – tudo isso está na Constituição –, e sabe-se lá quantos funcionários públicos. Além disso, ganha-se o direito de enviar a Brasília no mínimo oito deputados federais e três senadores. A despesa fica por conta da União. Numa recente edição do jornal O Estado de S. Paulo, o repórter Ricardo Brandt contou seis projetos de criação de estados que, aprovados nas comissões de Justiça do Senado ou da Câmara, estão prontos para ir a plenário. Além do Maranhão do Sul, a lista inclui os estados do Tapajós e de Carajás (ambos desmembrados do Pará), o do Gurguéia (desmembrado do Piauí), o de Mato Grosso do Norte (de Mato Grosso) e o do Rio São Francisco (da Bahia). Esses ainda não estão na Wikipédia, mas é bom ficar atento. A mágica de criar estado é muito boa para vender ilusões com uma mão enquanto se assalta o bolso do contribuinte com a outra.
ENQUANTO ISSO...
Ao contrário do Brasil, Alemanha quer menos Estados
Marcelo Crescenti, BBC Brasil
Enquanto no Brasil há planos para a criação de novos Estados, na Alemanha o governo quer reduzir o número de unidades federativas para diminuir gastos administrativos.
No Brasil, tramitam atualmente na Câmara projetos para a criação de seis novos Estados, como Mato Grosso do Norte, Maranhão do Sul ou Tapajós e Carajás, no atual Pará.
Na Alemanha a tendência é inversa: vários dos 16 Estados atuais poderão ser fundidos no futuro, formando unidades maiores.
Entre as possíveis fusões, está a criação de um mega-estado na ex-Alemanha Oriental, que se chamaria Alemanha Central, e a união de três ou quatro Estados no norte do país, formando a Alemanha do Norte.
Além disso, Berlim poderá se unir a Brandenburgo, o Estado que circunda o território da capital alemã, e no sudoeste do país fala-se em um “casamento” entre os Estados da Renânia-Palatinado e Saarland.
Vantagens econômicas
A redução do número de Estados é defendida veementemente por economistas e pelo empresariado alemão. As fusões poderiam cortar custos administrativos, diminuir a máquina estatal e tornar os novos Estados mais competitivos – as regiões cooperariam entre si, em vez de ficarem brigando por investimentos.
Os maiores empecilhos até agora são de fundo cultural: os moradores dos Estados alemães têm uma forte identidade regional. Isso ocorre apesar das atuais fronteiras estaduais terem sido criadas pelas forças de ocupação americanas, francesas, inglesas e russas depois da Segunda Guerra.
Manfred Nitsch, economista da Universidade Livre de Berlim, disse em entrevista à BBC Brasil que a situação na Alemanha é diferente do que ocorre no Brasil, já que a área dos Estados é menor. Além disso, a população está diminuindo, o que significa que há cada vez menos gente para ser governada, diz Nitsch.
Como no Brasil, na Alemanha também são necessários plebiscitos para mudar as fronteiras dos Estados. Apesar das animosidades regionais, analistas apostam que, no longo prazo, o número de Estados alemães vai mesmo diminuir por causa das fortes razões econômicas para as fusões estaduais.