J. R. Guzzo, Vida Real, Revista EXAME
Crise aérea, corrupção no Senado, mensalão -- segundo a versão corrente na esquerda, nada disso efetivamente ocorreu. A idéia de uma "conspiração" serve apenas para esconder os pecadilhos dos companheiros -- e evidencia a alergia do governo à liberdade de expressão
Seria bobagem, de parte a parte, fazer de conta que está tudo normal nas relações entre o governo e os meios de comunicação brasileiros. Não está. Na verdade, a situação entre um e outros talvez esteja em seu pior momento dos últimos quatro anos e meio e, pelo rumo que a coisa vem tomando, parece destinada a piorar ainda mais. O governo se convenceu que "certos setores" da mídia estão articulados com a "oposição de direita" numa espécie de conspiração para derrotar seus candidatos nas eleições de 2008 e 2010 -- ou, numa hipótese ainda mais sombria, estariam tendo uma conduta de caráter golpista, por não aceitarem os resultados das eleições de 2006, ou mesmo de 2002. É por isso, e por nenhuma outra razão, que a "grande imprensa" mostra um noticiário e opiniões tão negativos em relação ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ela estaria servindo, segundo a nota que a Executiva Nacional do PT divulgou após sua última reunião em São Paulo, de "instrumento e estado-maior" para a ofensiva direitista.
O caldo tende a engrossar por um motivo claro: há muita gente dentro do atual governo incapaz de admitir a idéia de que a imprensa publica fatos desastrosos em relação ao poder público porque os fatos, simplesmente, aconteceram. Para tais setores do governo, não houve, na realidade, um mensalão -- como não há uma crise aérea e nada do que ocorreu entre uma coisa e outra. Tudo é fruto de uma ilusão construída pela mídia, que aproveita eventuais equívocos ou desvios isolados de um ou outro agente do governo, perfeitamente admissíveis, para criar a impressão de que existe corrupção, desordem e incompetência na administração do presidente Lula. Os objetivos da grande imprensa seriam os piores, e a prova disso estaria na cobertura dada à tragédia com o avião da TAM em Congonhas. "A grande mídia foi montando primeiro um cenário de guerra e, depois, de golpe de Estado", afirma a filósofa Marilena Chauí, figura de destaque na área intelectual do PT. A crise que todo o mundo vê com os próprios olhos não existe, segundo nos garante a professora Chauí. É, em suas próprias palavras, uma "invenção".
Está claro que os pontos de vista, as análises e o noticiário de diversos órgãos da mídia de expressão nacional compõem um quadro muito ruim para o governo do presidente Lula. Também é verdade que a imprensa cometeu erros factuais em todo esse processo, embora tenha acertado muito mais vezes do que errou. Pode-se até concordar, enfim, quando o governo diz que a mídia é contra ele. Mas onde está escrito que deveria ser a favor ou neutra? É essa, justamente, a idéia que tantas pessoas de peso no Palácio do Planalto e a seu redor não conseguem aceitar. Na sua visão, a imprensa não teria o direito de ser contra o governo porque Lula foi eleito e reeleito nas urnas. Órgãos de comunicação que se opõem a um governo escolhido pelo voto estariam, por essa maneira de ver as coisas, afrontando o resultado das eleições.
Nada disso, naturalmente, tem alguma coisa a ver com elevadas questões de doutrina. A posição oficial serve, em primeiro lugar, ao propósito muito útil de fornecer uma desculpa a membros do governo ou da "base aliada" que foram pegos em qualquer dos escândalos destes últimos anos. Em segundo lugar, comprova sua alergia à liberdade de expressão -- valor que toleram, por não terem força para suprimir, mas que acham dispensável num país de governo "popular". Que tipo de imprensa Lula, o PT e seus amigos gostariam de ter no Brasil? Uma história atribuída ao ex-presidente Costa e Silva talvez forneça pistas. Diante da irritação do marechal com algo que acabara de ler (antes de baixar o Ato Institucional no 5 e adquirir com ele a censura que resolveria esse tipo de chateação), um de seus assessores lhe sugeriu que não ficasse aborrecido. "É uma crítica construtiva, presidente", disse o assessor. "Mas eu não quero crítica construtiva", respondeu Costa e Silva. "Eu quero elogio."
Melhor isso do que os comunicados da Executiva Nacional do PT. Ganha-se, pelo menos, em clareza.
Crise aérea, corrupção no Senado, mensalão -- segundo a versão corrente na esquerda, nada disso efetivamente ocorreu. A idéia de uma "conspiração" serve apenas para esconder os pecadilhos dos companheiros -- e evidencia a alergia do governo à liberdade de expressão
Seria bobagem, de parte a parte, fazer de conta que está tudo normal nas relações entre o governo e os meios de comunicação brasileiros. Não está. Na verdade, a situação entre um e outros talvez esteja em seu pior momento dos últimos quatro anos e meio e, pelo rumo que a coisa vem tomando, parece destinada a piorar ainda mais. O governo se convenceu que "certos setores" da mídia estão articulados com a "oposição de direita" numa espécie de conspiração para derrotar seus candidatos nas eleições de 2008 e 2010 -- ou, numa hipótese ainda mais sombria, estariam tendo uma conduta de caráter golpista, por não aceitarem os resultados das eleições de 2006, ou mesmo de 2002. É por isso, e por nenhuma outra razão, que a "grande imprensa" mostra um noticiário e opiniões tão negativos em relação ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ela estaria servindo, segundo a nota que a Executiva Nacional do PT divulgou após sua última reunião em São Paulo, de "instrumento e estado-maior" para a ofensiva direitista.
O caldo tende a engrossar por um motivo claro: há muita gente dentro do atual governo incapaz de admitir a idéia de que a imprensa publica fatos desastrosos em relação ao poder público porque os fatos, simplesmente, aconteceram. Para tais setores do governo, não houve, na realidade, um mensalão -- como não há uma crise aérea e nada do que ocorreu entre uma coisa e outra. Tudo é fruto de uma ilusão construída pela mídia, que aproveita eventuais equívocos ou desvios isolados de um ou outro agente do governo, perfeitamente admissíveis, para criar a impressão de que existe corrupção, desordem e incompetência na administração do presidente Lula. Os objetivos da grande imprensa seriam os piores, e a prova disso estaria na cobertura dada à tragédia com o avião da TAM em Congonhas. "A grande mídia foi montando primeiro um cenário de guerra e, depois, de golpe de Estado", afirma a filósofa Marilena Chauí, figura de destaque na área intelectual do PT. A crise que todo o mundo vê com os próprios olhos não existe, segundo nos garante a professora Chauí. É, em suas próprias palavras, uma "invenção".
Está claro que os pontos de vista, as análises e o noticiário de diversos órgãos da mídia de expressão nacional compõem um quadro muito ruim para o governo do presidente Lula. Também é verdade que a imprensa cometeu erros factuais em todo esse processo, embora tenha acertado muito mais vezes do que errou. Pode-se até concordar, enfim, quando o governo diz que a mídia é contra ele. Mas onde está escrito que deveria ser a favor ou neutra? É essa, justamente, a idéia que tantas pessoas de peso no Palácio do Planalto e a seu redor não conseguem aceitar. Na sua visão, a imprensa não teria o direito de ser contra o governo porque Lula foi eleito e reeleito nas urnas. Órgãos de comunicação que se opõem a um governo escolhido pelo voto estariam, por essa maneira de ver as coisas, afrontando o resultado das eleições.
Nada disso, naturalmente, tem alguma coisa a ver com elevadas questões de doutrina. A posição oficial serve, em primeiro lugar, ao propósito muito útil de fornecer uma desculpa a membros do governo ou da "base aliada" que foram pegos em qualquer dos escândalos destes últimos anos. Em segundo lugar, comprova sua alergia à liberdade de expressão -- valor que toleram, por não terem força para suprimir, mas que acham dispensável num país de governo "popular". Que tipo de imprensa Lula, o PT e seus amigos gostariam de ter no Brasil? Uma história atribuída ao ex-presidente Costa e Silva talvez forneça pistas. Diante da irritação do marechal com algo que acabara de ler (antes de baixar o Ato Institucional no 5 e adquirir com ele a censura que resolveria esse tipo de chateação), um de seus assessores lhe sugeriu que não ficasse aborrecido. "É uma crítica construtiva, presidente", disse o assessor. "Mas eu não quero crítica construtiva", respondeu Costa e Silva. "Eu quero elogio."
Melhor isso do que os comunicados da Executiva Nacional do PT. Ganha-se, pelo menos, em clareza.