Adelson Elias Vasconcellos, Comentando a Notícia
Lula profetizou: "Século 21 é o século do Brasil".
O diabo é que um século tem cem anos, e recém estamos no sétimo ano do século 21. Assim, espero que Lula não esteja contando com tanto tempo para tornar o Brasil um país melhor. Mesmo porque, só uma ínfima parcela da população conseguirá viver tanto tempo. E com os serviços públicos se deteriorando do jeito que estão, talvez ninguém consiga chegar vivo até lá...
Lula profetizou: "Século 21 é o século do Brasil".
O diabo é que um século tem cem anos, e recém estamos no sétimo ano do século 21. Assim, espero que Lula não esteja contando com tanto tempo para tornar o Brasil um país melhor. Mesmo porque, só uma ínfima parcela da população conseguirá viver tanto tempo. E com os serviços públicos se deteriorando do jeito que estão, talvez ninguém consiga chegar vivo até lá...
"Não vamos jogar fora a oportunidade que tivemos no século XX. [O biodiesel] é o instrumento que temos para ganhar o mundo", declarou.
Há duas questões que, francamente, é duro de engolir: primeiro, qual a oportunidade que tivemos no século XX? Só de ditaduras tivemos quantos anos? Ainda ao final dos anos cinqüenta, meio século portanto, o país era um importador nato. Exportávamos basicamente café, e assim mesmo em grãos. Quantas mudanças a civilização humana sofreu ao longo do século passado ? Passamos um século inteiro construindo o Brasil, e sempre de maneira errada: nunca priorizando a educação. De quem a culpa ? Das elites econômicas ? Da elite política ? Dos coronéis do nordeste, ou dos industriais do sul-sudeste ? A partir de que momento histórico nasceu uma verdadeira consciência nacional devotada à educação, ao trabalho, ao progresso, ao regime de leis democráticas? Um país, do tamanho do Brasil, não se constrói do nada, sem trabalho, e sem uma elite interessada neste bem estar social em solo próprio. Avançamos sim, e muito, e em todas as direções. Claro que muita coisa nos aconteceu em função de acontecimentos mundiais, como as duas grandes guerras.
Pode-se dizer que a modernidade nasce a partir de JK, ou da legislação trabalhista de Getúlio Vargas ? Ou da redemocratização de 1985? Éramos uma grande nação com vários povos. Hoje, quando poderíamos reuni-los em um só, Lula e seu partido provocam o apartheid mais idiota que se pode imaginar. São vários Brasis que se vão construindo: Brasis raciais, Brasis regionais geograficamente, Brasis econômicos, e em cada um, uma divisão infame. Não há uma inteligência a nos deslocar para um mesmo ideal de país, e o que é mais importante, de um só povo.
O petista ainda prometeu "viajar" muito em 2007 para divulgar as qualidades do país. "Ninguém vai ajudar o Brasil por causa da nossa pobreza, mas vão respeitá-lo pelas nossas qualidades", disse Lula. Ele ainda prometeu que os bio-combustíveis não colocarão em risco a produção de alimentos do país, no entanto, ressaltou que é preciso ter cuidado com o zoneamento da agricultura.
Seria interessante saber que droga de zoneamento é este, quando se sabe que o INCRA está assentando gente no meio da floresta amazônica, e onde a mais próxima viva alma fica a dezenas de quilômetros de distância! Sem contar com o desmatamento descarado e sem tréguas. Quanto aos bio-combustíveis, se Lula tivesse estudado, talvez sua matemática fosse um pouco melhor: nossa capacidade de produzir bio-combustíveis em escala industrial, quando muito atenderá a demanda interna. Se for para abastecer o continente americano apenas, vamos beber bio-combustíveis com meia dúzia de grãosde feijão dentro deles mergulhado. Não há terra suficiente para plantar alimento e bio-combustíveis capazes de atender, simultaneamente, nossas necessidades. Que se utilize o bio-combustível para suprir parte do que precisamos para mover a frota de veículos e automotores em geral, vá lá: mas não se pode viver na ilusão de que estamos diante de ouro puro capaz de enriquecer o país. Isto é uma piada sem graça e fora de hora.
Há muitas outras riquezas existentes no país capazes de nos tirar da pobreza histórica. Mas nenhuma destas riquezas poderá cumprir com este papel se o país tiver que carregar nas costas o peso dos impostos atualmente tungados das pessoas e empresas que trabalham e produzem. A ganância fiscal furta compulsivamente qualquer capacidade de poupança interna que nos pudesse permitir alavancar investimentos produtivos. Reparem que, para uma inflação em torno de 4% ao ano, o crescimento real na arrecadação de impostos foi superior a 10%, portanto acima da inflação e do próximo crescimento real do PIB. Um Estado que suga praticamente 35% de toda a riqueza nacional produzida ao longo de um ano, e que nada devolve para esta sociedade, seja em serviços e investimentos de infra-estrutura, não pode sonhar que, neste ritmo, e no espaço de um século, o país sairá da miséria em que se encontra.
O próprio governo revela o lado triste desta história de fantasias e sonhos tresloucados: um em cada quatro brasileiros, recebe Bolsa-Família, ou seja, um em cada quatro brasileiros recebe por mês renda inferior a R$ 120,00 o que lhe permite o benefício do programa assistencialista. Diz o governo já serem 25% da população os beneficiados, isto é, cerca de 46 milhões de indivíduos vivendo com menos da metade de um salário mínimo já baixo historicamente. Deste contingente, metade não tem esgoto sanitário, não tem transporte, não tem escolas, não tem serviços de saúde. Mas tem uma bolsa esmola que sequer é capaz de abrir portas para sua melhoria.
Seria possível descortinar um horizonte melhor se o governo federal impusesse a si mesmo como prioridade de sua administração, a educação maciça da população, e um investimento relevante em qualidade de vida. Ao término de seu segundo mandato, já terão decorridos 10% do século, sem que tenhamos saído do lugar, e o que é pior, ao que parece estamos retrocedendo e perdendo velocidade. Reparem como os sonhos não se coadunam com as metas dos planos governamentais megalomaníacos: somente em 2021, o país atingirá níveis de ensino condizentes com a média atual dos países europeus. Como eles não ficarão parados até lá, ou seja, significa que gastaremos cerca de 15 anos para chegarmos onde os europeus se encontram hoje, e mesmo assim, ainda estaremos distante dos países do primeiro mundo, que, claro, avançarão ainda mais. Isto apenas na questão da educação, fora o restante.
Talvez ao final deste século, e quando muito, possamos estar em níveis melhores do que os atuais em qualidade de vida. Mas no ritmo com que o atual governo está imprimindo, e até pelo desenho de Estado que está tentando impor, é mais fácil daqui 93 anos estarmos, em relação ao restante do mundo, no mesmo patamar em que nos encontramos hoje. Não existe país de primeiro mundo com povo maciçamente ignorante e com classe média empobrecida. Até pelo contrário. E que outra coisa temos hoje diferente deste quadro, ou que o governo esteja ao menos empenhado em resolver ?
Não, não há como avançar tendo o fruto do nosso trabalho tolhido em grande parte pelo Estado que não nos devolve nada. O que mais se poderá ter a continuar o país sendo governado como tamanho desleixo, é menos miseráveis, menos classe média e muitos, mas muitos pobres. Um exército deles, vivendo apenas para suprir necessidades básicas à sua sobrevivência. E isto não nos fará melhores do que somos atualmente.
Melhor faria Lula se abandonasse de vez a retórica mentirosa com que tenta se vender na figura de um estadista, e passasse a agir como um governante capaz, sério e responsável. A lembrá-lo: os militares, entre 1964 a 1985, tentaram vender a mesma porcaria e deu no deu. Portanto, mais realidade, e menos fantasia. Até porque, ao final deste século, Lula não mais estará vivo para ser cobrado por suas mentiras. Talvez conste seu nome em algum livro de história com o seguinte lembrete: “o que foi sem nunca ter sido”.