quarta-feira, agosto 22, 2007

À sombra do velho Estado Novo

Wilson Figueiredo, jornalista, Jornal do Brasil

O mestre em ciência política Luiz Werneck Vianna (Iuperj) chamou a atenção, em entrevista ao Estadão dia 5 de agosto, para aspectos que são mais do que simples coincidência no governo Lula:"ecos do ideário que gerou o trabalhismo brasileiro", presença atuante de "representações corporativas de trabalhadores e empresários", notória dificuldade presidencial de "conciliar interesses conflitantes" e "centralização ostensiva". Não ficam de fora sequer os escândalos que abalam a representação política nacional. E definiu o quadro como o "Estado Novo do PT."

O segundo mandato presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva favorece deduções que, embora debaixo dos olhos, pedem mais atenção. Somam-se abstinência crítica da esquerda e sintomática alienação oposicionista. O próprio PT prefere não ver. A sentença de Werneck Vianna poderia ao menos sacudir a inércia petista e lembrar às esquerdas a perda da oportunidade aberta pela ascensão petista ao poder. A vitória eleitoral não ocorreu por acaso. O governo do PT perdeu a perspectiva histórica e não entendeu como chegou até aqui, e muito menos aonde irá parar.

Tancredo Neves definiu a natureza política do regime de 1964 como o "Estado Novo da UDN" e, vinte anos os depois, com a mesma arma _ o voto indireto _ retomou aos governos militares a estrada sinuosa rumo à democracia. Com o petismo no lugar do udenismo, a situação constrangedora se repete. No vazio crítico, as observações de Werneck Vianna têm adrenalina capaz de reativar as esquerdas perplexas. Por medo das conclusões (que não estão no passado, mas à disposição do presente ), o debate se frustrou dentro e fora do PT. O governo Lula marca passo na nostalgia de soluções de curto prazo, embora haja espaço para o debate nos limites do marxismo e da experiência socialista no século 20, sem compromisso com o que não deu certo. A fórmula que caracterizou o trabalhismo à brasileira não é mais aplicável ao país industrializado e inserido na desconfortável e incerta globalização. É estéril o hábito de ignorar, por princípio, a luta de classes como cenário. Nosso trabalhismo equilibrava-se na representação compartilhada por dirigentes sindicais, tanto de empregados quanto de empresários. O denominador comum foi o peleguismo de patrões e empregados. O sindicalismo patrocinou soluções obtidas no avesso da luta de classes. O Brasil, "essencialmente agrícola", queria distância da reforma agrária. O agro-negócio não fará do governo Lula um espetáculo de esquerda.

Diante das eleições (presidencial e representativa) em 1945, a oposição se adiantou em fazer a cabeça da então restrita classe média, que hoje é o lastro histórico da democracia. O PTB foi o beneficiário político e eleitoral de Getúlio Vargas graças à estrutura sindical manipulada e controlada pelo Ministério do Trabalho. Mas a classe média adquiriu consistência, cresceu e se tornou indispensável. Nenhuma tendência governa sem contar com ela.

"É mais do que metáfora", adverte Werneck Vianna sobre o Estado Novo do PT. Multiplicam-se os sinais de esvaziamento da confiança política a partir do Legislativo. Riscos à vista. Lula realimenta a popularidade de baixo custo com o declínio dos partidos e a banalização dos escândalos parlamentares. Fala-se de sucessão com foco oculto na gestação do terceiro mandato. O fato é que a reeleição não resolveu velhos problemas que crescem, perigosamente, por conta própria.