sábado, setembro 01, 2007

Apagando o crescimento

Adelson Elias Vasconcellos, Comentando a Notícia

Quanto mais o tempo passa, mais difícil fica para o país sair da estagnação. Há uma total apatia por parte do governo federal na gestão dos serviços públicos e da nossa infra-estrutura. È um tal de lançar pac pra cá, lançar pac pra lá, mas dinheiro que é bom, nada.

Mas o sinal de alerta está dado: a inflação, que se tinha como morta, deu sinal de vida. O IPCA medido pelo IBGE mostrou que alguma coisa precisa ser revista pelo governo.

Quando estourou a recente crise financeira, muito mais americana do que internacional, os principais países trataram de se ajustar e impedir que os tormentos do mercados prejudicassem suas economias. Assim, foram mais de 500 bilhões de dólares que França, Japão, Alemanha, Estados Unidos e Inglaterra, principalmente estes, jogaram no mercado para manter a estabilidade de seus economias internas. No Brasil, nada. O governo Lula acha que tudo está bem, de que estamos blindados com 160 bilhões de dólares de reservas, e que por isto mesmo não seremos atingidos e não se deve mexer em time que está ganhando. Será?

Há uma certa combinação de fatores com os quais a equipe econômica deveria atentar-se. Vejamos: o dólar, pela sobe e desce das últimas semanas, j~á não pode ser usado para conter a inflação que ameaça sofrer alguns soluções. Mas este “pequeno” surto inflacionário não se deve apenas pela instabilidade da moeda americana. Acontece que a as vendas no varejo e no atacado vem em ritmo forte nos últimos meses e demanda forte provoca, quando não existe a barreira de juros e câmbio para conte-la, espirros nos índices de preços.

Só que esta demanda, impulsionada por aumentos reais do salário mínimo, aumentos reais para servidores públicos, e oferta abundante de crédito subsidiado, não está sendo acompanhada por investimentos em novas plantas industriais capazes de compensar com aumento de oferta o crescimento da demanda.

Assim, não tendo aumento via importações, não tendo barreira dos juros para conter o consumo, os preços naturalmente irão crescer.

Mas ainda isso não é todo o problema, apenas parte dele. Até bem pouco tempo atrás, um dos maiores “incentivadores” da inflação dos preços internos era o excessivo gasto público. Apenas no primeiro semestre de 2007, eles cresceram nominalmente, 13%!!!!! E este crescimento tem sido constante em todo o período do governo Lula. E deve acrescentar que esta gastança não é em investimentos, é apenas a manutenção da máquina pública que cresce sem parar e provoca elevação destes gastos. Assim, o espaço para maior redução de juros internos reais descontada a inflação, fica apertado, obrigando que o custo do dinheiro para investimentos produtivos sejam ainda muito elevados.

Mais: um dos maiores entraves aos investimentos chama-se carga tributária. Ora, como reduzi-la a níveis igualitários aos demais emergentes, se os gastos públicos não param de crescer em ritmo alucinante ?

Em face do problema chamado ANAC, ou mais propriamente, do aparelhamento praticado na ANAC, como de resto nas demais agências reguladoras, o governo vai promover mudanças na lei que regulamenta a atuação e a composição das agências. Isto não se faz de um dia para outro. Assim, se envia para o mercado o alerta de que a segurança jurídica em determinadas ainda sofrerá mudanças. Quais mudanças ? Ninguém sabe.

Juntando então câmbio instável, juros ainda altos, carga tributária elevadíssima, gastança pública sem freio e insegurança jurídica, temos aí a perfeita equação a travar o crescimento do país. E o que é doloroso: com ameaças reais de elevação da inflação interna, redução ainda maior nos investimentos públicos em serviços e infra-estrutura, culminando no recado de que, quem tem investimentos projetados no país, vai faze-lo de forma moderada e em ritmo mais lento.

Claro que a oferta de crédito abundante, incentivos diretos à construção civil e o nível de vendas externas em ritmo crescente graças aos asiáticos que continuam comprando muito, alimentos principalmente, commodities portanto, ajudam a manter certa expectativa interna de um crescimento moderado. Contudo, esta moderação é muito mais vegetativa do que ganho real.

O que isto quer dizer ? A cada ano seja pelo crescimento da população, seja pelo contingente de mão de obra nova que chegam ao mercado de trabalho, o país precisa cerca de 1,5 milhão de novos empregos. Qualquer coisa além disso já é crescimento real que fará cair aquela taxa histórica de desemprego em torno de 10%. Ou, se produzirmos menos do que 1,5 milhão de novos postos de trabalho, a tendência será i desemprego aumentar.

Ora, a absorção desta força “nova” que ingressa no mercado de trabalho, além de novos brasileiros que nascem a cada ano, nos obriga crescer em torno de 2,5 a 3% apenas para não aumentar a pobreza e a queda na renda. É o crescimento mínimo necessário para ficar tudo como está, é o que chamamos de “crescimento vegetativo”. Desde a implantação do Plano Real, o Brasil tem mantido esta média, e vez por outra, dá alguns saltos que ultrapassam um pouco a barreira dos 4,0%.

Com a mudança na forma de cálculo do crescimento, este índice mínimo precisa chegar 3,2 a 3,5%. Como o país prevê para 2007 algo em torno de 4,7%, em termos reais nosso avanço será de pouco além de 1,0%, muito pouco para o momento da economia mundial, ínfimo para atender as nossas maiores necessidades.

Assim, é preciso que a equipe econômica mude um pouco sua postura face ao momento não apenas por culpa da crise financeira internacional, mas também pela própria conjuntura interna do País. Pode parecer que tudo está indo muito bem, mas sinais claros de alerta a cobrar mais ações, e menos discursos. Todas as nossas graves crises nasceram e cresceram diante do descaso do governo federal para com os sinais de alerta. É só fazermos um levantamento histórico e vamos encontrar todas as evidências que corroboram esta verdade. E, muito embora as aparências sejam positivas, não entender os sinais de alerta e precaver-se significa apagar o crescimento do país. Ou será não aprendemos nada com os erros passados ?