sábado, setembro 01, 2007

"Tortura Nunca Mais" diz que Lula mente

Fernando Sampaio

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva está mentindo quando diz que todos os documentos sobre a ditadura militar estão sendo entregues ao Arquivo Nacional. A acusação é de Cecília Coimbra, ex-presa política, fundadora e atual presidente do grupo "Tortura Nunca Mais". "Eu digo que essa posição é mentirosa. Alguns documentos que estão sendo entregues são importantes, mas não respondem as questões dos mortos e desaparecidos políticos", ressalta Cecília.

Sobre a posição do governo Lula, que promoveu quarta-feira, no Palácio do Planalto, o lançamento do livro "Direito à Memória e à Verdade", um balanço dos 11 anos dos trabalhos da Comissão de Mortos e Desaparecidos do governo, Cecília Coimbra disse que "é extremamente contraditória", porque "se acende uma vela a Deus e outro ao demônio".

Ela observou que, "infelizmente, nenhum governante - e esperávamos que o presidente Lula, ontem (quarta-feira), fizesse isso - veio a público pedir desculpas pelos crimes cometidos em nome da segurança nacional naquele período". Cecília considerou um passo importante o lançamento do livro com o apoio do governo, mas "ainda é um passo limitado, porque não há vontade política ainda nesse governo" para efetivamente abrir os arquivos da ditadura.

"O que foi declarado pelo presidente é mentiroso. É "mise-en-scêne" imediática. É de indignar as pessoas que estão vinculadas a essa luta. Os documentos que estão sendo encaminhados para o Arquivo Nacional são documentos que não respondem a essas perguntas que a gente está fazendo há mais de 30 anos. Isso é mentira. Gostaria, inclusive, que alguém viesse dizer que o que eu estou falando é mentira. Estou desafiando o governo nesse momento a dizer que isso é mentiroso. As perguntas não estão sendo respondidas, porque os acordos que foram feitos por esse governo e pelos anteriores, impedem isso", afirmou.

Culpados
Segundo Cecília Coimbra, os que impedem o esclarecimento dos fatos não são só os militares remanescentes da ditadura, mas "empresários, civis, políticos" que participaram dos fatos e estão hoje apoiando o governo Lula. "Os militares foram "testas-de-ferro" de uma série de coisas. Obviamente esses foram responsáveis sim por todas essas violações de direitos humanos, mas não fizeram isso sozinhos".

E emenda: "Empresários financiaram a tortura neste país, a gente sabe disso. Então, acho que as instituições militares poderiam até entender, que é importante passar a limpo um pouco essa história, no sentido deles próprios mostrarem que não foram os únicos responsáveis pela violação de direitos humanos que aconteceram nesse País", ressalta.