segunda-feira, outubro 01, 2007

Hospital de luxo para as moscas

Simone Miranda - EXTRA

Logo na entrada, uma imponente escada rolante que liga os andares com piso revestido em granito chama a atenção dos poucos que já tiveram acesso ao interior do Hospital Municipal Ronaldo Gazolla, em Acari. É só o cartão de visitas de uma unidade que, se aberta em 2004, como estava previsto inicialmente pela prefeitura, já poderia, pelos parâmetros iniciais, ter feito cerca de 2,7 milhões de atendimentos (entre ambulatório e emergência) e 21.600 partos. Praticamente pronto desde o ano passado, entretanto, o hospital ainda é, para a população de Acari e arredores, um gigante encravado em meio à favela. Uma unidade que, mesmo parada, já custou ao menos R$ 80,9 milhões aos cofres públicos.

O EXTRA teve acesso, com exclusividade, a fotos feitas no interior do hospital. As imagens comprovam a luxuosidade e a modernidade das instalações. Instalações de que a população da região - que amarga o terceiro mais baixo índice de desenvolvimento humano da cidade - vem sendo privada há mais de um ano devido a uma batalha judicial travada entre a Secretaria municipal de Saúde e o Sindicato dos Médicos.

Entrave judicial
Alegando não conseguir profissionais para trabalhar no local, considerado de risco, o governo resolveu partir para um novo modelo de gestão: abriu, então, um edital para contratar uma pessoa jurídica que administre a unidade pública. O sindicato, contrário à solução, entrou na Justiça para embargar o processo de licitação. O entrave já dura quase um ano e meio, período em que o Tribunal de Contas do Município (TCM) também exigiu mudanças no edital.

Sobre o porquê de a dificuldade em se conseguirem profissionais não ter sido prevista antes do início da construção, até Cesar Maia se cala - foi a única, das três perguntas feitas pelo EXTRA, não respondida pelo prefeito.

Bala perdida
Se a solução encontrada para incentivar os profissionais a trabalharem em Acari é questionável, o mesmo não se pode dizer do motivo alegado: construído em meio a favelas de facções rivais, o hospital já foi alvo de, ao menos, uma bala perdida - cuja marca foi deixada na grade e no vidro de uma janela do prédio principal.

A nova previsão de inauguração da unidade é, segundo o prefeito, dezembro deste ano. De acordo com a secretaria, o mobiliário e os equipamentos estão em fase final de aquisição.