segunda-feira, outubro 01, 2007

A República dos interinos

Karla Correia, Jornal do Brasil

Às vésperas de completar 10 meses do segundo mandato, a equipe de governo de Luiz Inácio Lula da Silva ainda está incompleta. São cerca de 40 os cargos de primeiro e segundo escalões ocupados por diretores que aparecem como substitutos ou provisórios nas estruturas de ministérios e estatais. A irritação com a "República de interinos", como já apelidaram políticos aliados inconformados com a demora do governo em definir nomeações para os cargos mais cobiçados, ajuda a piorar o clima dentro da bancada governista no Congresso, que reclama de "maus-tratos" do Palácio do Planalto. E sinaliza que as rebeliões na Câmara, com os obstáculos na votação da CPMF, e no Senado, com a derrubada da medida provisória que criava a Secretaria de Planejamento de Longo Prazo, são só uma amostra do que está por vir.

- A lentidão com os cargos colabora para aumentar as tensões, mas o problema é muito mais profundo do que isso, está na forma do governo lidar com a coalizão como um todo - analisa o deputado Eunício Oliveira (PMDB-CE), que passou a semana apagando pequenos incêndios na bancada de seu partido na Câmara.

As duas insurreições mais graves, nas bancadas do Rio de Janeiro e de Minas Gerais, tinham como principal motivo a distância entre o aperto de mão, no Palácio do Planalto, e a publicação efetiva dos cargos prometidos no Diário Oficial, causa de desgaste freqüente entre governo e sua base de sustentação.

Um exemplo clássico citado entre aliados, não só peemedebistas, é a lentidão do processo a que foi submetido o ex-vice-governador do Rio de Janeiro Luiz Paulo Conde, antes de ser nomeado para a presidência da estatal Furnas Centrais Elétricas.

O PMDB se queixa de não ser bem recebido pelo Planalto. Em um jantar na casa do senador Valter Pereira (MS), na última terça-feira, irrompeu a rebelião contra o tratamento dispensado pelo governo e pela efetivação das promessas sobre cargos. Começou pelo senador José Maranhão (PMDB-PB) que se queixou sobre a demissão de um apadrinhado seu da diretoria do Banco do Nordeste (BNB) substituído por um petista.

- Não fui sequer comunicado - teria dito o enfurecido o senador, segundo relato de participantes do encontro.

O desabafo deu início a uma série de lamúrias sobre nomeações, sobretudo no setor elétrico, principal alvo da cobiça do PMDB e um dos celeiros de interinos. Ao menos nove cargos, incluindo a cadeira de ministro de Minas e Energia, hoje ocupada por Nelson Hubner, e a presidência da Eletrobrás, de onde o Diretor de Engenharia da estatal, Valter Luiz Cardeal de Souza, comanda 40% da geração de energia do país, são ocupados por interinos.

- O problema é e sempre será o PT. Onde esse partido estiver ocupando um cargo, nenhuma outra legenda aliada vai conseguir entrar sem antes suar muito - esbraveja um senador governista.

Responsável pelo diálogo entre Planalto e Congresso, o ministro das Relações Institucionais, Walfrido Mares Guia, foi pego de surpresa pela rebelião no Senado mas disse ver no movimento ao menos um fator positivo.

- Se foi um recado para o governo, ao menos chegou em hora oportuna - acredita o ministro, que reconhece ter havido atraso na liberação de emendas parlamentares, outro foco de revoltas entre aliados.