terça-feira, março 25, 2008

A estratégia do terceiro mandato

Adelson Elias Vasconcellos

Logo após sua reeleição, Lula em discurso pediu uma espécie de “trégua” à oposição. Disse que voltaria a falar em eleição somente em 2010. Bem, ele não apenas não fala de outra coisa, como encaminhou todas as ações de governo projetando a eleição de 2008, e já manda recados à oposição de que, em 2010, ele fará seu sucessor. E diz isto justo na semana em que se mostrou indignado com as afirmações de que seus pacs são eleitoreiros.

Na verdade, a crítica não se faz apenas aos pacotinhos de bondades, mas a forma como o presidente os vai esparramando pelo país, em caravanas nitidamente político-eleitoreiras. Nos pacotinhos, diga-se também, vale incluir qualquer coisa, desde obras antigas em andamento, até simples emendas parlamentares incluídas no orçamento. Junte-se a isto os palanques, com direito a claque regada a quentinhas e os indispensáveis discursos de auto-promoção e, convenhamos, fica difícil entender coisa diferente daquilo que os críticos afirmam, entre os quais me incluo, de que a ação do governo é apenas eleitoreira.

Em sua defesa, o senhor Luiz Inácio diz que os pacs se constituem em um projeto lançado há dois anos atrás. Mentira, eles foram lançados entre janeiro e março de 2007, recém completaram um ano, portanto. Depois, se o pacote fosse de fato de um ou dois anos atrás, por que somente agora, às vésperas das eleições municipais, é que o governo federal ficou interessado nas festas de lançamento junto aos municípios e estados beneficiados ? É bom lembrar que já havia ocorrida festa de lançamento em Brasília. Então, prá que mais uma , local, em ano eleitoral ?

Mas, estejam certos, o Luiz Inácio, de fato, só pensa nas eleições municipais. Lula sabe que, no PT, não há candidatos naturais à sua sucessão. E, de acordo com a lei eleitoral vigente, ele não poderá concorrer a um terceiro mandato. Qual a estratégia ?

A estratégia é ganhar terreno no apoio popular para ganhar força no terreno político, principalmente, para os candidatos do PT que concorrerão nas eleições de 2008. Conquistados os dois terrenos, ele poderá enviar ao Congresso (ou arranjar alguém que o faça em seu nome), projeto de lei acabando com o instituto da reeleição, ampliando o mandato presidencial dos atuais quatro para cinco ou seis anos. E, neste caso, apaga-se a pedra, e poderá o Luiz Inácio sair candidato em 2010. De novo e pela terceira vez consecutiva, sem ferir a lei. É ético ? Não, mas lá eles se preocupam com ética? Como este governo se viciou em cometer crimes e, quando pego em flagrante, sua defesa é sempre na base “fiz mas os outros também fizeram”, eles acham que nesta ladainha podem continuar enrolando todo mundo.

Claro, nunca é demais esquecer que, para o PT e PMDB, principalmente, a perda do poder representaria, inicialmente, a perda conseqüente de cerca de 25 mil cargos na esfera federal. Sem dúvida, um prejuízo e tanto para que o terceiro mandato seja descartado com tanta facilidade. Porém, não se pode ir com muita sede ao pote. É preciso criar condições junto à opinião pública para que a imoralidade seja imposta com facilidade. E esta é aposta do Planalto.

Sendo assim, o recado enviado à oposição para que ela se preocupe porque o Luiz Inácio fará seu sucessor, engloba toda a estratégia que existe por trás. Ou vocês acham que a criação recente do Bolsa Adolescente, que vai justamente beneficiar os eleitores jovens de primeira viagem, foi criada em ano eleitoral apenas por pura coincidência ? Voltem aos arquivos dos jornais: a idéia de criação da nova “bolsa” nasceu no final de 2006. Ora, ele esperou até agora para fazer seu lançamento motivado pelo quê?

E não se enganem: o candidato de Lula, para sucedê-lo a partir de 2011 não é outro senão ele mesmo. Mas, aí, o jornalista vai lá e pergunta ao Luiz Inácio se ele pensa em terceiro mandato. Que resposta se esperaria que ele desse? Que é a favor, que o governo trabalha com esta idéia e que tudo está sendo preparado para ele continuar na presidência por mais quatro ou, quem sabe até, cinco anos ? Evidente que ele dirá que é contra, etc., etc., etc. A fruta é tanto mais saborosa quanto mais ela amadurece. Daí a estratégia de primeiro criar o clima, para depois aplicar o golpe certeiro.