Villas-Bôas Corrêa, Jornal do Brasil
Em justa e atrasada crítica, o ministro da Saúde, José Gomes Tinhorão, começou a botar os pingos na dengue, a começar pela corajosa carapuça com endereço certo de que "a dengue é uma lição que o Brasil já deveria ter aprendido há muito tempo". E avança com cautela para não pisar no calo do responsável direto para lembrar que, "todos os anos em que há campanha eleitoral, a guerra contra a dengue perde".
Ora, mas quem está fazendo campanha, ignorando a caduca legislação eleitoral, com a candidata-ministra Dilma Rousseff, mãe do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) a tiracolo, como usa a frágil desculpa de que acompanha obras como mestre do ofício e desfila nos palanques para os múltiplos improvisos diários?
A oposição protesta, como se constrangida por dever penoso. E pela garganta da meia dúzia de senadores e raros deputados que dão o seu recado pela tribuna parlamentar.
A bem nutrida maioria governista – que engorda a cada dia com as adesões negociadas no balcão do toma-lá-dá-cá da troca de votos por ministérios, autarquias, diretorias e demais miçangas – tem coisas mais urgentes para cuidar. O escândalo da divulgação do banco de dados, muito mais parecido com dossiê, engrossou com as novas denúncias que expõem na sua nudez a manobra política urdida no gabinete civil da ministra-candidata Dilma Rousseff para acuar a oposição com o levantamento dos gastos do ex-presidente FH e de dona Ruth com os cartões corporativos e as contas B. É munição para explodir o paiol.
Mas o desvio da rota não impede que se retome o roteiro da expansão da epidemia da dengue pelo país, com "significativo aumento no Amazonas, Rondônia, Sergipe, Bahia, Rio Grande do Norte e Pará". E no Rio de Janeiro chega a mais do dobro a soma dos casos nos demais Estados. Estadual ou nacional, a justa crítica ao sumiço do prefeito Cesar Maia, do Rio, não serve de tapume para disfarçar a apatia do governo nacional e a tática presidencial de limitar a sua participação na tragédia às esporádicas manifestações em entrevistas e discursos.
Não é esta a nossa tradição ao longo da História, desde os tempos do Império ao longo da República. Inclusive nos mandatos dos antecessores de Lula. A presença do presidente conforta as vítimas que não se sentem abandonadas. E a epidemia da dengue, que escapou do controle municipal e estadual, expõe o fracasso do Sistema Único de Saúde (SUS) na angústia das filas de milhares de desesperados com os sintomas da doença diante das portas semicerradas de hospitais e postos de saúde, com doentes pelos corredores, deitados em esteiras ou em bancos à espera do milagre do atendimento de enfermeiras e médicos exaustos.
É inexplicável a demora na mobilização do socorro do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, que comprovou a notória competência e que teria salvado vidas de muitos que não encontraram socorro na ronda por hospitais superlotados. Ao voltar do seu próximo giro internacional, o presidente Lula terá tempo de colar um remendo na sua omissão e assumir o comando nacional da luta contra a epidemia da dengue. Qualquer que seja o quadro que o espere.
E não custaria tanto baixar o nível da arrogância numa autocrítica sem testemunhas dos muitos erros da safra dos últimos meses. Os 55% de aprovação popular da última pesquisa subiram à cabeça como vapores etílicos. O líder blindado com índices ascendentes de aprovação considera-se acima de críticas. E decidiu antecipar-se aos prazos da experiência. No galeio da contradição entre o que diz e o que faz, lançou a virtual candidatura à sua sucessão, a ministra Dilma Rousseff. E, não satisfeito, disparou Brasil afora em campanha eleitoral que embola a autopromoção da visita a obras do PAC, quase todas no início, com a torrencial eloqüência da sua facilidade no improviso.
Ora, é preciso muito descaro para negar a evidência que entra pelos olhos nas telas da televisão, nas fotos e nos textos da mídia, nos conchavos dos partidos que se antecipam na correria do apoio incondicional ao presidente popular e à sua candidata nos ensaios de campanha. A desmoralização programada da CPI dos Cartões Corporativos – a começar pela pescaria da maioria dos seus representantes no bloco dos anônimos que se escondem nas últimas filas do plenário e curtem o mandato milionário em mudez protetora– é como jogar a bola contra a parede.
Ela volta ao campo.
Em justa e atrasada crítica, o ministro da Saúde, José Gomes Tinhorão, começou a botar os pingos na dengue, a começar pela corajosa carapuça com endereço certo de que "a dengue é uma lição que o Brasil já deveria ter aprendido há muito tempo". E avança com cautela para não pisar no calo do responsável direto para lembrar que, "todos os anos em que há campanha eleitoral, a guerra contra a dengue perde".
Ora, mas quem está fazendo campanha, ignorando a caduca legislação eleitoral, com a candidata-ministra Dilma Rousseff, mãe do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) a tiracolo, como usa a frágil desculpa de que acompanha obras como mestre do ofício e desfila nos palanques para os múltiplos improvisos diários?
A oposição protesta, como se constrangida por dever penoso. E pela garganta da meia dúzia de senadores e raros deputados que dão o seu recado pela tribuna parlamentar.
A bem nutrida maioria governista – que engorda a cada dia com as adesões negociadas no balcão do toma-lá-dá-cá da troca de votos por ministérios, autarquias, diretorias e demais miçangas – tem coisas mais urgentes para cuidar. O escândalo da divulgação do banco de dados, muito mais parecido com dossiê, engrossou com as novas denúncias que expõem na sua nudez a manobra política urdida no gabinete civil da ministra-candidata Dilma Rousseff para acuar a oposição com o levantamento dos gastos do ex-presidente FH e de dona Ruth com os cartões corporativos e as contas B. É munição para explodir o paiol.
Mas o desvio da rota não impede que se retome o roteiro da expansão da epidemia da dengue pelo país, com "significativo aumento no Amazonas, Rondônia, Sergipe, Bahia, Rio Grande do Norte e Pará". E no Rio de Janeiro chega a mais do dobro a soma dos casos nos demais Estados. Estadual ou nacional, a justa crítica ao sumiço do prefeito Cesar Maia, do Rio, não serve de tapume para disfarçar a apatia do governo nacional e a tática presidencial de limitar a sua participação na tragédia às esporádicas manifestações em entrevistas e discursos.
Não é esta a nossa tradição ao longo da História, desde os tempos do Império ao longo da República. Inclusive nos mandatos dos antecessores de Lula. A presença do presidente conforta as vítimas que não se sentem abandonadas. E a epidemia da dengue, que escapou do controle municipal e estadual, expõe o fracasso do Sistema Único de Saúde (SUS) na angústia das filas de milhares de desesperados com os sintomas da doença diante das portas semicerradas de hospitais e postos de saúde, com doentes pelos corredores, deitados em esteiras ou em bancos à espera do milagre do atendimento de enfermeiras e médicos exaustos.
É inexplicável a demora na mobilização do socorro do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, que comprovou a notória competência e que teria salvado vidas de muitos que não encontraram socorro na ronda por hospitais superlotados. Ao voltar do seu próximo giro internacional, o presidente Lula terá tempo de colar um remendo na sua omissão e assumir o comando nacional da luta contra a epidemia da dengue. Qualquer que seja o quadro que o espere.
E não custaria tanto baixar o nível da arrogância numa autocrítica sem testemunhas dos muitos erros da safra dos últimos meses. Os 55% de aprovação popular da última pesquisa subiram à cabeça como vapores etílicos. O líder blindado com índices ascendentes de aprovação considera-se acima de críticas. E decidiu antecipar-se aos prazos da experiência. No galeio da contradição entre o que diz e o que faz, lançou a virtual candidatura à sua sucessão, a ministra Dilma Rousseff. E, não satisfeito, disparou Brasil afora em campanha eleitoral que embola a autopromoção da visita a obras do PAC, quase todas no início, com a torrencial eloqüência da sua facilidade no improviso.
Ora, é preciso muito descaro para negar a evidência que entra pelos olhos nas telas da televisão, nas fotos e nos textos da mídia, nos conchavos dos partidos que se antecipam na correria do apoio incondicional ao presidente popular e à sua candidata nos ensaios de campanha. A desmoralização programada da CPI dos Cartões Corporativos – a começar pela pescaria da maioria dos seus representantes no bloco dos anônimos que se escondem nas últimas filas do plenário e curtem o mandato milionário em mudez protetora– é como jogar a bola contra a parede.
Ela volta ao campo.