domingo, abril 06, 2008

Governador volta para Boa Vista desiludido

Vasconcelo Quadros, Jornal do Brasil

O governador de Roraima, Anchieta Filho, deixou Brasília na última sexta-feira certo de que não há mais o que fazer para impedir a operação organizada pela Polícia Federal na Reserva Raposa/Serra do Sol.

– O governo federal está assumindo o ônus da operação – disse ele, depois de uma conversa definitiva com o secretário-executivo do Ministério da Justiça, Luiz Paulo Barreto.

A audiência encerrou três anos de de negociação e, se por um lado afastou o poder local, por outro, transferiu ao presidente Lula e ao ministro da Justiça, Tarso Genro, a responsabilidade pelo resultado da operação. O presidente da Funai, Márcio Meira, repassou o recado aos grupos que prometem resistir à retirada.

– O ônus será daqueles que estão se armando para combater o estado de direito – afirmou Meira.

Tempo de incertezas
A guerra de palavras entre as autoridades reflete a certeza de que na região da Reserva Raposa/Serra do Sol o clima beligerante projeta um cenário incerto, mas preocupante para os próximos dias.

O grupo liderado empresário rural e prefeito de Pacaraima, Paulo Cesar Quartiero, adotou como estratégia um misto de desobediência civil com táticas de guerrilha para enfrentar a Polícia Federal. Não há em Brasília autoridade que garanta uma operação sem a necessidade do uso da força e uma boa dose de violência.

Os arrozeiros construíram bombas de fabricação caseira, prepararam armadilhas e, conforme suspeita a polícia, organizaram grupos – armados ou não – para agir em vários pontos do interior da reserva onde se concentram os índios contrários à reserva em área contínua: as aldeias de Flechal e Contão e em estradas próximas a Uiramutã, na fronteira com a Guiana Inglesa, e Pacaraima, próxima a Venezuela, controladas por Quartiero.

A Polícia Federal e a Força Nacional de Segurança tentarão controlar as resistências logo no primeiro dia, dominando e ocupando as cinco fazendas onde, teoricamente, se concentram os maiores focos de resistência e o suposto poderio bélico de Quartiero.

A primeira hipótese de violência é uma reação dos arrozeiros e índios macuxi contra a ação da Polícia Federal em estradas que cortam a reserva. A segunda, é um conflito entre os próprios índios: pelo menos um terço dos cerca de 15 mil que ocupam a reserva é contra a homologação em área contínua, apoiam Quartiero e estariam dispostos a defender a permanência dos não índios, parte deles já miscigenada e outra formada por produtores que entraram na área nos últimos 20 anos.
Na avaliação da Polícia Federal, uma vez deflagrada, a operação não pode sofrer recuo, pois pode estimular um confronto sangrento entre os próprios índios. Eles se dividem entre duas entidades, o Conselho Indigenista de Roraima (Cir), ligado à Igreja Católica e ONGs, e a Sociedade de Defesa dos Indígenas Unidos do Norte de Roraima (Sodiur), respectivamente a favor e contra a homologação. (V.Q.)