Ubiratan Iorio, Jornal do Brasil
Todos conhecem a fábula atribuída a Esopo e recontada por La Fontaine, em que a lebre, sabendo-se mais rápida, desafia a tartaruga para uma corrida que acaba perdendo por excesso de confiança, já que, resolvendo dormir, não se dá conta de que a oponente aproxima-se rapidamente da linha de chegada. Quando acorda, assusta-se e começa a correr o mais depressa que pode, tentando a todo o custo, mas sem êxito, ultrapassar a tartaruga. Um velho e belo exemplo para as crianças, de exaltação à perseverança e de condenação da petulância.
Na economia, existe uma fábula de moral às avessas e que demonstra falta de conhecimento de como as coisas funcionam no mundo econômico: o argumento segundo o qual é melhor combater a inflação com o aumento da oferta e não com a contenção da demanda. Tal lenda, infelizmente, vira e mexe, volta ao noticiário, contada por empresários, políticos, jornalistas e por alguns economistas. É como se a tartaruga – a oferta – sabidamente mais lenta, desafiasse a lebre – a demanda – reconhecidamente mais veloz. E que não dorme...
O aumento da capacidade produtiva ou oferta é um processo de longo prazo, porque requer, primeiro, formação de poupança, segundo, transformação dessa poupança em investimentos e, por fim, um longo período de maturação dos projetos, até que se transformem em estoque efetivo de capital e, portanto, em produtos – mais bens e serviços nos mercados.
Em outras palavras, a oferta é lenta. Por natureza. E tende a ser ainda mais vagarosa em um país em que são necessários, em média, três a nove meses para se obter autorização para abrir uma empresa, as cargas tributária, trabalhista e previdenciária são punitivas para o empreendedorismo, e a geração de empregos e as mudanças nas regras do jogo são freqüentes.
Já a demanda, também por definição, é sempre mais veloz do que a oferta, porque resulta das políticas monetária, fiscal, cambial, salarial e de políticas de rendas, como o Bolsa Família. Basta, por exemplo, para usarmos a conhecida imagem de Milton Friedman, que o helicóptero do Banco Central despeje moeda sobre o país para que, mantida constante a relação entre consumo e poupança, consumidores e empresas aumentem imediatamente os seus gastos. Quando se trata de gastos públicos, a velocidade – e os danos – costumam ser maiores.
É por isso que, no mundo inteiro, todas as tentativas de se combater inflações mediante políticas de estímulo à oferta e aumento da demanda deram com os burros n’água. Não há um solitário caso de êxito. O máximo que se consegue é um período de expansão efêmero, porque não é baseado em novos investimentos, mas em utilização de capacidade ociosa. Ao cabo de alguns meses, inevitavelmente, a lebre ultrapassa a tartaruga, ou seja, surge um excesso de demanda que, também ao fim de algum tempo, se for alimentado por bancos centrais cujos diretores julguem equivocadamente que sua função é fixar taxas de juros "baixas" para promover o "crescimento", resulta em inflação. E esta surge tão mais depressa quanto maiores forem as expectativas de que vai surgir.
Quando viajamos para a Serra Gaúcha, colocamos roupas pesadas em nossas malas, mas, se nosso destino é o Nordeste, escolhemos vestimentas leves. Da mesma forma, quando os agentes econômicos esperam – pela falta de coordenação entre as políticas fiscal e monetária – inflação no futuro, passam a agir defensivamente: quem vende, aumenta imediatamente os seus preços, na esperança de ganhar mais e quem compra, aceita pagar preços mais elevados hoje porque receia ter que pagar ainda mais caro amanhã. É um fenômeno magistralmente analisado por Mises e outros expoentes da Escola Austríaca desde o início do século 20, e estudado rigorosamente por Robert Lucas e os economistas da Escola de Expectativas Racionais a partir dos anos 70, em que, pela ação humana racional dos indivíduos e empresas, o futuro, em uma tentativa de defesa dos agentes econômicos, é antecipado para o presente.
As reformas, especialmente a tributária, a trabalhista e a previdenciária, são urgentes, para que caiam gastos dispensáveis do Estado e, portanto, a taxa de juros e a relação dívida interna/PIB, para que a tartaruga fique mais veloz e a economia possa crescer sem ameaça de inflação.