quarta-feira, abril 23, 2008

Afinal, Lula quer ou não o terceiro mandato?

Adelson Elias Vasconcellos

De repente, o país se impregnou com a discussão em torno de Lula continuar presidente a partir de 2011. Sempre que perguntado a respeito, Lula responde enfaticamente, que não pensa nisso, que não deseja e, para as aparências, parece que a resposta satisfaz. A alguns, pelo menos.

Mas, então, me respondam: por que a discussão permanece ? Por que petistas, alguns aliados, e até o vice-presidente José Alencar, continuam mantendo o assunto em aberto? Se Lula, de fato, não alimentasse intimamente o desejo do terceiro mandato consecutivo, não seria mais fácil chamar os amigos e aliados, ministros e até seu vice-presidente, e pedi-los para encerrarem a discussão?

Lula insiste nos palanques da vida de que fará seu sucessor em 2010, e para tanto, aposta suas fichas em Dilma Rousseff. Contratou-se até marqueteiro para “treinar” a chefe da Casa Civil a se portar de modo mais políticos em suas aparições públicas. Contudo, e Lula tem ciência disto, há uma enorme resistência interna dentro do partido de Lula quanto ao nome de Dilma Rousseff. Parece, apesar da simpatia do presidente, e da forma como tenta levantar o conceito de sua ministra, a turma forte do PT continua a torcer-lhe o nariz quando ao nome escolhido por Lula para sua sucessão.

O tom mais enérgico de Lula sobre o tema foi de ameaçar abandonar o partido caso seus companheiros continuassem a insistir em discutir. Porém, ontem, na comemorações do 21 de Abril, José Alencar voltou a carga. Aliás, o vice-presidente fez um discurso pra lá de empolado. Primeiro, afirmou que é o povo que deseja a continuidade de Lula no poder. Baseado em quê, Alencar não informou. As pesquisas todas, as mesmas que aprovam o governo do Luiz Inácio maciçamente, mostrou que o povo pensa ao contrário. Depois, o vice veio com a conversa mole dos juros altos, do qual é crítico desde que Lula assumiu. Não há dúvidas que Alencar é um empresário de sucesso. Portanto, não poderia ignorar que, na base dos juros altos que ele tanto critica, está um governo perdulário que insiste em gastar demais. Isto é básico e elementar. Mas o vice não poupa elogios ao resto do governo, só não concorda é com os juros. Ora, se os juros nos níveis em que se encontram são decorrência justamente das demais ações de governo, criticar os juros seria criticar o governo. Mas ele não vê assim. Paciência. Cada um que administre sua própria contradição.

Agora, apareceram alguns “informantes” de alcova dizendo que o projeto de Lula seria licenciar-se da presidência 6 meses antes das eleições, para concorrer ao Senado pelo estado de São Paulo. Será ? Duvido. Como duvido que Lula correria o risco de, no auge de sua enorme popularidade, arriscar-se numa eleição em que pode até perder. O risco é real. Lula nunca foi simpático aos paulistanos. Este discurso mercenário que ele aplica, volta e meia, lá pelo Nordeste, criando um clima de conflito entre Norte e Sul, sempre seria um argumento muito forte para São Paulo rejeita-lo, assim como em 2006, apesar de sua reeleição, em São Paulo Lula perdeu. E, por certo, do jeito que seu governo tem andado, em 2010 ele tem tudo para perder. Pode ganhar uma vaga ao senado, mas seria uma conquista bisonha considerando-se seus índices de aprovação de um governo do qual sairia meio ano antes.

Outros alcoviteiros, acham que a disputa seria por Pernambuco. Talvez lá ele até pudesse fazer uma aposta com menor risco. Porém, ficaria um pouco fora dos holofotes aos quais se acostumam durante praticamente 8 anos. Apesar de que poderia obter uma vitória retumbante, não acredito que Lula se dê por satisfeito. Para quem foi tão longe, seria um retrocesso em sua carreira política.

Assim, quero crer que o projeto de Lula cruza por 2008, antes de desembarcar em 2010. E, por conta disto, está seu empenho em viajar pelo Brasil, com o discurso do pac (por enquanto é só discurso) debaixo, e alguns gentilezas retiradas de sua sacolinha de bondades. Cite-se no caso o Bolsa Adolescente e o Bolsa Pingüim. O investimento maciço que se faz em propagar o pac com o milagre da multiplicação é algo estrondoso. Claro que para pessoa com cérebro no lugar, este barulho todo é só barulho. Mas para as massas, ah!, não tenham dúvidas: emplaca bem.

E por que é tão importante os partidos aliados ao governo vencerem de modo estrondoso as eleições de 2008? Para fortalecer a base aliada ainda mais, e deixar a oposição o mais irrelevante possível. Assim, seu projeto para 2010 e o continuísmo, ganha consistência e pode repercutir o tambor vindo das ruas.

Luiz Inácio insiste na ladainha de que não é candidato, e que sendo assim, esta peregrinação toda não tem o tempero eleitoral que a oposição lhe acusa. Por certo que não. Mas a campanha não mira em 2008, e sim em 2010. É a maneira malandra de continuar usando a máquina pública com toda a força sem ser acusado de infração à lei eleitoral.

Assim, tenho que Lula é candidato sim, mas em 2010. Dilma, ou qualquer outro laranja que ele venha usar, servirão apenas como meio dele obter o sonho de continuar presidente a partir de 2011.

É a história do “fico” ou do “queremismo”, sem tirar nem por. Como para mim a palavra de Lula não um níquel furado, de nada vale ele afirmar que não o terceiro mandato. E ele nem precisa defendê-lo. O que não lhe faltam são serviçais genuflexos para lhe satisfazer as vontades e executar o serviço sujo.

Mas que Lula não se iluda: lograr êxito nesta empreitada precisará de muitas “bondades” capazes de amortecer o sentimento das ruas. Lá, apesar das bolsa pode tudo que ele espalhou, há uma indignação muito forte no ar. É só conversarem com os que mais precisam dos serviços públicos. E ninguém esquece facilmente, em nome de 30 moedas, os entes queridos que perde por falta de assistência médica por exemplo. Ou aqueles que perderem parentes e amigos em apagões aéreos. Ou ainda os que sofrem com as balas perdidas. Ou os que sofrem prejuízos de toda a sorte com a baderna reinante no país.

O povo pode até perdoar Lula por tudo isso, porém, sabe que para melhorar, só mudando a presidência, porque o ranço que o rodeia não conseguirá, nem em três, quatro ou até cinco mandatos, mudar o quadro degradante que vai deixando o país cada dia pior. O povo quer não ver Lula pelas costas apenas por não gostar dele, mas sim pela turma do sindicato do crime organizado que Lula instalou no Poder, e que privatizou o Estado brasileiro neste regime caótico que sufocou o país inteiro. Se Lula tiver amor à sua biografia, sai por cima e consagrado. Se insistir em continuar pode amargar o dissabor de perder abraçado com a mediocridade com que se cercou. E isto, definitivamente, o povo brasileiro quer ver longe do poder publico.