Meira, presidente da FUNAI, diz que agressão foi ato isolado
O presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai), Márcio Meira, disse ontem ter visto com "revolta" a agressão ao engenheiro Paulo Fernando Rezende, da Eletrobrás, por índios caiapós, na última terça-feira, em Altamira, no oeste do Pará.
Ao chegar para encontros com assessores e técnicos do Palácio do Planalto, Meira avaliou que o episódio "prejudica" os interesses das comunidades indígenas. "Havia um clima de tensão e, naquele calor, houve aquela atitude, que não é recomendável, não leva a nada e só prejudica", afirmou.
Meira ressaltou que a atitude dos caiapós foi um ato isolado injustificável, que pode ocorrer em situações envolvendo brancos ou índios. "Não há justificativa em hipótese alguma para o uso da violência, seja de quem for", disse. "O mecanismo para debater ações do estado no regime democrático se dá pelo diálogo.
A Funai sempre procurou o diálogo com os caiapós e vai continuar dialogando", completou. O presidente da Funai defendeu a proposta do novo ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, de criar uma guarda ambiental para combater o desmatamento na Amazônia. "Vou procurá-lo para que essa força conte com o apoio da Funai, que possa atuar na proteção das terras indígenas", declarou.
Meira disse ainda esperar uma decisão favorável do Supremo Tribunal Federal à demarcação em área contínua da reserva indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima. "A terra indígena foi homologada e existem seis arrozeiros ilegalmente lá. Eles (arrozeiros) usaram bombas contra os índios. Espero que o Supremo ajude a pacificar a região", concluiu.
Enquanto isso...
Funcionários da Funai são reféns em São Paulo
SÃO PAULO - Quatro funcionários do escritório regional da Fundação Nacional do Índio (Funai) de Bauru, interior de São Paulo, foram feitos reféns por índios da reserva Araribá, em Avaí, também no interior do estado, na última terça-feira. Como um deles teve febre, foi liberado na madrugada de ontem. À tarde, os outros três continuaram na aldeia Kopenoty.
O grupo, formado por quatro etnias (guarani, terena, kaygangi e krenak), reivindica a manutenção do escritório da Funai em Bauru (a previsão é mudá-lo para Itanhaém, no litoral sul de são Paulo) e a nomeação de um índio para administrá-lo, cargo desocupado desde novembro de 2007.
No início da tarde de ontem, cerca de dez policiais federais estiveram na entrada da reserva e o delegado Fernando Amaral, após visitar os três reféns numa das quatro aldeias, voltou para Bauru. Os índios fizeram uma barricada, com trator e carreta, na entrada.
Amaral foi ao local para preservar a segurança dos funcionários e não os considerou tecnicamente reféns, mas que eles teriam ido negociar e não voltaram para casa. A PF trata o caso como cárcere privado, segundo o delegado Antonio Vaz de Oliveira, chefe da unidade em Bauru.
"Os funcionários estão retidos e é desaconselhado ficar ali, criando um clima de animosidade e possível confronto, e para evitar um mal maior", disse Vaz, que vai instaurar inquérito para o caso. "Não temos com o que negociar, pois a reivindicação é com a Funai de Brasília", comentou.
A reivindicação dos índios começou na manhã da última terça-feira, quando, durante três horas, cerca de 200 indígenas interromperam o tráfego da Rodovia Comandante João Ribeiro de Barros (SP-294), que liga Bauru a Marília, nos dois sentidos. Depois, eles fizeram reféns quatro funcionários.
Três deles são índios. Um deles trabalha e mora a poucos metros do "cativeiro", um quiosque de sapé, aberto. O cacique terena da aldeia Tereguá, Anildo Lulu, que levou Amaral para visitar os reféns, disse que os três não tinham sofrido qualquer agressão, "por enquanto".
"Não vamos liberar enquanto não tivermos uma resposta de Brasília; queremos tentar evitar um confronto", afirmou Lulu, que considerou "tenso" o encontro com a PF. "Estamos preparados para a luta, não temos medo de morrer", emendou.
Dezenas de índios estavam com as faces pintadas com urucum e barro preto, preparados para a guerra. Suas armas eram arco e flecha e rústicas bordunas. Os agentes da PF tinham metralhadoras, fuzis e pistolas.
A reportagem esteve na aldeia Kopenoty para verificar a situação dos reféns, que estavam terminando de almoçar. "A reivindicação é justa, pois o escritório da Funai é tradicional em Bauru", comentou o terena Mario de Camilo, chefe de serviços do meio ambiente e do patrimônio da Funai.
Há 14 anos no órgão, ocupando cargo de confiança, Camilo aceitou ir para Itanhaém, cidade litorânea com cerca de 3,5 mil índios na região. Na reserva Araribá, existem cerca de 800 índios e o escritório cuidaria de cerca de 2 mil indígenas da região de Bauru.
O refém terena Edenilson Sebastião, chefe do posto na aldeia Kopenoty, está há nove anos no órgão. Ele estava a cerca de 100 metros de seu trabalho e a 200 metros de sua casa. Mesmo que o escritório mude para Itanhaém, ele permanece na aldeia pela Funai.
O terceiro refém, Arnor Gomes de Oliveira, é chefe do serviço administrativo e trabalha desde 1981 na Funai e desde 1984 em Bauru. O terena Ranulfo de Camilo, liberado na madrugada, é irmão de Mario de Camilo e chefe do posto Icatu, em Braúna.
Os três reféns são os que ocupam os principais cargos da Funai na região. Oliveira destacou que o escritório de Bauru, com cerca de 25 funcionários, é responsável não só pelo Centro-Oeste Paulista (Bauru e vizinhança), mas ainda por São Paulo, litoral de São Paulo e litoral sul do Rio de Janeiro.
Das quatro aldeias existentes em Avaí, uma delas (a Nimuendju) não participou da reivindicação - a outra que participou é a Ekerua. Na reserva, com 930 alqueires, os índios cultivam e negociam mandioca, batata e abobrinha com mercados de Bauru. A reivindicação para manter o escritório na região dura um ano.
E enquanto isso...
Índios recebem diretor da Funasa de maneira hostil e com exigências
por Ricardo Brandt, Estadão
Os índios marubos da Aldeia de São Sebastião não são amistosos como os do Maronal, a aldeia que visitamos primeiro, com o diretor do Departamento de Saúde Indígena da Funasa, Wanderley Guenka. Logo que chegamos, o diretor e os agentes de saúde que já estavam havia alguns dias na aldeia fazem uma reunião com os marubos dentro da sala de aula usada como posto de saúde. Os índios fazem reunião para tudo, falam por horas e horas, muitas vezes sem sair de um mesmo assunto.
As lideranças indígenas, acompanhados das mulheres e das crianças, falam na língua Panô em tom hostil. O tradutor comunica que eles exigem que Guenka assine um documento se comprometendo a construir um posto de saúde, pista de pouso e outras benfeitorias na aldeia. Para eles, a Funasa os deixará esquecidos, como outros fizeram, diz o cacique da aldeia, Maiãpa (nome branco Said Reis), um dos que têm malária.
A reunião é tensa e Guenka diz, no mesmo tom provocativo dos índios, que o fato de ele estar ali e sua palavra dada de que o posto será erguido já bastavam, e que não assinaria nenhum documento. O diretor da Funasa avisa que, se eles não acreditam na sua palavra, irá embora. Os índios, então, recuam. Outra liderança diz que Guenka não precisa se irritar e que eles só estavam sendo duros porque já foram muito enganados.
A agressividade dos marubos, no entanto, é entendida pelos agentes de saúde que já estavam na aldeia como uma conseqüência de um problema ocorrido na noite anterior à nossa chegada. Durante a madrugada, sumiram do posto de saúde improvisado sete galões de álcool puro. O médico Jaime Valência, acostumado com os povos indígenas, diz que eles ingerem o álcool com água e ficam agressivos.
E mais isso...
Monopólio de terras: Índios criam bloqueios e controlam trânsito em rodovia federal de Roraima
O Globo Online
VILA JUNDIÁ (RR) - Detentores exclusivos de quase metade de Roraima, 39 mil índios de várias etnias vivem em 10,5 milhões de hectares do estado. A população de 355 mil não-índios vive na outra metade. Alegando seu direito originário sobre as terras, os índios lançam mão de todos os recursos para evitar que estranhos cheguem perto de suas áreas. Eles bloqueiam estradas e rios. Os uaimiri-atroari até criaram uma barreira, com cancela e corrente, e estabeleceram horário para o trânsito de veículos num trecho de 125 quilômetros da BR-174, rodovia federal que cruza a reserva. Das 18h30m às 6h, é proibido o tráfego de carros e caminhões neste trecho da rodovia federal.
Os uaimiri argumentam que restringir o acesso a suas terras é uma forma de proteger fauna e flora. Os índios só abrem exceções e permitem a circulação, à noite, de ônibus interestaduais, ambulâncias e caminhões que transportam mercadorias perecíveis. Os índios passam a noite numa maloca que serve de posto de fiscalização. O motorista que segue viagem depois das 18h30 tem que levar um documento - a "autorização de tráfego no trecho da reserva", e apresentá-la na outra extremidade, no posto que fica em Abonari, no Amazonas.
Esse controle de veículos não tem qualquer amparo legal. A construção da barreira teria sido uma iniciativa de militares e indigenistas na época da construção da estrada, em 1977. Houve confronto durante a construção, e 32 militares morreram. Há até um monumento na rodovia com os nomes dos mortos. Os uaimiri dizem que milhares de indígenas também morreram no conflito. O líder dos uaimiri-atroari, Mário Paruwe, diz que cada grupo tem sua lei.
O governo de Roraima entrou com ação no Supremo Tribunal Federal, semana passada, para tentar proibir a barreira dos uaimiri. O argumento é que a cancela não está prevista em lei e fere o livre trânsito de pessoas e veículos. Anchieta é também o autor da ação que questiona a demarcação de Raposa em terra contínua. Conseguiu sua primeira vitória quando o STF concedeu liminar suspendendo a operação Upatakon 3, da Polícia Federal, criada para retirar os não-índios da reserva. Os índios ingaricó também bloquearam estradas no passado.
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