Carlos Chagas, Tribuna da Imprensa
BRASÍLIA - Barack Obama entusiasmou Berlim, em especial quando lembrou os tempos do abominável muro que dividia alemães orientais de alemães ocidentais. Falou, por ironia, como Ronald Reagan falava, denunciando o horror que era deixar populações inteiras prisioneiras de regimes conflitantes.
Pode, no entanto, haver-se perdido como o peixe que morre pela boca, no anzol. Porque fará o que, se eleito, diante do muro de mais de três mil quilômetros que os americanos levantaram na fronteira com o México?
Não cola alegar que são situações diferentes, que o muro de Berlim foi erigido para impedir que cidadãos saíssem, e o muro do México existe para evitar que cidadãos entrem. Muro é muro, tanto faz se funciona para um lado ou para o outro, porque estará sempre limitando a liberdade de ir e vir. Nos temas realmente polêmicos, Obama tem sido cauteloso. Promete retirar as tropas americanas do Iraque, mas fala num longínquo 2011.
Deveria ter conhecido o diálogo de Robert Kennedy com Juscelino Kubitschek, num vôo comercial de Nova York para Washington. Mesmo exilado, impedido de voltar ao Brasil pelos governos militares, JK interessava-se pela política em qualquer lugar do mundo, e perguntou ao então candidato presidencial o que faria com o Vietnã, onde soldados dos Estados Unidos eram mortos aos montes. Bob respondeu de pronto: "Assim que assumir mandarei um único telegrama: voltem todos, imediatamente!"
A estratégia do hoje candidato democrata não parece essa, assim como, no caso do muro do México, dificilmente determinará que seja posto abaixo quinze minutos depois de sua posse. Até com relação ao Irã ele é cauteloso, formando mais ao lado de George W. Bush do que do bom senso, porque também sustenta deverem ser os iranianos contidos por todos os meios existentes, se insistirem em construir sua bomba nuclear.
Convém aguardar, primeiro, para ver se os americanos votam mesmo num negro. Depois, para saber se seu comportamento como presidente mudará alguma coisa concreta na superpotência. Ainda mais porque os alemães não votam nos Estados Unidos.
A falência da CUT
Esta semana as centrais sindicais fizeram manifestação defronte ao Banco Central, em Brasília, contra a alta dos juros. Todas, menos a principal, a CUT, cujos dirigentes ignoraram solenemente o protesto. Pelo jeito, concordaram com mais esse abominável aumento que, queira ou não o governo, determinará recessão e desemprego. Fosse nos tempos do sociólogo e a CUT estaria enchendo a Praça dos Três Poderes de militantes. Como Lula está no poder, e a elevação dos juros terá sido autorizada por ele, melhor ficarem calados.
Fosse apenas essa a evidência de pusilanimidade da CUT e ainda seria absorvível, em nome dos meandros da política. O problema é que desde a primeira posse de Lula que a central vem se omitindo, mesmo quando se encontram em jogo os interesses do trabalhador. Não se ouvem protestos contra a alta dos juros, como também não diante do fato de a atividade especulativa render muito mais do que a atividade produtiva. Ainda agora, no episódio Daniel Dantas, a CUT mais parecia um túmulo.
Aquele que foi um dos movimentos políticos mais importantes da América Latina transformou-se num zero à esquerda, optando por curvar-se à ideologia neoliberal em função da ida de seu líder maior para a presidência da República, bem como do descumprimento de seus ideais e de suas promessas.
A prova dos nove
Os nove governadores do Nordeste reuniram-se ontem em Teresina para mendigar junto ao ministro do Planejamento um mínimo refrigério que seja diante de suas dívidas com o governo federal e da sombra de mais problemas quando for aprovada a reforma tributária.
No recôndito das conversas, porém, o grande tema versou sobre as eleições de outubro. Porque dos nove, pelo menos sete governadores parecem condenados a assistir à derrota de seus candidatos na disputa pelas prefeituras das capitais. Não vale a pena citar quais, sempre haverá a hipótese de recuperações, mas, continuando as coisas como vão, o eleitorado mandará contundente recado a Suas Excelências. Estão reprovados na primeira fase de seus mandatos, ou por mais tempo ainda, para os reeleitos.
Não adiantaria nada queixarem-se ao ministro Paulo Bernardo, como não se queixaram, porque de política o titular do Planejamento não trata faz muito tempo. E mesmo se viesse a apelar ao presidente Lula para empenhar-se a fundo na campanha de seus aliados, nada conseguiria. O chefe do governo só admite visitar a Paraíba e o Rio Grande do Norte, até as eleições, mas, mesmo nesses estados, não deverá pedir votos para ninguém. Para que cair na armadilha de fazer campanha para derrotados?
Um tipo novo de vergonha
Declarou-se o ministro Mangabeira Unger "envergonhado" com o montante recebido da Brasil Telecon e de Daniel Dantas pelos serviços que durante sete anos prestou à empresa e ao banqueiro como procurador de seus interesses, nos Estados Unidos.
Com todo o respeito,, mas vai ter vergonha assim no inferno! Pelo relatório do delegado Protógenes Queiroz, o atual ministro do Futuro recebeu dois milhões de dólares. Mangabeira admite apenas um milhão, que mesmo nesses tempos de desvalorização da moeda americana fariam a felicidade de qualquer brasileiro.
O grave na história é que fica tudo por isso mesmo, quer dizer, um ministro encarregado de planejar o futuro confirma um passado obscuro, empregado de um dos mais controvertidos banqueiros nacionais, acusado de lavagem e evasão de dinheiro, gestão fraudulenta, formação de quadrilha, lesão ao fisco e quanta coisa a mais?
O presidente Lula pode ter perdoado Mangabeira Unger de haver defendido, não faz muito, o seu impeachment como chefe de um dos mais corruptos governos nacionais. Ao escrever o referido artigo, estaria o futuro ministro seguindo instruções de Daniel Dantas?