domingo, julho 27, 2008

Fazendo-se de inocente

David Brooks, The New York Times

Otimismo radical é a contribuição dos EUA para o mundo. Os pioneiros acreditavam que a colonização traria o reino de Deus à Terra. John Adams pensava que os EUA libertariam "a parte escravizada da humanidade em todo o mundo". Woodrow Wilson e George Bush pregaram seus próprios evangelhos da democracia mundial.

Barack Obama é, sem dúvida, um americano de verdade. Em seu primeiro grande discurso sobre política estrangeira na campanha, proferido em Chicago no ano passado, fazia votos de uma iniciativa agregadora "para garantir que cada criança, em todo lugar, seja ensinada a construir, não a destruir". Os EUA, disse, devem promover a dignidade por todo o mundo, não apenas a democracia. Devem "liderar o mundo no combate de males imediatos e na promoção do supremo bem".

Na quinta, em Berlim, foi mais do mesmo. Ao falar diante de uma multidão (e um número surpreendente de ianques), prometeu ajudar a "reconstruir o mundo". Passava a esperança de que uma Europa imersa em história poderia "escolher seu próprio amanhã livre das sombras do ontem". Previa "um novo amanhecer no Oriente Médio".

O tom era sério. Mas Obama sacava a sua retórica "esse é nosso momento" e oferecia visões de um mundo transformado. Seus discursos têm quase todos a mesma trajetória narrativa. Alguns problemas ameaçam. As probabilidades estão contra as forças da correção. Mas as pessoas de boa fé podem se unir para que os muros caiam. Aliás, Obama usou a palavra "muro" 16 vezes no discurso de Berlim e em 11 dessas vezes ele falava de muros caindo.

Passou-se por cima das proibições em Berlim porque as pessoas se uniram. O apartheid acabou porque as pessoas se uniram e muros tombaram. A vitória na Guerra Fria foi o mesmo:

– Pessoas do mundo, olhem para Berlim, onde um muro veio abaixo, um continente uniu-se e a história provou que não há desafio grande demais para um mundo que permanece unido – disse Obama.

Quando ouvi pela primeira vez esse tipo discurso de otimismo radical em Iowa, tenho de admitir, minha alma americana se emocionou. Parecia a abertura de uma campanha nova, mas essencialmente americana.

No entanto, agora, mais de um ano depois, esse pós-partidarismo de Iowa deu lugar ao pós-nacionalismo de Berlim, e essa abertura vaga mostra que é toda a sinfonia. A retórica dourada impressiona menos, e o escape das escolhas difíceis surge novamente.

Quando John F. Kennedy e Ronald Reagan foram a Berlim, suas retóricas decolaram, mas seus otimismos aterrissaram na realidade da política, dos conflitos e das decisões difíceis. Kennedy não sonhava com a irmandade do homem. Traçou linhas que refletiam duras realidades: "Há quem diga que na Europa e em outros lugares, podemos trabalhar com o comunismo. Faça-os vir a Berlim". Reagan não evocou um momento Kumaya, isto é, de otimismo espiritual e ingênuo. Citou políticas duras que demonstravam sério desacordo político – a preparação de mísseis americanos em resposta aos SS-20 soviéticos – mas ainda assim a coisa funcionou.

Em Berlim, Obama só tocou em um ponto com que se pudesse discordar. No melhor parágrafo do discurso, pediu aos alemães que enviassem mais tropas ao Afeganistão. Mas o argumento caiu sobre ouvidos surdos, porque a maior parte dos alemães se opõe a essa política. Ao menos, Obama se posicionou.

Muito do resto do discurso alimentou a ilusão de que se pode resolver problemas apenas com uma mística união das pessoas. Temos de ajudar israelenses e palestinos a se unir. Devemos nos unir para prevenir genocídios como o de Darfur. A união é necessária para que iranianos não desenvolvam armas nucleares. Ou, nas palavras de Obama:

– Os muros entre raças e tribos, nativos e imigrantes, cristãos e muçulmanos e judeus não podem continuar de pé. Esses são agora os muros que temos de destruir.

A grande ilusão da década de 1990 foi a de que se entrava numa era de convergência global, na qual política e poder não importariam. O que Obama ofereceu a Berlim brotava dessa fonte.

Desde então, autoritarismos caíram, a competição por recursos aumentou, a Rússia quebrou, o Irã segue adiante. Para enfrentar esses desafios serão necessários política e poder, dois fatores que passam longe do discurso altivo de Obama.

O curioso é que ele não pensa de fato dessa maneira. Quando se trata de assuntos específicos, pode ser bem cabeça dura. Ano passado, falou de suas afinidades com Reinhold Niebuhr e suas compreensões em comum de que a História é trágica e irônica, e de que até a escolha política se mancha de alguma maneira.

Mas Obama cresceu acostumado a colocar esse tipo de açúcar nos shows para as massas, e em Berlim a encenação beirou o ridículo. Suas palavras estavam longe da realidade, e não apenas quando falava do Comitê Bancário do Senado. Sua doçura pegajosa na Coluna da Vitória em Berlim enjoaria Niebuhr.

Obama beneficiou-se de uma semana de boas imagens. Mas substancialmente, otimismo sem realidade não é eloqüência. É apenas a Disney.