Adelson Elias Vasconcellos
Nos arquivos dos principais jornais brasileiros disponíveis na internet, vocês encontrarão tudo que precisam saber sobre o acordo firmado entre o presidente de fato, ou interino como queiram, Micheletti, e o golpista Zé Laya, que pretendia dar um chute na constituição de seu país para permanecer no poder hondurenho.
O acordo firmado e do qual o Brasil não participou, dada a parcialidade vergonhosa com que tentou interferir no confronto, as duas partes acordaram os seguintes pontos principais: a recondução de ZéLaya ao poder não seria fato consumado. Teria que ser submetida à análise da Suprema Corte daquele país e também ao Congresso. É bom que se diga que a Suprema Corte é independente e o Congresso foi eleito em eleições livres, diretas, sem brigas, sem fraudes, portanto, atendendo aos preceitos democráticos mais consagrados no mundo livre.
O acordo previa, também, que a avaliação tanto pelo Judiciário quanto pelo Legislativo hondurenho não era nem impositiva, isto é, não obrigava a aprovação da recondução do golpista ao poder, tampouco fixava prazo para que fosse feita.
Fixava-se a data de 29 de novembro próximo para a eleição livre e direta de um novo presidente, e para que elas pudessem se realizar sem dificuldades, se impunha a Micheletti que ele renunciasse a presidência pelo menos uma semana antes do pleito.
Tudo o que Micheletti ficou obrigado a cumprir, ele o fez.Mas, ZéLaya desde o dia seguinte à assinatura do acordo, tentou subverteê-lo. Num ridículo extremo, tenta insuflar parte do povo de seu país a boicotar as eleições, e pede que a comunidade internacional não reconheceram a legitimidade delas. Como quem costurou o acordo foi os Estados Unidos, os americanos não caíram na pantomima e não apenas não aceitam o adiamento como pretende ZéLaya com a conivência desastrada do Brasil, como também já disseram que reconheceram o resultado das eleições como legítimo seja ele qual for, desde que obtido dentro da normalidade. Ponto final. Fecha o pano.
Numa tentativa ainda mais ridícula, o Brasil tentou via OEA pressionar os Estados Unidos a aceitarem o adiamento do pleito em 15 dias. A resposta poderia ser uma só: NÃO. Não nenhuma razão para o adiamento e, ademais, o pedido brasileiro chegou tarde demais.
E lá temos na nossa embaixada, hospedado de forma circense, um visitante que se tornou um estorvo, e com o qual o Itamaraty não sabe o que fazer.
Este roteiro, mais para comédia pastelão (a cara do ZéLaya até se presta muito para tanto), do que para uma derrapada diplomática, diz bem, não para os brasileiros sérios que se envergonham desta sessão de horrores com que o governo Lula e seu ministro das Relações Exteriores, Celso Amorin, conduzem a política externa brasileira de 2003 para cá (nunca esquecer do porre do Marco Aurélio Top-Top Garcia, quem é quem de fato reveste com suas cores esgarçadas a opção terceiro mundista deste desastre).
Lula, principalmente neste segundo mandato, tenta a qualquer custo, mesmo que abraçado ao ridículo, impor ao mundo digamos civilizado, uma liderança brasileira em todos os fóruns mundiais, da economia ao meio ambiente, passando pelo conflito judeus-palestinos e, até, como se vê, se intrometendo, de forma ilegal e indevida, em assuntos internos de países latino-americanos como é o caso presente de Honduras e, que, é bom lembrar, não foi o primeiro. Vocês por certo hão de recordar as desavenças com a Colômbia...
Pois bem, um líder, no Brasil, não se impõem à força, leva tempo, e isto falando de um país em que mais de 90% da sua população não tem acesso à informação, em que 60% desta mesma população nunca abriu um livro na sua vida. Ou seja, este exército de brasileiros, sem informação e sem leitura, se identifica com Lula. E, com as virtudes que ele tem (eu não seria tonto em negá-las, reconheço que as tem de fato), e com tal identificação de forte apelo popular, vejam vocês, ele precisou de cerca de 40 anos de militância sindical e política, para atingir o ápice político que hoje desfruta aqui dentro.
Talvez em alguns países africanos, sul-americanos, quiçá até lá pela Ásia, ele consiga seguir o mesmo roteiro para se tornar um líder em escala mundial. Diferente, quando na mesa de negociações ele precisa relacionar-se com pessoas com melhor formação intelectual, melhor preparo profissional, melhor educação, porque aí não basta esperteza, apenas. É preciso argumentar de forma razoável, com lógica, bom senso, e sempre calcado em alguns valores que Lula insiste em ignorar. Para efeito de política interna, ignorância pode até nem ser tão relevante.Mas dentre as nações mais desenvolvidas, Lula não pode ignorar qual o princípio que conduz a ação de cada um dos seu governantes. A prioridade número um deve centrar-se em governar para seus povos, depois o resto a gente vê. E isto, senhores, faz enorme diferença.
Não veremos os presidentes de França, Itália, ou a chanceler alemã, ou o primeiro ministro britânico, tomando decisões em favor de qualquer nação do mundo, se elas contrariarem os interesses de franceses, italianos, alemães, ingleses. Já nem falo dos Estados Unidos ! Não vinga porque todos eles foram eleitos em seu país para governar em benefício de seus povos. E é disto que se trata.
Exercer liderança em escala não se consegue apenas com sacadas espirituosas e razoável humor. Não se alcança liderança mundial apenas com discursos intempestivos, ou até desafiadores. O mundo civilizado conhece bem o roteiro que guia tais “carismáticos”. Sabe como termina este filme, as tragédias que ele produz, os milhares ou milhões de vítimas que protagonizam.
Faz cerca de dois anos que escrevi que se Lula não mudasse suas atitudes e sentimento bestalóide de um antiamericanismo estúpido, cedo ou tarde, ele escorregaria numa destas ações sem sentido tomadas em seu governo, eque serviriam para alertar o mundo civilizado de quem se tratava o verdadeiro Lula. Esta reverência toda que os governantes do mundo inteiro lhe devotam era uma ilusão que acabaria por envaidecê-lo e, como sempre ocorre quando a vaidade excede o limite extremo da razão, quem por ela se deixa vitimar, acaba cegando seu próprio senso de raciocínio, de lógica, de oportunidade.
A mesma reverência da qual se envaidece Lula se envaidece tanto, já foram expedidas para os generais ditadores brasileiros, para Sarney, Collor, FHC, e todos os demais que vieram antes deles.
A reverência é um sinal de respeito não à figura de Lula, mas à instituição que ele representa, e ao Brasil, em especial. Acreditem, o mundo consagra um olhar de carinho, simpatia e admiração ao nosso país, às suas riquezas, às suas belezas naturais e à irreverência de seu povo. Lula deveria saber disso, ou, pelo menos, avisado de que é assim, porque ... é assim.
Na medida em que se permite sentar à mesa de negociações para confraternizar-se com ditadores, caudilhos, carrascos humanos, abraçando inclusive suas causas que assombram o mundo, na medida em aceita como irmão e amigo gente que financia o terrorismo mundial, ou com medíocres feito Chávez, Morales, Rafael Correa e os Zélayas da vida, ele está passando um recado aos verdadeiros líderes mundiais, a de que Lula não é uma pessoal confiável. O mundo o vê com reticências e alerta. E desta pantomima toda, seja em Honduras, seja nesta “amizade” com Ahmadinejad, seja até com os terroristas palestinos, o saldo que fica depõem muito contra seus verdadeiros propósitos de se impor como um líder mundial. Claro que ninguém sairá por aí dando às costas para Lula, afinal seu último dia como presidente tem data e hora certas para terminar e, já no dia seguinte, a vida continua e o Brasil continuará existindo também, como sempre.
O poder, no mundo livre, é uma instituição, e, por ser assim, deve ser encarado como uma entidade impessoal. Quem tenta centrar na sua pessoa o poder pelo poder, ou tente tomá-lo para si, de forma egoísta, como se o poder propriedade sua fosse, corre o risco de entrar pelo lado errado da História.
Bom seria se Lula se desse conta desta verdade, se convencesse a si mesmo de que, o Brasil, depois ficará bem e melhor até, que sobreviverá e os que vierem depois dele, receberão a mesma reverência com que ele, Lula, hoje é tratado e recebido. O poder é uma instituição duradoura, permanente. As pessoas que nele adentram, são passageiras, temporárias, breves. Uma vez terminada esta passagem, esta brevidade, o poder ainda continuará lá, com seus atrativos, com sua volúpia, com seu fascínio, Já as pessoas que por ele passaram, não. Já serão meros registros, nomes apontados no lado da página. Tornar estes registros bons ou maus, dependerá do papel que cada um venha representar, das escolhas que fizer, para bem ou para o mal. Ou, para encerrar, é sempre válida a recordação da figura literária construída pelo saudoso Ibrahim Sued (não sei se é o autor original, mas foi quem popularizou a expressão entre nós), dos “cães ladram enquanto a caravana passa”. Nunca, como no caso de Lula, ela esteve tão apropriada... Que Lula saiba escolher,portanto, o figurino apropriado para cada momento que viver, na presidência ou fora dela. Cada momento exige roupagem diferente. Iludir-se tentando maior do que é, é perder todo e qualquer senso de realidade. Neste caso,o despertar pode ser mais doloroso do que ele imagina.