sexta-feira, outubro 01, 2010

A má herança dos espertos

Adelson Elias Vasconcellos

Vimos nos dois posts anteriores, o do Estadão e o de Carlos Alberto Sardenberg, assim como já vimos em diversos outros artigos assinados por analistas econômicas, e aqui reproduzidos, que as trucagens e maquiagens empregadas pelo governo Lula para esconder o aumento irresponsável de gastos, tem limites. Tais limites, em não sendo respeitados, tem uma consequência: a de obrigar o país ali na frente, a frear seu crescimento para arrumar a bagunça armada pelos espertos que, preocupados unicamente com a manutenção do poder, governam o país sem a menor preocupação com os riscos que sua empulhação pode causar.

Não há a menor possibilidade de se manter, no atual ritmo, a política crescente de gastos duvidosos e desnecessários. O processo de estabilidade econômica nunca é um processo acabado, consolidado. No caso brasileiro, principalmente, se Fernando Henrique pagou alto preço político, ao adotar um conjunto de programas harmonizados no sentido não apenas de modernizar o Estado, mas para garantir os postulados básicos para o crescimento do país, por outro lado, até porque arrumar a bagunça que encontrou fruto de dezenas de anos de governos irresponsáveis não seria tarefa para apenas oito anos, caberia a Lula dar seguimento não ao que já estava realizado, mas ao que faltava ainda construir para consolidar, de forma virtuosa, as bases necessárias e indispensáveis para garantir um crescimento sustentável e vigoroso.

Lula, oportunista como sempre foi, fez outra leitura. Se, com que já se tinha era possível alcançar relativo êxito econômico, não caberia a ele assumir riscos políticos a comprometer sua imagem, para dar sequência ao processo de reformas estruturais, hoje cada vez urgentes.

Os sinais de fragilização do equilíbrio fiscal, cada dia ficam mais visíveis. E mais visíveis vão ficando a falta de transparência do governo em divulgar os números corretos da economia brasileira, como, ainda, são cada vez mais frequentes a utilização de malabarismos contábeis com o propósito específico de esconder da sociedade o descaso e, principalmente, o desleixo com que o governo Lula tem cuidado das finanças públicas.

Já provamos e demonstramos aqui a balela da dívida externa, hoje, girando em torno de 235 bilhões. Apesar de que o nível de reservas seja suficiente para a quitação desta dívida, o governo ao invés de manter as reservas num patamar suficiente para servir de escudo de proteção contra imprevistos da economia global, e as sobras aplicar efetivamente na quitação não apenas dos juros mas na amortização do principal, tem feito a pior opção, que é a de continuar pagando valores elevados do serviço da dívida – razão para o superávit primário - e continuar acumulando reservas muito além do manto de segurança que se recomenda. Como não poupa e continua a gastar sem limites, vemos que a dívida pública, já na casa de 1,6 trilhões, vai, cada vez mais, sugar recursos para o seu pagamento ou rolagem, reduzindo ainda mais a capacidade do investimento em áreas que foram, ou pobremente contempladas como é caso do saneamento básico, ou simplesmente desprezadas como são os casos da saúde, segurança pública e infraestrutura.

Diz o dito popular que dinheiro não aceita desaforos. E isto é um fato. Veja-se a questão cambial. Nosso déficit das contas externas já ronda a casa dos 50 bilhões /ano, e para 2011, a previsão é de 60 bilhões de dólares. Para financiar este déficit, o governo precisa manter os juros na estratosfera no sentido de atrair investidores para aquisição de seus títulos – leia-se mais dívida. Tal política acaba punindo toda a atividade econômica do país, conforme aqui demonstramos em várias oportunidades, o que dificulta a ampliação de investimentos produtivos, estes sim, geradores de emprego e renda.

Como a necessidade de cobrir o rombo é premente, não fica espaço algum para a adoção de uma decente reforma tributária capaz de desonerar produção e trabalho, num dos sistemas mais cruéis de justiça tributária de que se tem notícia no mundo.

Daí porque os alertas que analistas fazem hoje para, no futuro, quando o país começar a pagar a alta fatura irresponsável da política fiscal do governo Lula, possamos voltar ao passado e apontar os verdadeiros culpados pelo desequilíbrio e suas graves consequências.

De qualquer ângulo que se queira enxergar, é possível traçar ponto a ponto o quanto o país compromete sua estabilidade, seu crescimento, enfim, seu próprio futuro.

Para Lula, já em final de mandato, ficam os louros das conquistas econômicas e sociais advindas não de suas políticas e programas implementados no país após 2003, e sim, impossível negar, as que ele próprio já encontrou resultantes do governo anterior. Rigorosamente, Lula inflou um crescimento com prazo de validade bastante curto, o suficiente para se consagrar, a si próprio e sua candidata à sucedê-lo nas urnas. Se ele e seu partido saem mais fortalecidos politicamente do pleito, por outro lado, deixam uma fatura amarga para quem vier depois. Está na hora do país descer à sua própria realidade e dar-se conta de que se fez opções equivocadas na condução e administração de suas riquezas.

Os espertos podem até comemorar nas urnas o sucesso relativo do que plantaram: a herança, contudo, que fica, vai cobrar seu preço e, neste caso, perdem todos. Por quê? Porque tivemos oito anos de um projeto de poder ganhando mais e mais terreno, ao invés de um projeto de país, de desenvolvimento sustentável, projetado não para as eleições mais próximas, mas para que as futuras gerações pudessem usufruir de um país melhor e mais justo. Se eleita, Dilma precisará repensar o modelo adotado por Lula e, preventivamente, adotar políticas de austeridade que contemplem o desenvolvimento do país, e não o crescimento político de seu partido. Afinal, o que está em jogo é a qualidade de vida de 190 milhões de brasileiros, e não as conveniências político-partidárias de alguns milhares de militantes. E se for outro o escolhido, a para das dificuldades aqui apontadas fruto de um governo de conveniências e aparências, precisará enfrentar uma máquina pública aparelhada e azeitada capaz de abortar toda e qualquer iniciativa de correção. Além, é claro, de ter que enfrentar a oposição odiosa do PT e do próprio Lula, como a história não nos deixa esquecer. Mas ou é isso, ou obrigar todo o país a recomeçar do zero mais lá frente.