terça-feira, janeiro 25, 2011

Um diagnóstico impreciso sobre a civilidade brasileira.

Adelson Elias Vasconcellos

Roberto Romano, professor de Filosofia e Ética Política da UNICAMP, concedeu ao jornal Zero Hora, de Porto Alegre, uma entrevista cujo trecho foi publicado no site do Instituto Millenium.

A frase de destaque da entrevista é que “...a nossa sociedade não respeita o que é público”.

Já publicamos alguns artigos escritos pelo professor Romano para o jornal O Estado de São Paulo, através dos quais ele procura destacar a fase ainda embrionária em que se encontra a sociedade brasileira, quando se olha pela face do processo de comportamento de massa.

Na entrevista abaixo, ele deixaq isto bem claro e mais: a face negativa da classe política no país nada mais é do que o espelho deste processo ainda em formação. Justifica este momento atual como consequência da rápida urbanização pela qual o Brasil vem sofrendo nos últimos anos.

Contudo, se de um lado isto explica certas atitudes de parte da grande massa, de outro, não podemos apontar apenas a urbanização como culpada deste comportamento em que o público é simplesmente ignorado. Tenho para mim que a causa tem outra procedência. Independe da origem ser rural ou urbana. Educação é algo que você tem em qualquer lugar. Tudo bem que somos uma sociedade em que a identidade única como tal é ainda um processo em evolução. Porém, também está nos desacertos da educação das últimas décadas, este desvirtuamento social, esta perda de qualidade como organismo civilizado. Estamos pondo de lado no complexo de formação educacional e cultural, valores que estão na raiz da composição do povo brasileiro.

O Professor Romano, a certa altura, afirma que “...Tem pessoas que ocupam determinados status sociais, mas não sabem o que fazer com ele. Temos uma classe média violenta, que só conhece o poder do dinheiro ou da força física. Se tem um salário razoável, um carro importado, o resto não existe.

Ora, o que vem a ser esta classe média violenta, que só conhece o poder do dinheiro e da força física? Por que se chegou a tal modelo? Justamente por insistirmos num formato educacional demasiadamente tecnicista, em detrimento a um modelo mais humanista. Fica fácil de entender tal processo a partir da mudança que a educação sofreu de 1971 em diante.

A questão não é apenas “ganhar dinheiro”. A questão é que passamos a adotar uma postura na educação de nossos filhos de total tolerância. Ora, mesmo para crianças e jovens a liberdade não pode ser absoluta, tem que haver limites, tem que haver algo parecido com disciplina. Nas escolas tente algum professor impor em sala de aula alguma forma de ordem? Será queimado em praça pública.

Esta postura de que, para crianças e jovens, tudo é permitido, acaba sendo levada para a vida adulta. Assim, o valor do mérito vai sendo enterrado. Passamos a agir como se nada existisse além da vontade de fazer. Eu quero, logo, eu posso. Tornamo-nos títeres de nossas vontades e instintos. E também fomos relegando para um segundo plano todos os valores que construíram a civilização cristã-ocidental. Avançando na análise, vemos hoje prosperando na nossa sociedade muito mais a cultura da morte do que a valorização da vida.

E aí é que entra o valor das observações feitas pelo professor Romano. Mas ela é consequência muito mais da falta de educação doméstica e o esvaziamento de humanismo da educação escolar, do que propriamente por razão de uma urbanização acelerada.

Recuperar estes valores, quer me parecer, vem a ser o maior desafio na busca de qualificação do sistema de ensino brasileiro. Não podemos apenas priorizar unicamente o saber ler, escrever e fazer contas. Precisamos mostrar às novas gerações qual o sentido destas ferramentas, o que podemos fazer com elas e qual a importância que elas tem para o desenvolvimento e crescimento individuais tanto quanto coletivos. Porque do jeito que a coisa está colocada, não apenas o indivíduo está sendo atormentado pelo vazio ético dos processos doméstico e escolar, como ainda está se tornando massa de manobra de uns poucos dementados.

Ser honesto e trabalhador, ser leal e cumpridor das leis, tornou-se pura caretice, pura perda de tempo. Tal visão distorcida independe de sermos rurais ou urbanos. Ela é fruto das distorções de uma educação equivocada e vazia. Se um estudo que se quisesse sério sobre as razões de tanta evasão escolar no nível médio, por certo toparia com esta distorção.

Os usos e costumes degradados da classe política apenas são a representatividade, o espelho de uma sociedade deformada. A partir de 1985, com a redemocratização, esta deformação se acentua de forma irracional. Como o país vivera 21 anos de censura e repressão, entendeu-se que dali prá frente, qualquer coisa que tivesse ligação a ordem, disciplina, valores, leis, regulamentos, seja a continuidade da repressão. Ao invés de buscarmos o equilíbrio entre uma extremidade e outra, preferimos investir num modelo oposto à ditadura em todas as variantes. Resultado: escolhemos o modelo do “sem fronteiras”, os “anarquistas graças a Deus”, e agora, até Deus queremos renegar. Não por outra razão estamos no ponto em que a vida humana se tornou coisa menor. Mais vale preservar árvores e cachorros. A morte do vizinho nos choca menos que a poda de uma árvore ou atropelamento de um cão.

Recuperar a valorização da vida, das individualidades, do saber, da cultura, da boa educação, do respeito ao próximo e ao que é público, são as ferramentas indispensáveis para aprendermos também a respeitar as árvores, aos cães, à natureza. Todos são partes integrantes de um mesmo universo.

A seguir, a entrevista do professor Romano ao jornal Zero Hora, reproduzido pelo site do Instituto Millenium.

Roberto Romano: “Nossa sociedade não respeita o que é público”

Professor de Filosofia e Ética Política na Unicamp, Roberto Romano acredita que o povo brasileiro ainda está aprendendo a viver em grandes sociedades urbanas. Enquanto isso não ocorre, segundo ele, persiste a falta de respeito com o patrimônio público e os demais cidadãos. Confira a entrevista concedida ontem, desde São Paulo, por telefone:

Zero Hora – Falta civilidade ao brasileiro?

Roberto Romano – Como em todas as relações sociais, há um movimento de imitação. Quando você tem um sistema político onde o recurso público é usado para fins privados, você tem uma sociedade onde o que é público não merece respeito. Pode estragar, quebrar. Nossa sociedade não tem o costume de respeitar o que é público e elege governantes que também não respeitam. É um espelhamento.

ZH – O cidadão não se sente responsável pelo espaço que é público?

Romano – Exatamente, é algo que não é assunto dele. É território de caça, de aventura. Não existe norma pública que seja respeitada, e o maior exemplo disso é o trânsito. Na faculdade de Sociologia, no primeiro ano aprendemos que existe uma coisa chamada expectativa de reciprocidade de comportamento. Se você entra numa rua, você espera que o outro venha pela mão dele. Mas isso não é visto em sua plenitude aqui no Brasil.

ZH – Essa falta de civilidade vem aumentando ou está diminuindo?

Romano – O fato é que ainda vivemos o rescaldo da urbanização no brasil. Nós tínhamos a cultura rural, ou de pequenas cidades, onde todos se conheciam e as relações eram mais pessoais. Havia relação de autoridade com os fazendeiros, com o padre, o juiz. Desde os anos 50, o Brasil entrou em uma onda rapidíssima de urbanização.

ZH – O senhor quer dizer que ainda não aprendemos a viver em cidades?

Romano – Exatamente. Saímos do sertão e não nos adaptamos ainda ao ritmo das grandes urbes. Somos manadas de pessoas que não têm padrões de comportamento coletivo. Na Europa, as cidades têm 2 mil anos. Os EUA também tiveram uma urbanização rápida, mas a nossa foi mais tardia. Tem pessoas que ocupam determinados status sociais, mas não sabem o que fazer com ele. Temos uma classe média violenta, que só conhece o poder do dinheiro ou da força física. Se tem um salário razoável, um carro importado, o resto não existe.

ZH – O senhor acredita ser possível um avanço em curto prazo?

Romano – Não. É um processo civilizatório, e ainda estamos vivendo as dores do parto de uma sociedade urbana. Vamos sentir essas dores enquanto não conseguirmos criar padrões de comportamento de massa civilizados.