sábado, março 12, 2011

Ainda a fragilidade da oposição: reflexões adicionais sobre o tema

Bolívar Lamounier, Exame.com

Vou lhes confessar uma coisa, aliás duas. A primeira é que eu gosto de escrever no meu blog. Faço-o no meu ritmo, sem obrigação de correr atrás de tudo o que acontece e sem pressão para ser “menos acadêmico”, como temia quando comecei.

A segunda é que o texto de ontem me deu um prazer especial. A quem não tiver tido oportunidade de o ler, informo que foi sobre a fraqueza atual da oposição, com alguma ênfase na situação do PSDB.

O texto suscitou uma reação cordial, como sempre, mas acalorada, densa e instigante. Tanto que até senti as limitações da comunicação virtual. Em torno de uma mesa com todas as pessoas que me mandaram mensagens, acho que ficaria discutindo por bastante tempo.

Isso é impossível, mas peço licença para martelar mais um pouco o assunto, e para fazê-lo sob a forma de breves reflexões sobre três dos temas levantados.

Primeiro, o sentimento de urgência. Neste aspecto, fiquei com a impressão de que os comentários variaram de A a Z. Há, numa ponta, pessoas preocupadas com a possível, eventual ou provável lentidão do PSDB em equacionar seus desacordos internos e em se unir em torno de uma plataforma de oposição. Teme-se que outros 8 anos de marasmo não só o afundem de vez, mas o incapacitem para evitar problemas graves que o Brasil pode vir a atravessar. Tendências político-econômicas autoritárias e, num prazo mais curto, até uma possível crise econômica.

Na ponta contrária, vejo pessoas que se preocupam com a oposição por ela ser parte essencial da democracia, mas não por se apresentar neste momento como uma questão de urgência urgentíssima. E existe o risco da precipitação, eventualmente tão maléfica quanto a demora. Afinal, o governo Dilma Rousseff está apenas começando e não parece feito de um pano só. Por que não esperar que ele se decante para então se avaliar o que deve e o que não deve ser objeto de crítica?

Pode parecer inconsequente e logicamente absurdo, mas eu compartilho as duas posições. Gostaria de conciliá-las. Para mim a oposição, no Brasil ou em qualquer país, deve ser forte e estar pronta para atuar desde o primeiro dia. Governo empossado, oposição a postos, como um shadow cabinet . Isto me parece ser um requisito da democracia como regime.Mas regime é uma coisa, governo é outra. Um governo recém empossado deve ter condições de dizer a que veio. Uma oposição que aja com veemência contra este princípio fica devendo em lealdade – agora sim, ao regime democrático, e evidentemente aos cidadãos que elegeram o referido governo.

O segundo tema eu vou comentar com brevidade, não por o ver menos importante, mas porque espero tratar dele muitas vezes no correr deste ano. É uma questão clássica. Tem a ver com a agenda eleitoral e a agenda substantiva, estratégica, de longo prazo.

Todo partido precisa se comunicar com o povo, vale dizer, com a grande massa eleitoral. Para isso precisa escolher e formatar seus temas com vistas a maximizar sua ressonância. Por outro lado, um partido que se preze precisa também ter um programa de médio e longo prazo: uma agenda estratégica, baseada numa visão aprofundada dos problemas do país.

Também aqui, os dois pontos de vista me parecem certíssimos. Mas há um óbvio dilema ;para um partido de oposição, uma dificuldade realmente muito séria. Em certas conjunturas, os dois lados grudam um no outro sem maiores dificuldades. Foi o caso a partir de 1974, quando a população urbana começou a se cansar do regime militar. Mas há conjunturas em que isso não acontece; aliás, como regra geral, eu diria que não acontece.

Sem “maneirar” na crítica ao desempenho da oposição e do PSDB nos últimos 8 anos, acho exagerado pensar que as dificuldades deste momento se devam a uma suposta falta de ânimo, disposição ou coragem. Ou ao qüiproquó Serra X Aécio. Ou mesmo às três derrotas eleitorais.

A falta de ressonância popular do PSDB não é a causa das dificuldades, é um sintoma delas. O partido nasceu com um perfil bem delineado (democrático, pela distribuição de renda, contra a corrupção, contra o patrimonialismo etc) e personificou uma agenda estratégica consonante com ele. Estas duas coisas – perfil e estratégia – deram no governo Fernando Henrique e promoveram uma transformação econômico-social de dimensões históricas.

Com inegável habilidade, o PT e Lula se enrolaram nessa bandeira e dessa forma ocultaram o fato de não terem uma bandeira alternativa sequer remotamente comparável em consistência. Com os predicados pessoais e um modo de agir que eu não preciso rememorar, Lula conseguiu ao mesmo tempo granjear um enorme apoio popular para o seu Erzatz de programa e travar a recuperação eleitoral do PSDB, do DEM e do PPS. Daí me parecer que a oposição não se limita a criticar o rei (Lula), ela critica também o reinado (patrimonialismo, populismo, políticas públicas de má qualidade). É certo que no momento as coisas estão difíceis, mas não há como compreender tal dificuldade sem um recuo temporal adequado.

Com isto eu chego ao meu terceiro ponto, e prometo ser breve. Pode soar estranho, mas um partido com várias lideranças importantes causa certo incômodo. Mas a realidade é esta: o PSDB tem rivalidades internas porque não é e nunca foi partido com “dono”. Sim, rivalidades muitas vezes atrapalham, mas a solução qual é? Um partido que em três décadas produziu só um líder de verdadeira expressão nacional? Aliás nem isso, porque Lula não foi “produzido” pelo PT, foi produzido pela luta contra o regime militar, muito mais ampla, e juntou-se ao PT em 1979, quando da criação deste.

Minha querida amiga Luzia Herrmann observa, com carradas de razão, que eu fui injusto com muita gente no meu post de ontem. Falei da falta de tradição oposicionista no Brasil sem me lembrar de Rui Barbosa, San Thiago Dantas, Tancredo Neves, Montoro, Ulysses Guimarães, Fernando Henrique Cardoso e tantos outros. É óbvio que me expressei mal.

O que entortou meu texto foi o meu afã de enfatizar simultânea a duas coisas. Primeiro, a idéia de oposição de fato coletiva, ou seja, organizada como partido, e não só individual; por aí Rui Barbosa precisa sair da lista.

Segundo, uma oposição nítida tanto na questão política (a democracia) quanto na econômica (controle da inflação, combate ao patrimonialismo, reforma do Estado). Foi aqui que eu escorreguei. É claro que a geração de Tancredo e tutti quanti também atuou como oposição na área econômica ; quanto a este ponto, basta lembrar que o refrão contra as “obras faraônicas” do general Geisel quem criou foi o Montoro. Mas o epicentro daquela conjuntura, do ponto de vista da oposição, estava na área política. Eis o que eu quis dizer.

Mesmo depois de consumada a transição, as forças (aqui não estou me referindo aos líderes acima citados) que antes integravam a frente de oposição aos militares soavam como uma torre de Babel, como se viu na Constituinte. Uma ação efetiva contra a inflação galopante, já quase virando hiper-inflação, só teve início em 1993.