Comentando a Notícia
Em entrevista concedida ao Estadão recentemente, Shirin Ebadi, prêmio Nobel da Paz e opositora ferrenha de Ahmadinejad, vê guinada na posição do País após Lula, mas disse esperar que o discurso por direitos humanos não seja apenas estratégia política.
Bem, a iraniana parece não conhecer bem nossos governantes petistas. Esta tropa é boa de discurso e propaganda, mas ruim de serviço. Entre o que dizem e a ação propriamente, a diferença é de muitos anos-luz. Aliás, o próprio Estadão, em um de seus editoriais, andou proclamando as venturas de uma nova era.
Porém, guardei o devido silêncio quanto as primeiras impressões e discurso. Com o PT é sempre preferível avaliar mais suas ações do que suas palavras.
Ontem, aqui mesmo, fiz esta ressalva: somente será possível aplaudir uma mudança – urgente e necessária – em nossa política externa, se e quando o governo da Dilma Presidente se pronunciar de forma crítica em relação ao regime cubano. É fácil meter a ripa em gente como Kaddafi e Mahmoud Ahmadinejad. Coisa diferente, porém, é se aplicar a mesma régua sobre Chavez e os irmãos Castro.
Li muitos elogios a posição brasileira em recente sessão da ONU, na qual o país condenou a intolerância religiosa, num recado de desacordo ao que se pratica por exemplo no Irã. Entre os pontos citados, está a discriminação contra a fé Bahai, cujos membros são perseguidos no Irã.
A declaração oficial, lida na sessão principal do dia no Conselho de Direitos Humanos e obtida pelo site de VEJA, diz: “O Brasil deplora veementemente todas as ações de discriminação e incitação ao ódio religioso que vêm ocorrendo em várias partes do mundo. Muitas vidas inocentes foram perdidas por causa da intolerância e da ignorância”.
O documento afirma que o Brasil está preocupado com a situação dos seguidores de certas religiões que são alvos de discriminação em diversas partes do mundo, como as crenças de origem africana e a fé Bahai, um dos maiores grupos não muçulmanos, perseguido no Irã. “O Brasil reitera seu compromisso de assegurar uma sociedade plural, tolerante e livre. A liberdade de religião e de crenças é um direito fundamental garantido pela Constituição do país”.
O texto é uma das ações mais representativas do Brasil em um importante fórum internacional nos últimos anos. Além de pontuar aspectos claros – o que cria dentro da ONU a necessidade de se obter respostas -, o documento mostra que o Brasil está dando mais importância aos direitos humanos. A ação é, portanto, um novo sinal de que o país vai condenar violações a estes direitos em países como o Irã. Vai?
Não acredito. Pode até condenar um e outro tirano assassino espalhado lá pela Ásia ou África. Mas dentro da América Latina, a posição sempre será de absoluta leniência, como são os casos dos regimes que vigoram na Venezuela e em Cuba. Querem outro exemplo? Qual o passo dado pelo atual governo para reconhecer o legítimo e democrático presidente eleito de Honduras? Não tentem pesquisar, perderão tempo. Dilma mantém o mesmo distanciamento que seu antecessor.
Mais um exemplo desta empulhação praticada e que a todos encanta, mas que a poucos engana, é a notícia a seguir.
Observem o cidadão da foto abaixo. Reconhecem-no? Pois é, trata-se do sargento Garcia em visita oficial à ... Cuba. Vocês acham que ele foi lá pedir que os irmãos Castro devolvam democracia à Cuba? Ou lá está para pedir absolvição e liberdade aos presos políticos? Nada. Conforme nota oficial, Garcia visitou a dupla assassina cubana onde “...abordou-se o excelente estado das relações entre Cuba e Brasil...”, além de “outros temas da atualidade internacional. É preciso dizer mais alguma coisa?
Bem, neste caso, leiam a notícia postada no blog do Josias de Souza, Folha.com e tire suas conclusões. De minha parte, se mudança houve ela se concentrou apenas no discurso, que se tornou mais hipócrita. Sendo, para efeitos externos, a mudança aconteceu apenas nas palavras, pero no mucho como Garcia acabou atestando.
Em visita oficial a Cuba desde segunda (7), o grão-petê Marco Aurélio Garcia virou “notícia” no Granma, diário estatal cubano.
O texto não esclarece o que faz o assessor internacional da Presidência brasileira em Havana. Limita-se a reproduzir uma nota oficial.
A peça anota que Marco Aurélio foi recebido, nesta quarta (9), pelo ditador cubano Raúl Castro. Conversaram sobre o quê?
“Durante o encontro abordou-se o excelente estado das relações entre Cuba e Brasil...”, além de “outros temas da atualidade internacional”.
Afora o irmão de Fidel Castro, participaram da conversa com Marco Aurélio uma tróica de ministros cubanos.
Lá estavam o chanceler Bruno Rodríguez e os “companheiros” Rodrigo Malmierca (Comércio e Investimento Estrangeiro) e Abel Prieto (Cultura).
O Granma não diz, mas “o excelente estado das relações entre Cuba e Brasil” inclui um empréstimo do bom e velho BNDES a Havana. Coisa de US$ 300 milhões.
Prometida sob Lula, a verba vem sendo borrifada no borderô das obras do Porto de Mariel, a 50 quilômetros da capital cubana.
O próprio Lula visitou o canteiro da obra em fevereiro do ano passado. Chegou no dia da morte do dissidente cubano Orlando Zapata.
Preso político, Zapata feneceu após 82 dias de greve fome. Ouvido na época, Lula lamentou que prisioneiros cubanos “se deixem morrer” de fome.
Ao lado de Lula, Raúl também falou aos repórteres. Disse que, em "meio século", ninguém foi assassinado pela ditadura de Cuba.
"Aqui não temos uma máxima liberdade de expressão, é certo”, reconheceu o companheiro-ditador antes de rogar aos entrevistadores:
“Deixem-nos tranquilos, deixem-nos quietos, deixem-nos desenvolver normalmente nossas atividades [...]. Essa é a realidade, o resto é história”.
Primeira autoridade brasileira a visitar Cuba desde a posse de Dilma, Marco Aurélio não teve a desventura de chegar nas pegadas da morte.
Melhor assim. A platéia foi poupada de novas declarações constrangedoras. Resta agora aguardar pelo retorno do assessor.
Ao anunciar o corte orçamentário de R$ 50 bilhões, o governo prometera restringir ao mínimo necessário as viagens, sobretudo as internacionais.
Assim, espera-se que, de volta, Marco Aurélio explique ao contribuinte que lhe pagou bilhetes aéreos, estadia e alimentação o que diabos foi fazer em Cuba.
