quinta-feira, março 10, 2011

Ministro Mantega: uma no cravo, três na ferradura

Luiz Carlos Mendonça de Barros, Exame.com

A credibilidade no combate à inflação que o ministro Mantega passa à sociedade em suas frequentes declarações publicas é sempre muito baixa. E isto acontece por uma razão muito simples: o ministro não acredita que o combate à inflação deva ser feita com medidas que desaceleram o crescimento no médio prazo. Para ele – e a escola de pensamento econômico a que pertence – a inflação se combate com aumento nos investimentos públicos e privados. Ou seja, as medidas estão sempre voltadas para o aumento da oferta de bens e serviços e não para uma moderação temporária de sua demanda. Infelizmente – e o ministro já tem idade suficiente para saber disto – os investimentos em um primeiro momento adicionam demanda e não oferta, agravando com isto o descompasso que já existe em vários mercados importantes. No caso brasileiro de hoje é o mercado de trabalho o mais grave destes gargalos.

Não por outra razão ele sempre afirmou que a redução dos gastos no orçamento deste ano não atingiriam os investimentos, ficando restrito a cortes pontuais em alguns gastos de custeio. Reforçando seu entendimento sobre como deva ser a ação do governo neste momento, poucos dias após o anuncio dos cortes no orçamento para 2011, ele aprovou um novo aporte de recursos do Tesouro para o BNDES. Embora o valor fixado para este ano seja inferior ao de anos anteriores, ele é superior à promessa de cortes nas despesas oficiais para 2011. Do ponto de vista da demanda agregada – que é o que conta em uma política anti inflacionaria - o governo está trocando seis por meia dúzia.

Como a inflação no Brasil de hoje é um fenômeno concreto e com características que o diferenciam das recaídas inflacionarias dos anos Lula, esta postura dúbia do ministro da Fazenda -que é o responsável pelo seu enfrentamento - não vai dar certo. Neste sentido o ministro segue um roteiro conhecido de sucessivos fracassos de governos de esquerda no combate á inflação como a que atinge a economia brasileira hoje. A falta de compromisso com uma redução temporária da demanda agregada – para permitir a volta do crescimento sustentado mais à frente – acaba criando uma expectativa de mais inflação e joga no colo do Banco Central a responsabilidade de ancorar a expectativa dos agentes privados. Em um sociedade sempre atenta à possível elevação da inflação e com um mercado futuro de juros - na BMF/BOVESPA – ativo e liquido, esta falta de credibilidade ganha uma grande visibilidade e joga contra o sucesso desta empreitada. Neste sentido o governo está brincando com fogo.