Adelson Elias Vasconcellos
Um dos ramos industriais que mais benefícios e incentivos recebeu do governo Lula foi, sem dúvida, a indústria automobilística. Durante os dois mandatos, as vendas cresceram de forma avassaladora.
Porém, na medida em que milhares de novos carros eram despejados diariamente nos trânsitos das grandes centros e rodovias do país, faltou de parte do governo, prever o caos que o fato geraria. Faltou planejar melhor as consequências e impedir a tragédia que se vê atualmente, não apenas na contagem de mortos e feridos no aumento assustador de acidentes, mas nos gargalos que o aumento da frota provocaria.
Deste modo, não apenas descuidou-se das estradas mau conservadas, mas como ainda, não investiu adequadamente em transporte coletivo de massa para evitar os engarrafamentos estressantes que a população ficou sujeita.
Esta não é a primeira vez que criticamos o governo federal que o senhor Lula comandou durante oito anos, por esta injustificável omissão em relação à falta de planejamento decorrente e necessário de sua política de incentivo à indústria automobilística. Numa destas muitas vezes, foi logo após estudo que estimava ser de R$ 30 bilhões o custo total dos prejuízos causados por acidentes de trânsito. Nem o país tampouco sua população estavam preparados para acolher sem tragédias e traumas este fluxo monstruoso de novos veículos.
Não somos contrários a que cada cidadão seja proprietário de um veículo para chamar de seu. Somos contrários, sim, à concessão de habilitação para qualquer despreparado na direção de um veículo que, por imperícia, pode causar mortes e ferir pessoas inocentes. Somos contrários que este fluxo enorme de novos veículos se aventurem a trafegar por estradas deformadas, esburacadas, mau conservadas, apesar da fortuna em impostos e taxas que nos são arrancados pelo Estado para tal propósito e, como em tantos outros impostos e taxas, acabam irremediavelmente desviados para outros fins, a maioria dos quais desviados da legítima função pública.
O aumento tanto no número de mortos quantos de feridos, oriundos da elevação recorde no número de acidentes nas estradas durante o período de carnaval, deveria alertar nossas autoridades para o problema que sua política industrial de incentivo à produção de automóveis e comercialização, feita de forma afoita e longe de um planejamento adequado e de ações e medidas para que o fluxo maior de veículos pudesse se dar em condições ao menos suportáveis. Se tal lição for tirada e dela resultar urgentes investimentos para atenuar-se o número de tragédias, ao menos o país poderá se justificar.
E não bastam apenas novas estradas e conserto das atuais em precárias condições. Não será suficiente que nas grandes cidades se rasguem novas vias para o trânsito congestionado. Como ainda será pouco investimento maciço em transporte público de qualidade. Será preciso ações mais restritivas como a concessão de habilitação para qualquer Zé ninguém andar solto por aí colocando em risco a sua vida e a de terceiros. Também se deverá exigir dos veículos condições plenas para o tráfego. Coibir-se de forma rigorosa que os reincidentes criminosos do trânsito voltem á direção de qualquer veículo enquanto não comprovarem condições plenas para tanto.
Esta tolerância irresponsável também é criminosa. Chega do Brasil continuar se matando de forma absolutamente inconsequente. O trânsito não é uma arena de disputas, e sim uma via de transporte para a locomoção das pessoas de um destino a outro. Está mais do que na hora de passarmos da condição de uma sociedade selvagem, bárbara e estúpida, para o grau de uma civilizada e responsável, onde se possa viver sem u susto de uma morte em cada esquina.