Bolívar Lamounier, Exame.com
A Polícia Federal, como o próprio nome indica,é um órgão do governo federal. Na presidência, Lula elogiou-a em diversas ocasiões, ressaltando sua independência, competência e profissionalismo. Em mais de uma oportunidade ele recorreu ao consagrado refrão: nunca antes “nesse” país se investigou tanto etc etc. Estou lembrando estes fatos por uma razão óbvia: a divulgação, ontem, do relatório da Polícia Federal sobre o mensalão.
Decorridos cinco anos do principal escândalo de corrupção do governo Lula, a PF vem a público e diz sem meias palavras: o mensalão existiu; dinheiro público foi canalizado para o esquema; uma parte dele irrigou a própria campanha de Lula à presidência, em 2002, cobrindo gastos com segurança, viagens, alojamento, alimentação e outras.
Quer dizer, o relatório desmente tudo o que Lula, seus juristas e os petistas de modo geral sustentaram desde então, e confirma em toda linha o que a imprensa averiguou cinco anos atrás, com base em depoimentos e num extenso caudal de indícios.
Com o relatório da PF e o material da imprensa, poderemos finalmente fazer o devido registro histórico dos fatos de 2005-06. Pode parecer pouco, mas não é. Cumpre recordar que milhares de petistas têm se dedicado com fervor às artes do historicídio – tomando aqui um termo emprestado a Josias de Souza. Nunca antes na história “desse” país tantos deturparam tanto a história, forçando-a a se encaixar na ótica dos interesses partidários.
É claro que, por si só, a investigação policial não determina o curso do processo. No Supremo Tribunal Federal, como se tem amplamente divulgado, o relator, ministro Joaquim Barbosa, enfrenta uma tarefa hercúlea, desdobrando-se para examinar a documentação em seu poder. Sua responsabilidade é imensa. Ele terá de correr contra o tempo para o julgamento ser realizado antes da prescrição do crime de formação de quadrilha. Se a prescrição ocorrer antes, o processo perderá praticamente toda a sua significação jurídica e histórica, e estaremos prontos para saborear a maior e mais repugnante pizza jamais levada ao forno da política brasileira.