domingo, junho 24, 2012

A aliança do mal


Adelson Elias Vasconcellos

Ao selar a aliança Haddad / Maluf, em presença do “coroné” Lula da Silva, que serviu para colocar a vice escolhida, Luiz Erundina, em crucial dúvida a ponto de ameaçar renunciar o posto, o pré-candidato petista Fernando Haddad afirmou que a “aliança com  Maluf é um pacto por São Paulo”. Não diga, senhor Haddad? Será que o pacto realmente leva em conta os interesses da capital  paulista, pensando naquilo que é melhor para o paulistano?

Creio que o senhor Haddad anda sofrendo de sérios problemas de memória. Então vamos ajudá-lo a recobrar a decência e, antes de tudo, a dignidade, se é que há espaço na alma de um petista para abrigar tais sentimentos e virtudes. 

Conforme publicou reportagem da Folha, em 2011, "...Duas empresas internacionais, cujo controle é atribuído ao deputado federal Paulo Maluf (PP-SP) e a seus familiares, terão de pagar 300 mil libras (R$ 800 mil) de custas judiciais à corte das Ilhas Jersey por terem perdido uma apelação relacionada ao bloqueio de US$ 113 milhões (R$ 188 milhões). O valor está bloqueado desde 2009. Maluf é acusado de ter desviado recursos públicos durante a construção do túnel Ayrton Senna e da avenida Roberto Marinho, em São Paulo, em sua gestão à frente da prefeitura paulistana (1993-1996)...".

Ele teria recebido US$ 344 milhões do valor desviado, segundo o Ministério Público. Maluf nega o desvio, o controle sobre as empresas e a existência de contas em seu nome fora do país. É a segunda vez que os advogados de Maluf têm de fazer pagamentos à Corte Real de Jersey, que fica no Canal da Mancha, ao lado do Reino Unido. Em 2009, por conta de outra contestação que perdeu sobre a quebra de sigilo de contas, ele teve de pagar 400 mil libras (R$ 1,068 milhão em valores de hoje).

O dinheiro cobrado pela Justiça de Jersey virá para a Prefeitura de São Paulo, que tenta recuperar os recursos supostamente desviados. Do US$ 113 milhões bloqueados pela Justiça de Jersey, US$ 22 milhões são reclamados pela Prefeitura de São Paulo. O restante deve ficar com a União, que é beneficiada, em tese, nos casos de crime de lavagem de dinheiro. Os advogados das empresas Durant International e Kildare Finance queriam que a Justiça das Ilhas Jersey remetesse o processo sobre o bloqueio para o Brasil.

Apesar de Maluf negar que tenha relação com as duas empresas, seus advogados alegavam que a suposta fraude, os acusados e as testemunhas do suposto desvio são do Brasil — o que justificaria a remessa do processo. Num dos trechos da decisão, os juízes de apelação, perguntam: “Pode a admissão de envolvimento da família de Maluf alterar essa situação?” Eles mesmos respondem logo em seguida que os advogados de Maluf relataram na apelação que ele tem “interesse direto e indireto” no caso.

A Corte Real diz que alegações de que o processo sobre o bloqueio deveria ser transferido para o Brasil não tem fundamento porque o dinheiro está depositado em banco em Jersey, o que faz da ilha o fórum natural do caso. Dos US$ 113 milhões congelados, cerca de US$ 100 milhões são em ações da Eucatex. Maluf e o Deutsche Bank são acusados de terem feito uma operação financeira na qual usaram os recursos desviados da prefeitura para capitalizar a Eucatex.

Pois bem: não custa perguntar ao pré-candidato, caso seja eleito, ordenará que a Prefeitura dê por encerrada a ação judicial contra seu aliado? Afinal, em valores não atualizados, o ex-prefeito e ex-governador biônico Paulo Maluf tem uma dívida judicial de R$ 732,5 milhões com os cofres públicos, além dos milhões de dólares bloqueados pela Justiça da Europa. 

E é isto que ele considera “pacto por São Paulo”, ou seria melhor dizer “pacto contra São Paulo”? 

Unir num mesmo palanque Haddad, Lula e Maluf, impossível não definir o tal pacto como a aliança do mal. Como diz o Marcos Gutterman em seu artigo (post abaixo), Lula e Maluf foram feitos um para outro.

E para que o leitor não se confunda sobre a tal aliança ser perniciosa para a capital de São Paulo, seria oportuno como, ao longo do tempo, as relações Lula/Maluf se desdobraram. Leiam e vejam a coerências destas “personalidades”.

O que Lula e Maluf já disseram um do outro (Levantamento de O Globo)

- "Se o civil tiver que ser o Paulo Maluf, eu prefiro que seja um general". (Lula, durante a eleição presidencial de 1984)

- "Faz 15 anos que Lula não está no torno, que não conta como vive, quem paga seu salário". (Maluf, quando era prefeito de São Paulo, em 1993)

- "O problema do Brasil não está no deputado Paulo Maluf, mas sim nos milhares de 'malufs'". (Lula, em 1986

- "Quem votar em Lula vai cometer suicídio administrativo". (Maluf, quando era candidato a presidente em 1993)

- "A impressão que se tem é que Cristo criou a terra, e Maluf fez São Paulo". (Lula, em 1996, sobre as propagandas das obras feitas pelo Maluf em SP)

- "Perto do Lula e do Fernando Henrique Cardoso, eu me considero comunista". (Maluf, em crítica ao governo federal, em 2007)

- "O símbolo da pouca-vergonha nacional está dizendo que quer ser presidente da República. Daremos a nossa própria vida para impedir que Paulo Maluf seja presidente". (Lula , no Comício das Diretas Já, na Praça da Sé, em 1984)

- "Declaração infeliz do presidente. Ele não está a par do problema, e se ele quiser realmente começar a prender os culpados comece por Brasília. Tenho certeza de que o número de presos dá a volta no quarteirão, e a maioria é do partido dele, do PT". (Maluf, em 2005, sobre as declarações de Lula a respeito de sua prisão)

- "Se o Maluf é pescador, ele sabe que pegar lambarizinho é muito mais fácil que pegar peixe graúdo". (Lula, em 2003, ao falar sobre o combate ao crime organizado em São Paulo)