quarta-feira, junho 20, 2012

E o Greenpeace exagerou na dose


Ricardo Galuppo
Brasil Econômico

Aberta ontem pela presidente Dilma Rousseff, a conferência Rio+20 pode ser um momento importante para ampliar as discussões em torno do desenvolvimento sustentável, tema que é fundamental mas que, infelizmente, nem sempre é tratado com a seriedade que merece.

E o pior de tudo é que entre os responsáveis pelas leviandades que muitas vezes cercam esse debate estão organizações que, a princípio, deveriam ser um exemplo de seriedade.

Em nome da defesa de interesses aparentemente nobres, o Greenpeace e outras entidades do gênero são capazes de gestos que, em lugar de ajudar, servem apenas para prejudicar o avanço da causa do desenvolvimento sustentável.

Ontem, por exemplo, a Justiça expediu uma liminar em favor do frigorífico JBS (o maior produtor de carnes do mundo) contra o Greenpeace. A ONG vinha insistindo na acusação de que a empresa adquiria gado criado em terras embargadas pelo Ibama.

A Justiça entendeu que a acusação é mentirosa e determinou que o Greenpeace deixe de mandar panfletos a respeito do assunto para clientes do frigorífico - além de excluir de sua página na internet o conteúdo a respeito do tema.

É esse tipo de gente (que forja argumentos e tenta transformá-los em verdade) que vestirá a fantasia de salvador do planeta e fará barulho na conferência, tentando impor seus pontos de vista aos participantes.

O mundo deve muito às organizações que colocaram o debate ambiental na pauta das discussões muito antes de esse tema ser levado em conta pelos governos e pela própria ONU.

Mas, a partir do momento em que elas exageram na dose, a contribuição se transforma em desserviço.

O Greenpeace e todos os que ainda se opõem à construção de Belo Monte e de outras hidrelétricas na região da Amazônia deveriam fazer uma avaliação sincera do que representa para a região a geração de energia por usinas térmicas com aquela velharia que abastece Manaus.

Pois bem: sem uma fonte de geração de energia mais segura e mais barata do que a atual, a indústria da Zona Franca pode se tornar inviável. E, caso as fábricas sejam fechadas, a população local será obrigada a buscar sua sobrevivência na floresta - e a destruição da mata será inevitável.

A questão do desenvolvimento sustentável, como se vê, vai muito além da preservação do meio ambiente (embora esse aspecto tenha uma importância inegável para a qualidade de vida no mundo).

Ela inclui, em papel de destaque, a necessidade de avanços sociais mais relevantes. O secretário-geral da Rio+20, Sha Zukang, tocou num ponto fundamental ao falar, ontem, sobre o documento que será emitido ao final da conferência.

"Nós precisamos de um documento com propostas ambiciosas e históricas que contenha iniciativas tecnológicas que possibilitem o desenvolvimento sustentável. Temos que transformar nossas aspirações sobre inclusão, prosperidade e igualdade em realidade", disse ele.

Este é o xis da questão: não se promove o desenvolvimento sustentável olhando pelo retrovisor, nem existe aliado mais fiel do desenvolvimento sustentável do que o avanço tecnológico.