terça-feira, agosto 14, 2012

Apesar de você


Celso Ming 
O Estado de S.Paulo

Depois de tanta decepção com o setor produtivo, especialmente com a indústria, o ministro da Agricultura, Mendes Ribeiro Filho , orgulhosamente apresentou ontem "a maior safra agrícola de todos os tempos".

Não era o que se esperava até há dois meses. As dez previsões, tanto do IBGE como da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), feitas até agora apontavam quebra de safra em relação à do ano anterior. No primeiro trimestre deste ano, o PIB agrícola sofreu queda de 8,5% sobre o primeiro trimestre deste ano. Agora, a lavoura nacional comparece para, uma vez mais, salvar o PIB nacional não só em produção física, mas também em valor (e renda). Os principais grãos acusam escalada de preços nos mercados internacionais de commodities.

O jogo virou. A produção de grãos deste ano, anunciada ontem pelo ministro, é de 165,9 milhões de toneladas (veja no Confira), 1,9% acima da safra anterior, "mas pode chegar aos 170 milhões de toneladas", diz Mendes Ribeiro.

O ministro informou, ainda, que levou os novos números à presidente Dilma, "que ficou enormemente feliz", porque, afinal, esse importante segmento do setor produtivo não está decepcionando.

As administrações do PT mantêm em relação à agropecuária uma visão carregada de ambiguidades até agora não resolvidas. O partido chegou ao governo com a visão enviesada de que esse é um setor dominado pelo agronegócio (visto como predador), pela bancada ruralista do Congresso (sempre retrógrada), pelos usineiros exploradores dos boias-frias, pelos fundiários avessos à reforma agrária e às reivindicações do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST).

Os líderes do MST, que contam com uma boa retaguarda dos governos desde 2003, não se cansaram de denunciar os responsáveis pelo que chamam de destruição da agricultura familiar, à medida que grandes empresas se empenham em espalhar monoculturas de laranja, soja, cana-de-açúcar e florestas de árvores exóticas, como de eucalipto e pinus.

Essa visão ideológica foi complementada pelo diagnóstico distorcido de alguns economistas, para os quais esse modelo agrícola tende a reconduzir o Brasil à produção de bens primários, que incorporam baixo índice de tecnologia e não se preocupam com agregar valor. Mais do que isso, entendem que o setor pretende reduzir o Brasil a um fazendão e gerar a doença holandesa que contribui para uma superoferta de dólares, que manteria o real excessivamente valorizado, e para a desindustrialização.

Em contrapartida, embora sigam contaminados por pontos de vista desse tipo, os governos do PT vêm sendo obrigados a reconhecer enormes avanços tecnológicos da agricultura brasileira moderna, a imprescindível fonte de receitas em moeda estrangeira proporcionada pelas exportações de grãos, e a importância estratégica da bioenergia, sobretudo programas do biodiesel e da produção de etanol, e o enriquecimento do interior do País.

Mas não dá para falar que a agricultura venha contando com apoio firme do governo, tal qual dado a determinados setores da indústria, premiados com isenção tributária e créditos favorecidos do BNDES. Além disso, a atual política populista de achatamento de preços concorre para desestimular a produção de cana-de-açúcar. A agropecuária brasileira continua escrevendo uma história de sucessos, apesar do jogo contra.