quinta-feira, setembro 27, 2012

MEC quer alfabetizar aos 8 anos; especialistas, aos 6


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Estudiosos dizem que meta proposta pelo governo tem de ser mais ambiciosa

 (Agência Brasil)
 Pacto estabelece que toda criança deve saber ler e escrever
 até o fim do 3º ano do ensino fundamental

O Ministério da Educação (MEC) lança, no próximo mês, o Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa, estabelecendo que todos os estudantes devem estar alfabetizados ao fim do 3º ano do ensino fundamental, aos 8 anos de idade. É o que prevê também a 5ª meta do Plano Nacional de Educação (PNE), em tramitação no Congresso. No país todo, 5.182 municípios (93,2%) aderiram ao pacto e receberão material didático e cursos de formação docente. Para especialistas, o compromisso com a alfabetização é importante, mas a idade estipulada para que esse processo se concretize é questionada. 

"Oito anos é muito tarde. O país já paga muito caro pelo histórico de falta de atenção à educação. Então, se a ideia é mudar isso, temos de centrar esforços e apostar em metas mais ousadas", afirma Izolda Cela de Arruda Coelho, secretária de Educação do Ceará. Os avanços dos anos iniciais fizeram o estado ser referência em alfabetização, tanto que o programa do MEC foi inspirado no que é desenvolvido pela rede cearense. 

Segundo o neurocientista Ivan Izquierdo, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a alfabetização tardia é uma questão cultural e mudar esse paradigma exige que as políticas públicas considerem, além do olhar dos pedagogos, a visão de outros cientistas. "Não dá para trabalhar isolado. O cérebro é uma questão da neurociência. Aos 3 anos, a criança já tem condições de dominar e usar a linguagem. Aos 6, já pode estar alfabetizado", ressalta.

O presidente do Instituto Alfa e Beto, João Batista Araujo e Oliveira, explica que 6 anos é a idade de alfabetização na maior parte dos países que têm um idioma com complexidade similar à oferecida pela língua portuguesa. "Considerando que a escolarização tem começado aos 4 anos, não dá para conceber que se leve outros quatro para que essa criança leia e escreva", diz Oliveira.

A prova de que é possível realizar a tarefa de forma adequada e no prazo correto são as escolas privadas, diz a consultora educacional Ilona Becskeházy. "Se o aluno do colégio particular aprende a ler e a escrever no primeiro ano, por que a expectativa para quem depende da rede pública é maior?", questiona. 

Apesar da capacidade neurológica das crianças, trabalhar com idade limite inferior aos 8 anos é utopia, considera Priscila Fonseca da Cruz, diretora executiva da ONG Todos pela Educação. "Uma meta precisa ser desafiadora, mas factível. É claro que há muitos que conseguirão ler aos 6 ou 7 anos, mas se conseguirmos uma régua que garanta que ninguém chegue aos 9 analfabeto, já é um bom início", diz. Ela lembra que a Prova ABC, aplicada a cerca de 6.000 alunos de escolas municipais, estaduais e particulares de todas as capitais do país, mostrou que só metade dos estudantes estava plenamente alfabetizada aos 8 anos.

***** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Infelizmente, a posição do MEC não me surpreende. E não me surpreende em função dos resultados de sua ação. É triste constatar que, entra ano e sai ano, e entre uma avaliação a outra, o nível do ensino, principalmente no fundamental e, mais especificamente, no médio, decaem.

Outro resultado triste, para não dizer vergonhoso, é constatar que mais de 30% dos universitários se situam em nível de semi alfabetizados. Assim, em razão do quadro tal qual ele se apresente, deveria o MEC rever conceitos, posturas, métodos para que se tentasse descobrir o que está dando errado. Sabe-se que não se trata de falta de recursos, já que se demonstrou o nível de investimentos em educação em relação ao PIB brasileiro, é similar a um grande número de países. Se não estamos no topo, pelo menos neste quesito, não ficamos nos últimos lugares.  

Deste modo, e me reportando ao tal Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa, parece-me que o MEC se encontra um tanto fora de rota. Ora, uma criança aos seis anos, na média, já manipula computador, já lê as primeiras letras e consegue formar algumas palavras simples. Já aos quatro anos, ela já tem exata noção de números, já sabe identificá-los. Pode não estar preparada, e nem seria possível esperar-se tanto, proceder cálculos básicos aritméticos. Contudo, diferentemente de gerações de crianças em mesma faixa etária de há trinta, quarenta anos atrás, as crianças de 6 anos já trazem em si mesmas um preparo ou um pré preparo mais intelectualizado, estão mais aptas a receber conhecimentos, aprendem com maior facilidade e muito maior velocidade. Colocando-se estas crianças em ambientes propícios, com professores qualificados, não há nenhuma razão que justifique sua alfabetização dar-se em idade posterior como pretende o MEC. 

Os profissionais do MEC precisam, a meu ver, se atualizarem sobre as modernas pedagogias, sobre as modernas tecnologia ao alcance quase universal, reciclando sua visão de mundo e de conceitos educacionais. 

E acreditem: longe de ser uma crítica, trata-se de uma sugestão visando adequar e capacitar nossos níveis às necessidades de um mundo em constante mutação em que, as novas gerações sempre surgem mais bem preparadas e equipadas em capacidade às gerações anteriores, de seus país e avós. Não aceitar tal realidade é cegar-se à própria realidade evolutiva do ser humano.