Colaborou Igor Santos
O Globo
Apesar da queda na desocupação, dificuldade de inserção persiste para alguns grupos. Os desempregados são predominantemente mulheres; pretos ou pardos; mal formados, inexperientes e jovens
RIO — O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) pôs na rua, sexta-feira passada, os resultados da edição 2011 de sua Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad). Hipermercado de informações para economistas, pesquisadores e especialistas em políticas públicas, a Pnad é ferramenta obrigatória para os que desejam compreender as transformações socioeconômicas do Brasil. No relatório sobre o primeiro ano da segunda década do século XXI, os técnicos do IBGE dedicaram um trecho ao perfil dos desempregados. O país tinha, no ano passado, 6,627 milhões de desocupados, termo que, na Pnad, designa os brasileiros com 15 anos ou mais de idade que estão sem trabalho, mas buscam ocupação. O contingente foi reduzido em 1,6 milhão de pessoas, cerca de um quinto do total de desocupados estimado na edição 2009.
A massa de desocupados encolheu um quinto entre uma pesquisa e outra, mas ainda é superior a toda a força de trabalho de Portugal (5,543 milhões em 2011, segundo o CIA World Factbook) e está pouco abaixo do estoque de mão de obra do Chile (8,099 milhões). É gente que busca ocupação e não consegue, embora a escassez de profissionais, junto com a carga tributária estratosférica e a infraestrutura sofrível, seja top five na lista do empresariado sobre as mazelas que atravancam o crescimento nacional.
No perfil que a Pnad esboçou — e o ilustrador André Mello traduziu na charge que ilustra esse texto— sobre o desempregado brasileiro, saltam aos olhos características que cabem nos dedos de uma mão. Os desocupados são predominantemente mulheres (59%). São pretos ou pardos (57,6%). Mal formados, 53,6% completaram o ensino médio. São inexperientes: 35,1% jamais trabalharam. São jovens. Um terço (33,9%) tinha entre 18 e 24 anos de idade.
“Foi traçado um perfil dos desocupados com intuito de mostrar que, apesar da queda expressiva nos indicadores de desocupação, ainda persiste, para alguns grupos, uma dificuldade maior de inserção no mercado de trabalho”, escreveu o IBGE nos comentários da Síntese de Indicadores da Pnad 2011.
Portanto, um caminho óbvio para ampliar as fileiras dos 92,466 milhões de ocupados é desmontar as barreiras, ainda postas, de entrada no mercado de trabalho. A taxa de desemprego das mulheres (9,1%) é quase o dobro da masculina (4,9%). O índice entre os jovens (13,8%) supera em duas vezes a taxa média.
— Nosso país ainda é profundamente marcado por desigualdades que produzem efeitos perversos sobre a distribuição dos possíveis ganhos com o desenvolvimento. Nem todos os brasileiros podem se beneficiar igualmente dos resultados positivos do crescimento econômico. Há grupos que experimentam maior grau de exclusão, em razão de uma estrutura de oportunidades extremamente desigual. Estão neles as mulheres, os negros, os jovens — diz Celi Scalon, professora titular da UFRJ e coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia do IFCS-UFRJ.
Com a lupa nos desempregados, a Pnad 2011 escancarou essa desigualdade. Ao mesmo tempo, iluminou o caminho para sua desconstrução. Está claro que iniciativas, públicas ou privadas, de estímulo à diversidade de gênero, de cor, de faixa etária no mercado de trabalho ajudarão a minimizar o cenário de escassez de pessoal, que incomoda os patrões tanto pelas limitações ao crescimento das empresas quanto pela elevação constante dos salários.
Investimento em qualificação profissional, programas de estágio e ações contra a evasão escolar igualmente ajudariam a absorver o contingente que quer trabalhar, mas não consegue ocupação por falta de experiência ou formação.
— O mercado claramente barra aqueles que não têm qualificação — confirma Cimar Azeredo, gerente de Integração Pnad-PME no IBGE.
Em maior ou menor escala, há projetos em andamento país afora. Não é de hoje que o setor de construção civil passou a incluir mulheres em cursos profissionalizantes. Elas são treinadas e assumem funções relacionadas ao acabamento, como pintoras e ladrilheiras, em vez da força física nas obras.
Segundo a Relação Anual de Informações Sociais (Rais), do Ministério do Trabalho, a construção civil empregava apenas 83 mil mulheres em 2000, uma proporção de 7,5%. Em 2008, eram 138 mil. Hoje, pelas estimativas do Sindicato das Indústria da Construção Civil do Rio de Janeiro (Sinduscom-RJ), esse número triplicou e chegou a mais de 250 mil no país, de um total de 3,2 milhões de trabalhadores no setor. O programa Mão na Massa (instituído em 2007), que visa à capacitação de mulheres de 18 a 45 anos para as atividades de pedreiras, carpinteiras, pintoras e eletricistas em canteiro de obras, já formou 470 alunas. O diretor-executivo do Sinduscon, Antônio Carlos Mendes Gomes, diz que a presença delas traz vantagens:
— Embora ainda incipiente, a experiência (de inserção maior de mulheres) tem se revelado muito válida. Elas têm agregado mais cuidado, organização e qualidade aos serviços que desenvolvem.
A indústria do petróleo, em franca expansão no país, é outra que, crescentemente, se feminiliza. O grande símbolo do avanço feminino na indústria petroleira no Brasil está justamente no cargo de maior importância no país: Maria das Graças Foster assumiu a presidência da Petrobras em janeiro deste ano e se tornou a primeira mulher no mundo a presidir uma companhia do setor. Graça entrou na empresa como estagiária, aos 24 anos, em 1977.
Para absorver estagiários e recém-formados, programas de estágio e de trainee ganham escala. Cada vez mais, grandes empresas fazem processos seletivos de grande porte, com adesão maciça de candidatos. Empresas como AmBev, TIM, Citi, EBX, L’Oréal, Oi, Braskem, Kraft Foods, Lojas Americanas e Unilever investiram em programas para atrair jovens a fazerem carreira desde cedo. Os salários são outro chamariz: a média dos vencimentos de trainees gira em torno de R$ 3 mil a R$ 4 mil, mas há casos, como o da Braskem, em que a remuneração chega a R$5.200..
Como se vê, está nas mãos do Brasil a solução para mais esse gargalo ao desenvolvimento. Basta agir.
Esta reportagem foi publicada no vespertino para tablet "O Globo a Mais"
