sábado, outubro 20, 2012

Brasileiros e alimento seguro


Luiz Valle (*)
Brasil Econômico

Foi divulgado recentemente o resultado dos estudos realizados pela Unilever Food Solutions em 10 países, que aponta o consumidor brasileiro como um dos mais interessados em alimentação saudável.

71% dos entrevistados afirmaram procurar opções saudáveis quando vão a restaurantes. Hum... Quem produz alimentos no Brasil fará ponderações importantes ao tomar conhecimento dos dados dessas pesquisas.

Por exemplo: 

1) poucos são os brasileiros que podem se dar ao luxo de comer fora; 

2) dos que têm essa possibilidade, apenas pequena parte tem condição de escolher alimentos saudáveis na hora de optar pelo restaurante ou pelo item do cardápio e 

3) a massa dos consumidores brasileiros, recém-chegada à condição de classe média, ainda não perdeu o registro cultural de alguns anos passados, o que faz com que, na hora de comprar, priorize o preço.

Uma simples visita à Ceagesp e ao Mercado Municipal de São Paulo; ao Mercado São Pedro de Niterói; à Ceasa do Rio de Janeiro; ao Mercado Público de Florianópolis, será suficiente para flagrar, por exemplo, o comércio legal de frutos do mar (produzidos por empresas com Selo de Inspeção Federal - SIF) desenvolvendo-se ao lado do comércio clandestino (produtos sem rótulo ou com rótulo falso).

E tais produtos clandestinos, evidentemente, são vendidos a preços bem menores. Alguns mercados do setor de varejo, peixarias, restaurantes, comerciantes de todos os gêneros e também consumidores finais estão lá, fazendo suas compras, sem nenhuma preocupação com a qualidade, na escancarada busca de produtos mais baratos. Preço!

O país precisa, sim, buscar mais qualidade, mas não pode perder de vista a necessidade de produzir mais e a custos menores, de modo a satisfazer consumidores cujo radar está ajustado para identificar oportunidades de gastar menos.

Essa avidez por preços baixos, associada à permissividade e à frouxidão dos órgãos de fiscalização, gera o ambiente ideal em que a informalidade e a ilegalidade campeiam.

Como combatê-las? Produzindo em escala e com uso de tecnologia de mecanização dos processos. Ou seja: os nossos produtores formais têm de ser muito criativos e arrojados para superar, praticamente sozinhos, desafios que o estado deveria enfrentar juntamente com eles.

Do contrário, terão de continuar esperando interminavelmente que as instituições governamentais que deveriam regulamentar o mercado cumpram seu papel. Os brasileiros estão dizendo a verdade quando respondem que se interessam muito pela qualidade do alimento que compram.

Afinal, somos um povo de bom gosto. Mas, não nos iludamos: compramos com base no preço. Anuncie-se o quilo da sardinha por R$1,00, e as pessoas irão se acotovelar em torno das prateleiras de venda.

Seja ele elevado para R$4,00, e o turbilhão desaparece, ainda que o preço esteja à altura do bolso do consumidor.

Aos produtores formais resta fazer o milagre de pagar impostos elevadíssimos, amortecer o peso de encargos trabalhistas estratosféricos, arcar com os custos de produzir alimento seguro, concorrer com quem produz e comercializa de forma transversal, e, se possível, ainda gerar lucro...

(*) Luiz Valle é Administrador de empresas, presidente da Cavalo Marinho - Criação e Beneficiamento de Frutos do Mar