Fernando Dantas
O Estado de São Paulo
O auge do otimismo com a recuperação da economia brasileira neste segundo semestre e em 2013 parece ter ficado para trás. Foi emblemática, neste sentido, a recente redução da estimativa de crescimento no próximo ano pelo Itaú, maior banco privado brasileiro, e com um dos mais bem equipados departamentos de pesquisa econômica. A revisão foi de 4,5% para 4%, que é ainda um número que satisfaz o governo. Porém, mais importante do que o valor preciso da previsão, é a direção em que foi revista.
Não será surpresa se, nas próximas semanas e meses, diversas instituições também recalcularem para baixo suas projeções, inclusive o próprio Itaú. O Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da Fundação Getúlio Vargas (FGV), no Rio, por exemplo, estima um crescimento de 3,4% em 2013.
Se essas projeções mais pessimistas se confirmarem, será o terceiro ano consecutivo – e o terceiro ano do mandato da presidente Dilma Rousseff – em que o Brasil terá crescido menos de 4%, que pode ser considerado um patamar mínimo para qualquer economia emergente que se preza.
Porém, mais preocupante ainda é o fato de que a dificuldade da economia brasileira em voltar a se expandir ao ritmo da fase anterior à crise global está levando muitos economistas a reavivar o debate sobre o crescimento potencial do País. Tornou-se comum novamente encontrar analistas que consideram que a economia brasileira não pode crescer por muito tempo a mais do que 3% a 3,5% ao ano sem provocar desequilíbrios macroeconômicos (daí porque este limite de velocidade é considerado o “potencial”).
Nos cinco anos de 2004 a 2008, o ritmo médio de crescimento da economia brasileira foi de 4,8%. No quinquênio de 2009 a 2013, mesmo considerando números muito otimistas para este e para o próximo ano (respectivamente 1,8% e 4,5%), a média cairá para 3,2%. Se for levado em conta altas do PIB de 1,5% e 3,5%, respectivamente, em 2012 e 2013, o crescimento médio de 2009 até 2013 cai para 3%.
Não é de surpreender, portanto, que o quinquênio de ouro da era Lula tenha empurrado as estimativas de crescimento potencial para a faixa de 4,5% a 5%, enquanto que os anos pós-crise global tenham-nas puxado de volta para perto de 4%, ou até para o intervalo entre 3% e 3,5%.
Alguém poderia alegar que 2009, o auge dos efeitos da crise global, deveria ser tirado da conta, por sua excepcionalidade. Mas, neste caso, o ano também excepcional de 2010, quando o crescimento superturbinado de 7,5% claramente provocou desequilíbrios macroeconômicos, também deveria ser eliminado – e ainda estaríamos falando de uma expansão média de 3% ou até menos.
É sabido que o crescimento potencial é uma daquelas variáveis complexas e fugidias da teoria econômica, assim como a chamada “taxa de juros neutra” (que não estimula nem desestimula a demanda). Mas, mesmo sem descer aos pormenores técnicos do debate sobre o potencial, é possível listar alguns dos elementos que restringem o crescimento brasileiro nos próximos anos, na visão de analistas que refletem sobre o assunto.
Há, por exemplo, a questão demográfica, que vem sendo martelada por Alexandre Schwartsman, consultor e ex-diretor do Banco Central. Em relatório do início de outubro, ele notou que o emprego cresceu a uma taxa de 2,5% ao ano de 2003 a 2010, enquanto a população em idade de trabalhar (ou idade ativa, do acrônimo PIA) expandiu-se a um ritmo em torno de 1,5%, que caiu para 1,2% nos anos mais recentes.
Com isso, não foi surpreendente que a taxa de desemprego tenha caído em todo aquele período, saindo de 13% em 2003 para os níveis atuais em torno de 5,5%. O argumento de Schwartsman é que este aumento do número de empregados foi responsável pela maior parte do crescimento da economia brasileira nos últimos anos, enquanto o aumento anual médio da produtividade manteve-se em torno de 1,5%.
O problema, segundo o economista, é que o Brasil já pode estar em pleno emprego, e certamente ultrapassará esta fronteira se a economia crescer a 1% ao trimestre (ou 4,1% ao ano) do segundo semestre de 2012 até o fim de 2014. Neste caso, segundo os cálculos de Schwartsman, o desemprego cairia para 2% no fim de 2014, certamente muito abaixo do nível mínimo que não provoca fortes pressões inflacionárias.
Para ele, se a economia crescer a 4% ao ano até o fim do mandato da presidente Dilma, “isto levaria a uma alta salarial muito além de qualquer nível consistente com a inflação próxima da meta em 2013 e 2014″.
O problema do mau desempenho da produtividade é outro fator apontado por economistas como impeditivo de um ritmo mais rápido da economia brasileira. Segundo números do Ibre, o indicador cresceu bem nos anos antes da crise global, no governo Lula, mas decepcionou posteriormente.
Alguns economistas, como Armando Castelar, da FGV, acham que o bom desempenho da economia brasileira a partir de 2004, e que não foi retomado no governo Dilma, está ligado à alta das commodities, que puxou investimentos em setores direta ou indiretamente ligados à natureza, como soja, minério, aço, etc. Com a desaceleração da China, a demanda por commodities perdeu força, os preços caíram, e o “milagre” de 2004 a 2008 não vai se repetir.
Aliás, a fraqueza dos investimentos, que ainda devem fechar 2012 no negativo, é outro fator que reduz as previsões de crescimento, principalmente levando em conta que os juros reais estão em nível recorde de baixa.
E, finalmente, o setor de serviços, que é o maior da economia, e que foi decisivo no ciclo de crescimento de 2004 a 2010, aumentando a uma média anual de 1,1%, tem se expandido a uma taxa média menor, de 0,5% desde o fim de 2010.
Essa constatação está na última Carta do Ibre, documento mensal de análise econômica. Segundo o texto, “se (a desaceleração dos serviços) for uma mudança estrutural, provavelmente reduzirá o crescimento potencial da economia brasileira”.