terça-feira, fevereiro 19, 2013

O déficit comercial não pode ser ignorado

O Estado de S.Paulo

Embora as projeções da área pública e da área privada apontem para um superávit comercial da ordem de US$ 15 bilhões, neste ano, repete-se nos primeiros dias deste mês a piora dos resultados da balança comercial (diferença entre exportações e importações) constatada em janeiro. No mês passado, o déficit foi de US$ 4,035 bilhões, ante US$ 1,303 bilhão em janeiro de 2012. Nos primeiros dez dias de fevereiro houve déficit de US$ 741 milhões. Já em fevereiro de 2012, o superávit mensal foi de US$ 1,706 bilhão.

Os indicadores gerais do comércio exterior são negativos: a média diária de exportações por dia útil foi de US$ 833 milhões, 12,2% inferior à de US$ 948,8 milhões de fevereiro do ano passado. Ao mesmo tempo, as importações aumentaram da média diária de US$ 851,9 milhões, em fevereiro de 2012, para US$ 956,9 milhões, nos primeiros dias deste mês (+ 12,3%).

Os dados são parciais e, é claro, pode haver mudança. Os resultados ruins podem ser alterados nos próximos dias, antes de configurarem uma tendência. Mas terão de melhorar muito, nos próximos meses, para afastar apreensões.

Ademais, tão ruim quanto a deterioração dos resultados é a falta de transparência dos números. Desde o ano passado, as importações de derivados de petróleo podem ser contabilizadas com até 50 dias de atraso, por instrução da Receita Federal. E foram justamente as importações de combustíveis e lubrificantes as que mais pesaram na alta do déficit comercial deste início do ano.

Em 2012, essa conta foi deficitária em US$ 9 bilhões, pois o Brasil importa 11% dos combustíveis que consome, calcula o especialista Adriano Pires, do Centro Brasileiro de Infraestrutura. Mas a contabilização tempestiva das compras de derivados teria evidenciado que o superávit de 2012 foi bem inferior ao divulgado.

Além disso, entre 2012 e 2013, a demanda de óleo bruto no País deverá crescer 2,6%, de 3,016 milhões de barris/dia para 3,093 milhões de barris/dia, segundo o relatório de petróleo da Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês).

O déficit comercial elevado afeta a percepção do investidor. Cabe ao governo dar mais transparência às estatísticas do comércio exterior. Em especial, porque os problemas da balança comercial não se restringem aos derivados de petróleo: as vendas de produtos básicos caíram 7,2%, na comparação entre as médias diárias de fevereiro de 2012 e de 2013; e as de manufaturados, 15,2%. Óleos combustíveis, aviões e suco de laranja figuraram entre as maiores baixas.