Adelson Elias Vasconcellos
É claro que o tomate virou a piada da semana em que o país soube que a meta de inflação havia sido suplantada. Porém, e isto também ficou claro, o tomate não foi o vilão isolado. Conforme alertamos aqui em outras vezes, os serviços, mais do que os alimentos, estão inflacionados e inflacionando-se há bem mais tempo e muito acima da meta de 6,5%.
O governo Dilma e sua equipe econômica ainda não se deram conta de que a raiz desta elevação de preços acima do previsto, se encontra na ponta conhecida como demanda. E a gente fica com esta certeza, a de que o governo não logrou traçar o diagnóstico preciso sobre a inflação, analisando-se as diferentes micro medidas que vem sendo editadas. Todas, sem exceção, incentivam mais consumo, muito embora o mercado interno não produza suficiente quantidade para atender esta demanda. Como, por outro lado, o governo Dilma tem criado barreiras à importação, havendo mais procura do que oferta, os preços tendem a se elevar.
Vejam o seguinte: de um lado, o governo pratica,, já há alguns anos, aumentos reais do salário mínimo. Durante um tempo, estes aumentos de renda encontraram nos importados o equilíbrio necessário para fazer frente à demanda. Os importados, por sua vez, encontravam no câmbio supervalorizado da moeda local o paraíso perfeito para deitarem e rolarem. E por que o câmbio os favorecia? Porque os juros internos – a SELIC – eram os maiores do mundo, servia como atrativo fatal para a enxurrada de dólares que se internavam em busca de ganhos fáceis. E eram fáceis.
Porém, esta fonte secou um pouquinho quando o governo Dilma fez cair os juros e o ingresso de dólares, em consequência, refluiu. Não que tenham deixado cem por cento de lado a atração pelo mercado financeiro brasileiro: temos ainda os juros altos, o quarto maior índice do mundo. Porém, o governo passou a tributar o capital motel, como ficaram conhecidos estes dólares internados, e isto reduziu a rentabilidade. Consequência imediata: o dólar que chegou a cair para a faixa de 1,50 a 1,60, hoje gira em torno de R$ 2,00.
De outro lado, querendo dar um empurrão no PIB , que vem se arrastando há dois anos, o governo começou a praticar desonerações tributárias pontuais, com o propósito de incentivar o consumo. E, para não perder totalmente o controle, praticou um desconto nas tarifas de energia e segurou os preços dos combustíveis. Todas estas medidas agravaram o excesso de demanda, provocando alta dos preços. Além disto, seca no nordeste, e chuvas no sul, provocaram quedas na produção de alimentos, tornando pior o cenário que já era ruim.
Claro que há solução para os dois desafios que o governo enfrenta: de um lado, para crescer precisaremos aumentar os investimentos, principalmente em infraestrutura e bens de capital. Na infraestrutura há enorme dependência dos marcos regulatórios e, neste sentido, o governo parece não conseguir se livrar de sua maldição ideológica de ojeriza ao capital privado e ao lucro. De outro, apesar da queda da SELIC, os juros no Brasil ainda são altos quando comparados aos parceiros dos BRICS e aos países desenvolvidos. Sobre este tipo de investimento ainda pesam a burocracia infernal e a carga tributária.
Na medida em que o governo vai abrindo o leque de desonerações, é natural que ele espere queda na arrecadação. Como as despesas correntes continuam altas e em elevação, o modo de fechar as contas é a redução dos investimentos públicos. Assim, pelo que se vê, o gargalo para o crescimento do país permanecerá produzindo taxas de crescimento do PIB muito aquém do que podemos obter. E, o nó do custo Brasil, associado as dificuldades da infraestrutura, permanecerá travando os investimentos em bens de capital.
Do lado da inflação as perspectivas também não são animadoras. Com o baixo crescimento da indústria, quando não experimentamos queda na produção, o país continuará dependente das importações para controlar a inflação, ou se verá o saldo da balança comercial despencar drasticamente, o que implicará em déficits crescentes no balanço de pagamentos.
Como o governo está focado em vencer as eleições de 2014, não é de se esperar que venha adotar medidas extremas para vencer os desafios do crescimento baixo e inflação alta. Vai tentar levar no berro, empurrando o quanto puder o problema pra ser enfrentado apenas em 2015. E, independente de ser governo atual ou alguém da oposição, lá na frente vai encontrar uma economia completamente desarranjada, quando não também uma situação fiscal preocupante e precária.
Assim, a conclusão a que se chega diante do atual cenário, é de que o poste de Lula periga terminar seu mandato em verdadeiro curto circuito. Nem fez luz tampouco aponta um brilho no fim do túnel.
Era para ser um governo de continuidade em muitas áreas e de reformas em outras. Não fez nem uma coisa nem outra. Continua enredado no improviso e na falta de um bom plano de voo. Parece que o único plano que funciona neste governo é o de marketing. Neste, os bilhões investidos (ou torrados) farão enorme diferença na hora de contar os votos em 2014. Palmas para João Santana, o guru dos petistas, e o verdadeiro estrategista do governo Dilma.
Comemora-se o pleno emprego, o que aqui já comprovamos ser falso. Não há pleno emprego no Brasil quando cerca de 60 milhões de pessoas, em idade economicamente ativa, se encontram fora do mercado de trabalho. Este dado não é chutometria, é oficial e apurado pelo IBGE. Como também a tal sensação de bem estar que tanto comemoram os petistas, é mais falsa ainda, já que encastelada apenas em programas de renda do próprio governo. São pessoas dependentes da ajuda paternalista do Estado, estagnadas no seu próprio progresso individual, uma vez faltarem as portas de saídas destes programas que se dizem “sociais” para permitir a total emancipação do cidadão. E atenção: hoje cerca de 25% da população brasileira vive nesta situação.
Portanto, tal situação exigiria que o PIB crescesse bem mais, justamente para oferecer perspectivas a este contingente de pessoas fora do mercado de trabalho ou para fugirem ou desvencilhar-se da ajuda paternalista, já muitos destes 60 milhões, também, pertencem ao exército de beneficiários dos programas de renda. Em muitos casos, nem se trata de “renda complementar”, mas de ser a única fonte de renda que os ajuda a sobreviverem.
E, do lado da inflação, se nada for feito para trazer a taxa para o centro de meta, fixada em 4,5% e que ainda é muito alta, já deveria ter recuado para algo em torno de 2 a 2,5%, serão estes milhões que mais sofrerão porque verão sua capacidade de compra sensivelmente reduzida.
Para a sorte de dona Dilma e seu projeto único de reeleição, há tempo para recuperação. Basta ter coragem de fazer agora o que é certo, sem medo de provocar algum aborrecimento à sua massa eleitoral. Afinal de contas, as más escolhas destes últimos dois anos, algum preço hão de cobrar para a correção da rota. É preferível que isto ocorra agora, e não em outubro de 2014.
De certa forma, nesta segunda feira, o governo reconheceu, se bem que por linhas transversas, que não conseguirá cumprir nem as promessas do começo do ano, e nem as da semana passada do sempre otimista Mantega: o salário mínimo, antes previsto para valer R$ 729,20 a partir de janeiro de 2014, já foi reduzido para R$ 719,48. Ou seja, é o próprio governo dizendo: não acreditem em mim.
Fica para amanhã o comentário que desejaríamos fazer sobre a nova promessa milagreira de dona Dilma que, em Porto Alegre, avisou aos navegantes a pretensão de, até 2022, dobrar a renda per capita dos brasileiros. Também gostaria de tratar de outra preocupação que começa a tirar o sono de alguns: a expansão monetária desenfreada com o abandono das regras básicas da responsabilidade fiscal.
Não fosse patética a afirmação, a de dobrar o PIB em menos de 10 anos, e partindo do cenário atual, a gente até que poderia contar como a piada do mandato. O diabo é que a concorrência com outras afirmações do gênero é muito forte.