quarta-feira, abril 17, 2013

Grupo de Eike faz maior oferta pelo Maracanã: R$ 181,5 mi. E quem já não sabia DISTO?


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Com Estadão Conteúdo

Valor equivale a cerca de um quinto do que será gasto na reforma do estádio

Christophe Simon/AFP
 Vista aérea do Estádio do Maracanã 

O valor oferecido pelos consórcios é até secundário - o peso da avaliação técnica é de 60% do resultado da disputa

O consórcio Maracanã S.A., formado por Odebrecht, IMX e AEG, ofereceu mais dinheiro para ficar com o estádio pelos próximos 35 anos. O valor de outorga mínimo exigido pelo edital era de 4,5 milhões de reais por ano, que serão pagos pelo consórcio vencedor para o governo do Rio. O Maracanã S.A. ofereceu 5,5 milhões de reais, 17% a mais que os 4,7 milhões do concorrente na licitação para concessão do estádio, o consórcio Complexo Esportivo e Cultural do Rio, formado por OAS, Stadion Amsterdan N.V. e Lagardère Unlimited. Apesar do período de concessão ser de 35 anos, serão pagas apenas 33 parcelas anuais de outorga. Portanto, no total, a proposta do Maracanã S.A. foi de 181,5 milhões de reais, contra 155,1 milhões da concorrente. O valor da melhor proposta equivale a cerca de um quinto do que está sendo gasto na atual reforma do estádio (sem contar as intervenções antigas - e também milionárias - para o Mundial de Clubes da Fifa, em 2000, e o Pan de 2007).

A sessão para abertura das propostas técnica e econômica dos dois consórcios que concorrem pela administração do estádio está sendo realizada nesta terça-feira. O presidente da Comissão de Licitação, Luiz Roberto Silveira Leite, lembrou aos presentes à sessão que a concorrência do Maracanã não leva em conta somente a maior oferta de preço, mas também a melhor proposta técnica. Na verdade, o valor oferecido pelos consórcios é até secundário - o peso da avaliação técnica é de 60% do resultado da disputa. As propostas serão analisadas nos próximos dias pela comissão e por técnicos do governo do Rio, e não há previsão para o anúncio do vencedor. Antes da abertura das propostas, um grupo de nove manifestantes fez protesto em frente ao Palácio Guanabara contra a concessão do Maracanã. No dia em que os envelopes foram abertos, um grande protesto causou problemas à cidade, mas o governo não aceitou recuar diante da pressão dos opositores do processo.

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Valor do pagamento anual


A outorga prevista no edital é de no mínimo 4,5 milhões de reais anuais ao estado. O governo do Rio ressalta que os participantes do processo poderão oferecer uma outorga maior para aumentar suas chances na disputa. Esse valor mínimo, porém, já seria aceito. O dinheiro a ser recebido não chegará nem perto do valor investido pelo governo no estádio. Nos 35 anos de concessão, um é de carência, sem outorga. Nos 34 que restam, o governo receberá 153 milhões de reais. Somadas as últimas duas reformas do Maracanã (para o Mundial de Clubes da Fifa e o Pan de 2007) e as obras para a Copa de 2014 (orçadas em 869 milhões de reais), o Rio gastou mais de 1,27 bilhão de reais com o estádio. Na verdade, esses 4,5 milhões de reais anuais não são suficientes para pagar nem sequer os juros dos empréstimos que o Rio contraiu para bancar as obras para 2014 (só com o BNDES, são 29,6 milhões). O governo afirma que já sabia que não teria como recuperar o investimento através da concessão. Mas o tamanho do abismo entre o que foi gasto e o que será recebido - uma diferença superior a 1 bilhão de reais - causa desconforto.

Valor dos investimentos obrigatórios


No fim do ano passado, o governo calculava que a concessionária do Maracanã gastará cerca de 43 milhões de reais anuais com a manutenção do estádio, sem contar a outorga a ser paga ao estado. Mas quem ganhar a licitação ainda terá de gastar um total de 594 milhões de reais em investimentos obrigatórios antes da Olimpíada de 2016. O dinheiro servirá para pagar a construção de estacionamentos, um museu e outras obras no entorno do estádio. A exigência é positiva, pois dispensa a necessidade de novos gastos públicos para preparar a região do estádio para a Copa e a Olimpíada. O valor, no entanto, é considerado relativamente baixo se comparado às despesas totais do governo na reforma da própria arena. Além disso, calcula-se que o potencial de receita do Maracanã seja suficiente para cobrir o gasto da concessionária com esse pacote de investimentos dentro de pouco tempo. O próprio governo estimava em 154 milhões de reais a receita anual do estádio, que deverá atrair, além das partidas de futebol, um número significativo de grandes eventos, principalmente musicais (nos últimos anos, o Brasil se firmou como escala importante para as principais turnês de artistas internacionais).

Veto à participação dos clubes


O modelo proposto pelo governo impede que os times de futebol entrem na briga para conseguir a concessão do Maracanã. No passado, os rivais Flamengo e Fluminense chegaram a ensaiar uma parceria nesse sentido. Pelas regras do processo, porém, eles terão de se acertar com a concessionária para conseguir usar o estádio (atualmente, as duas equipes mandam a maioria de seus jogos no Engenhão, que foi arrendado pelo Botafogo depois do Pan de 2007). O aspecto positivo dessa decisão é a preservação do Maracanã como o principal palco do futebol carioca, evitando sua transformação na casa de apenas um grande clube do Rio. Para alguns especialistas em gestão esportiva, contudo, isso pode trazer problemas no futuro. Na Europa, os grandes clubes aumentaram sua arrecadação quando passaram a adotar um conceito diferente de exploração de suas arenas: restaurantes e lojas próprias atraem o torcedor a passar mais tempo no estádio (e, claro, a gastar muito mais no dia do jogo). Se continuarem como simples inquilinos, clubes como Flamengo e Fluminense podem preferir erguer suas próprias arenas no futuro, deixando o Maracanã de lado. O Fluminense, inclusive, confirma ter planos nesse sentido.

Demolições ao redor do estádio


Ao lançar a proposta para o futuro do Maracanã, o Rio selou o destino de várias construções vizinhas ao estádio. No mesmo dia em que o governo estadual anunciava o início do processo, em outubro de 2012, a prefeitura revertia o tombamento do Parque Aquático Julio Delamare e do Estádio de Atletismo Célio de Barros, antes considerados patrimônios culturais da cidade. Tanto o parque aquático como o estádio serão demolidos para abrir espaço para os futuros estacionamentos e para melhorar a circulação de pessoas ao redor do Maracanã. Também seria demolido o prédio do antigo Museu do Índio, que vinha sendo ocupado por cerca de vinte índios que reivindicavam a construção de um centro dedicado à sua cultura no local. Decidiu-se, porém, pela reforma do local, que vai passar a abrigar um Museu Olímpico. Por fim, deverá ser derrubada a Escola Municipal Friedenreich, considerada modelo - costuma aparecer entre as melhores do estado nas avaliações realizadas no Rio. As polêmicas demolições devem abrir espaço não só para estacionamentos, mas também para bares, restaurantes e lojas. Essas novas instalações serão exploradas pela futura concessionária do complexo - e podem reforçar o potencial de receita de quem assumir o local.

Maracanãzinho na Rio-2016


Uma das poucas partes do complexo que não será demolida, o Ginásio do Maracanãzinho também é alvo de uma controvérsia na proposta de concessão, já que a arena corre o risco de ser excluída da Olimpíada de 2016. Reformado para o Pan de 2007 (a obra custou 90 milhões de reais), o ginásio passou quase três anos sendo modernizado. Segundo a proposta de concessão, quem assumir o Maracanã terá de melhorar a acústica do local e realizar uma obra nas arquibancadas. O Maracanãzinho tem 11.800 lugares em sua configuração atual. Se a obra que está prevista pelo governo for concretizada, a capacidade cairá para cerca de 9.300 pessoas - o que deixa o ginásio muito abaixo da capacidade mínima acordada com o Comitê Olímpico Internacional (COI) para receber os jogos de vôlei em 2016. Nesse ponto, no entanto, a polêmica deverá ter vida curta: diante do risco de comprometer o uso do ginásio na Olimpíada, o governo já se comprometeu em adaptar os planos para cumprir as exigências do COI. O comitê da Rio-2016 informou estar trabalhando em parceria com o governo para indicar os ajustes.