Reinaldo Azevedo
Os sindicalistas do setor prometem parar os portos por 25 horas na quinta-feira da próxima semana, dia 18. É um protesto contra o que chamam “impasse” nas negociações com o governo e também contra a presença da Abin no porto de Suape. A órgão de inteligência do estado teria se “infiltrado” entre os trabalhadores. Aqui e ali, alguns jornalistas se arrepiaram: “Que coisa mais autoritária!”. Vamos ver.
Sou insuspeito de simpatia pelo petismo. Acho o governo de Dilma Rousseff fraco e ruim. Acharia ainda que ela tivesse 99,999% de aprovação. Eu reivindico ali um lugar naquela dízima periódica. Talvez encontrasse ao menos mais um, nem que fosse no infinito (ficou parecendo música do Biafra!). Mas a presidente fez ao menos uma coisa certa, necessária: a MP dos Portos. “Ah, deveria ter negociado mais…” Ainda que devesse. Não é o que está pegando. Os que se opõem à MP, infelizmente, falam em nome de privilégios que danam o país, que comprometem a sorte de milhões de brasileiros.
Já escrevi um post a respeito no dia 15 do mês passado. Estão contra a MP dos Portos os empresários que já têm seus interesses consolidados e aprenderam a lucrar com o atraso e os sindicalistas, que acabaram desenvolvendo uma parceria com o tal Ogmo — esse nome de ET de filme infantil, que é um dos agentes do atraso. Trata-se do Órgão Gestor de Mão de Obra. O que é isso? É uma entidade civil de utilidade pública criada pelos operadores dos portos. Sim, o troço, na prática, é privado. É obrigatório que cada porto público tenha o seu, que organiza a fila da estiva e fornece a mão de obra. É ele que determina a quantidade de trabalhadores e o valor do serviço. Quando foi criado, em 1993, os sindicatos não gostaram e prometeram parar os portos — antes, eles é que definiam quem trabalhava e quem não trabalhava. Acabaram se adaptando e desenvolvendo uma parceria com essa estrovenga.
A nova MP permite a contratação de trabalhadores pela CLT EM PORTOS PRIVADOS! Os públicos, atenção!, continuam sob a gestão do bicho feioso — tudo para não ferir “direitos”. Os sindicatos não querem e acusam “precarização da mão de obra”. É a primeira vez na história que alguém diz que o uso da CLT é um mal para o trabalhador. O Brasil acaba de igualar os trabalhadores domésticos a outros. No caso dos portos, a chegada da CLT é vista como um mal.
Os portos são um feudo da Força Sindical. O deputado Paulo Pereira da Silva (PDT-SP) resolveu ser um defensor, digamos assim, do statu quo. Fala em nome daquela que é, talvez, a mais arcaica das estruturas produtivas do país. Infelizmente, ganhou uma aliado de peso, ainda que por razões específicas: o governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB). A MP passa a gestão de Suape do estado para a União. Isso é visto como uma agressão à “pátria pernambucana”. Ao se opor à MP em razão deste aspecto, Campos acaba se alinhando com a mais espetacular soma de ineficiências do país.
Sim, talvez o governo federal devesse ter conversado mais com o seu ainda aliado e coisa e tal. Mas isso não torna meritória a adesão do governador às fileiras do atraso. O Brasil é mais do que Suape; o Brasil, afinal, é mais do que Pernambuco. Ou, então, que ele isole a sua reivindicação das demais.
A Abin e a escandalização do nada
Descobriu-se que a Abin estava lá colhendo informações no porto de Suape para saber a quantas andava a mobilização dos portuários. Indagada a respeito, a Agência Brasileira de Inteligência negou. Acabou confrontada com documentos que evidenciam o contrário.
Eu não quero chocar nem escandalizar ninguém, mas a agência agiu certo nos dois casos. Se existe uma movimentação em favor da paralisação de um setor essencial para a economia brasileira e se isso se dá, muito especialmente, em estabelecimentos públicos, A ABIN TEM O DEVER DE ESTAR PRESENTE E DE INFORMAR A PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. Querem que a Abin faça o quê? Que fique coçando os países baixos? Que fique brincando de amarelinha? De passar anel? De roda? De beijo, abraço, aperto de mão (em tempos de Feliciano, é sempre beijo, certo?). Não! TODA ABIN TEM DE IR ONDE A AGITAÇÃO ESTÁ. “Ah, mas é uma democracia!” E daí? Quem disse que o regime democrático dispensa essas informações? Perguntem se não é assim em todas as nações democráticas do mundo.
“Ah, mas por que justo em Suape? Justo no porto do estado em que há um possível candidato à Presidência…” Bem, gente, no porto de Minas é que não seria, né? O mar não teve o privilégio de beijar aquelas montanhas, belamente cantadas em versos por Cláudio Manuel da Costa. Vai ver havia uma mobilização mais forte em Suape. Uma coisa é certa: se Dilma quer espionar Eduardo Campos, não será enviado seus agentes 86 para o porto. Essa conversa é só ridícula.
Como é ridículo que a negativa inicial da Abin cause espécie. Esperavam o quê? “Ah, é verdade, a gente andou mesmo espalhando as nossas agentes 99 por aí… Olhe, jornalista, aqui estão os outros eventos que a gente acompanha.” O saudoso Casseta & Planeta tinha um quadro com os agentes secretos que andavam com um saco pardo na cabeça… Que é que há? É o mínimo que se espera de um governo: que esteja bem informado sobre o que se dá nesses movimentos sociais.
Pois é… A depender do caso, o governo Dilma pode ser defendido, sim, mesmo por Reinaldo Azevedo, ué… Eu ficaria feliz se alguns petistas se perguntassem: “Reinaldo a favor da MP dos Portos e afirmando que a Abin apenas cumpriu o seu dever??? Onde foi que nós erramos?”. A resposta seria simples: ora, nesse caso, o governo fez a coisa certa. E eu pretendo ter compromisso com o acerto, não com o erro.
PS – Eduardo Campos tem muitos bons motivos se quiser se opor ao governo Dilma. Deveria.