André Rocha
Valor
Em 1999, o Brasil vinha de baixo crescimento do PIB e déficits crescentes em transações correntes. A desvalorização da moeda brasileira naquele ano animou os investidores e o Ibovespa se apreciou 152%. Será que vivemos momento parecido?
O Plano Real teve enorme sucesso em debelar a inflação apoiando-se primordialmente em duas variáveis macroeconômicas – o câmbio administrado e os juros elevados. Com o crescimento do déficit em transações correntes e baixo crescimento do PIB, o modelo passou a ser questionado.
No início do segundo mandato do Presidente Fernando Henrique Cardoso em 1999, o regime cambial se exauriu, ocorrendo uma maxidesvalorização, com a moeda brasileira perdendo 32,4% em relação ao dólar. Os investidores se animaram com o novo cenário macroeconômico e correram para a bolsa. O Ibovespa, no mesmo ano, avançou 152%.
Empresas exportadoras como Aracruz (atual Fibria) e Vale (VALE5) andaram 391,9% e 253,3%, respectivamente. Petrobras (PETR4) que na época tinha o preço de seus derivados atrelados ao preço internacional se valorizou 246,6%. Empresas com maior foco no mercado doméstico como CSN (CSNA3) e Bradesco (BBDC4) tiveram apreciações “mais modestas” de 177% e 137,7%, respectivamente. Com as novas condições macroeconômicas, o PIB cresceu 4,3% em 2000.
Nas últimas semanas, dois artigos de economistas de matizes distintas - Edmar Bacha e Yoshiaki Nakano - publicados no Valor falam da possibilidade de uma desvalorização mais forte da moeda brasileira.
Bacha no artigo “Economia brasileira 2.0”, de 10/05/13, vê a economia brasileira enferma com baixo crescimento, inflação elevada e desindustrialização. Ele propõe três pilares para a recuperação: “reforma fiscal, substituição de tarifas por câmbio e acordos comerciais, a serem implantados de forma integrada e progressiva”. Ninguém melhor que o mesmo para explicar a segunda medida: “o segundo maior problema é o câmbio. Esse é o tema do segundo pilar da proposta, a saber, a substituição da proteção tarifária contra as importações por uma "proteção cambial". Brevemente, trata-se de anunciar uma redução substancial, a ser implantada de forma progressiva, das tarifas às importações, dos requisitos de conteúdo nacional, das preferências para compras governamentais, das amarras aduaneiras e portuárias e das especificações técnicas de produtos distintas daquelas adotadas internacionalmente. (...) Nesse caso, sob um regime de câmbio flutuante esse anúncio terá o efeito de desvalorizar o câmbio, pois os agentes financeiros passarão a comprar dólares e a vender reais, para lucrar com o aumento da demanda de dólares que ocorrerá para efetuar as importações adicionais que serão facilitadas”. Ele propõe um estudo que definiria “qual seria a taxa de câmbio que equilibraria a balança comercial na ausência das medidas protecionistas que vão ser eliminadas. Essa seria a taxa de câmbio de referência para a definição de uma banda de variação cambial”.
Já Nakano no artigo “Câmbio: o longo prazo já começou”, de 14/05/13, mostra preocupação com os déficits de conta corrente crescentes. E alerta: “Portanto, inevitavelmente, em algum momento no futuro, a taxa de câmbio terá que se ajustar para equilibrar as transações correntes do país”. Faz até uma projeção de qual seria o câmbio de equilíbrio: “Num cálculo muito conservador, o ‘Observatório de Taxa de Câmbio da FGV/EESP’ estimou que a taxa real efetiva de câmbio de longo prazo de equilíbrio, em 2012, deveria ser 22% mais depreciada que a vigente naquele período. Observe-se que essa taxa seria aquela que teoricamente traria o equilíbrio externo, no longo prazo, determinado pelos fundamentos da economia, considerando, inclusive os efeitos dos termos de troca.” Contudo não acredita que ocorrerá no curto prazo, pois “para neutralizar os seus impactos inflacionários, a desvalorização do real teria um custo de ajuste fiscal que certamente a elite política e os partidos de sustentação não estão dispostos a arcar neste momento”. Mas inevitavelmente, “em algum momento no futuro, o mercado se encarregará de ajustar o câmbio. É verdade que temos mais de US$ 370 bilhões em reservas cambiais que postergarão eventual crise. Mas não a evitarão. (...) Uma vez criada a desconfiança de que uma depreciação se tornou necessária, ela se tornará inevitável”.
O tema também foi assunto da coluna de Cristiano Romero esta semana (“Tombini e o câmbio”). Pressões sobre o câmbio parecem estar a espreita: “Dias tensos virão. Há no governo quem defenda uma nova rodada de depreciação da moeda. Além disso, há forças de uma desvalorização vindo do mercado, motivadas principalmente pelo debate em torno da normalização monetária de economias ricas, como a americana, mas também pelo aumento do déficit em conta corrente do Brasil.”
O Brasil passou de superávit em transações correntes de 0,11% em 2007 para déficit de 2,93% em março de 2013, considerando-se os últimos 12 meses. Algumas variáveis indicam que uma desvalorização mais agressiva ainda pode estar distante: o déficit atual é bem menor do que o verificado em 1998 (-3,96%) e o Brasil possui colchão de reservas confortável. Outro ponto é que a maxi hoje pode ter efeito mais limitado do que a ocorrida há 14 anos, pois a demanda mundial está mais fraca o que pode limitar o impulso das exportações. Contudo, o mercado acionário costuma se antecipar e as notícias de depreciação cambial podem, no mínimo, reduzir a pressão vendedora sobre as ações das exportadoras.

