Maria Helena RR de Sousa*
Brichmann & Associados Comunicação
...Mas ainda bem que nenhum jovem com a cabeça no lugar perde tempo assistindo às sessões de nosso Congresso transmitidas pela TV Câmara. Paguei muitos dos meus pecados, se não todos, ao resolver assistir à tramitação da MP dos Portos! Uma coisa inacreditável! Palavra, tirando dois deputados...
"Não vai precisar ter vazamento do Wikileaks, estamos colocando à disposição as coisas que nós fizemos, inclusive as coisas no Itamaraty. Nós vamos vazar antes do WikiLeaks." Lula, 15 de dezembro de 2012.
"Nenhum presidente pode escrever um livro de verdade. Porque ele não pode contar tudo do que aconteceu no seu mandato presidencial". Lula, 13 de maio de 2013, no lançamento do livro "10 anos de governos pós-neoliberais no Brasil: Lula e Dilma".
Vazar ou não vazar, esse o grande dilema do recém-repaginado Lula. (Ele está diferente, não está? Não sei se é o colorido do cabelo, ou o novo estilo de bigode, ele está parecidíssimo com Bienvenido Granda...).
Voltando ao dilema: em 2012 ele ia contar tudo, não ia sobrar nada para o Assange. Natural, afinal ele não é amigo do australiano vazador. Mas fazer isso com o Emir Sader, tão seu amigo, francamente, foi mesquinho. A Boitempo merecia um livro com mais vazamentos, um bom best seller.
Mas Lula estava inspirado na noite do lançamento do livro compilação do sociólogo Sader:
"(...) Lula afirmou que ‘se um investidor estrangeiro chegar de Londres no Brasil e ler o Estadão, O Globo, a Veja, a Época, ele vai embora correndo! (...) O político ideal que vocês desejam, aquele cara sabido, aquele cara probo, irretocável do ponto de vista do comportamento ético e moral, aquele político que a imprensa vende que existe, mas que não existe, quem sabe esteja dentro de vocês". Estadão, 14/05/2013
Foram ou não lindas palavras?
Lindas, sim, mas encerram tremenda contradição. Vamos analisar as palavras do ex-presidente em exercício: nossa Imprensa pinta um Brasil que assustaria o mais destemido dos investidores estrangeiros, mas ao mesmo tempo descreve um político moralmente irreprochável. Ora, um país com homens como os que "a Imprensa vende que existe" seria um imã a atrair empresários do mundo inteiro.
Lula precisa se definir. Queixou-se da Imprensa que o chama de lobista, coisa que ele não é nem aqui nem na África. Ele é, segundo suas palavras, um divulgador, e cobra bem para divulgar tudo que há dez anos fez e faz pelo Brasil.
Na mesma noite, Lula pediu aos jovens que não desistam da política. Tem toda a razão. Isso é fundamental. Mas ainda bem que nenhum jovem com a cabeça no lugar perde tempo assistindo às sessões de nosso Congresso transmitidas pela TV Câmara. Paguei muitos dos meus pecados, se não todos, ao resolver assistir à tramitação da MP dos Portos! Uma coisa inacreditável! Palavra, tirando dois deputados, o resto podia ter ficado afásico e teria sido um bem para o Brasil.
No entanto, devo agradecer: o sacrifício serviu para eu aprender o que quer dizer governo pós-neoliberal.
É aquilo.